FLUSSERBRASIL



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Vilém Flusser

O Estado de São Paulo, 22 de outubro de 1965

 

O título deste artigo não é pronunciável. Se “ponto de interrogação”, não o estou pronunciando, mas nomeando o signo impresso no topo deste artigo. Há pois uma diferença entre signos do tipo “?” e signos do tipo “M”. Essa diferença tem a ver com o seu significado. E o “significado” é, como sabemos (ou deveríamos saber), um dos problemas centrais do pensamento da atualidade. A consideração, a contemplação e a ponderação do signo “?” pode servir de introdução para uma pesquisa de significado de “significado”. Mas o propósito do presente artigo é mais modesto. Expõe e exibe o signo "?" à maneira da “pop art”, não para pesquisar o significado, mas para sugerir algumas considerações quanto ao significado de “?”.

O signo “?” tem significado, embora não tenha sentido. Sei que tem significado, porque sei como usá-lo. Para mim, sabedor que sou do seu uso, é um símbolo significativo, um signo propriamente dito. Para uma criança de dois anos, ignorante do seu uso, o signo não é significativo, é um rabisco. Se considerar, contemplar e ponderar o signo “?” ingenuamente, como uma criança de dois anos, nunca descobrirei o seu significado. O método fenomenológico é um método que procura reduzir todos os conhecimentos que tenho de um objeto, a fim de permitir que possa captar a essência do objeto. É, de certa maneira, o método da “pop art”. Pego a roda de uma bicicleta velha e penduro na parede. Procuro esquecer tudo que sei a seu respeito, inclusive que é “roda de bicicleta”. E o objeto assim exposto e exibido começa a revelar a sua essência mesma. Mas se o objeto for “?”, o método fracassa. A essência mesma de “?” é o seu significado, e este se perde na redução do meu conhecimento. Se o meu objetivo e a minha intenção for a captação da essência de “?”, devo dar graças a Deus por não ser criança de dois anos. Este primeiro resultado das nossas pesquisas, embora modesto, já poderia servir de lição para alguns artistas da atualidade.

O signo “?” tem significado, embora não tenha sentido. Sei que não tem sentido, porque sei que não quer dizer nada. A sentença “que dia é hoje?” quer dizer algo. Tem sentido, e o sentido é aquele algo que a sentença quer dizer. Nessa sentença ocorre o signo. Ocorre significativamente. Embora não queira dizer nada, possibilita que a sentença queira dizer algo. O sentido da sentença tem algo a ver com os significados dos signos que nele ocorrem. Mas apenas a sentença tem sentido. E perguntar pelo sentido dos signos é fazer uma pergunta sem sentido. Este segundo resultado, igualmente modesto, poderia servir de lição para alguns filósofos profundamente interessados pelo sentido das coisas, ou pelo sentido profundo das coisas.

Pois bem, mas qual é o significado de “?”? Posso imaginar, de golpe, dois tipos de resposta a esta pergunta. O primeiro tipo seria algo como isto: “?” significa que a sentença na qual ocorre é uma pergunta. O segundo tipo seria algo como isto: “?” significa que a sentença na qual ocorre deve ser pronunciada com uma determinada melodia. No primeiro  tipo de resposta estou considerando o signo “?” como fazendo parte de um simbolismo lógico, no segundo tipo como fazendo parte de uma escrita musical, a saber: o alfabeto. Esta duplicidade de interpretações me confunde. Acaso não acabei afirmando que conheço o uso de “?”? Como posso pois vacilar na interpretação do seu significado? Sei que as duas interpretações que ofereci estão intimamente ligadas entre si, mas sei também que divergem radicalmente quanto à captação da essência do signo. Terceira lição a ser tirada da pesquisa em curso: posso utilizar-me da maneira correta de signos, posso pois lhes conhecer perfeitamente o significado, sem poder dar uma interpretação adequada do meu procedimento (como posso utilizar-me do rádio sem poder “explicar” como funciona). E esta lição ilumina um dos deveres principais (senão o dever único) da filosofia: procurar interpretar o uso dos signos nas sentenças. Assim poderá a filosofia esperar descobrir o sentido das sentenças, que é, por definição, todo o sentido. A suma sabedoria, a pedra filosofal, a filosofia perene, é pois uma interpretação de signos que ocorrem em sentenças. Que triste fim de uma disciplina iniciada na proximidade dos deuses gregos.

Cabisbaixos e entristecidos (mas não desanimados), mudaremos de enfoque. O signo “?” não pode ser pronunciado. Ocupa pois um lugar especial no simbolismo lógico e no alfabeto. O signo “ou” é um signo lógico pronunciável. A letra “a” é um signo alfabético pronunciável. O signo “?” (e outros semelhantes) é diferente. Tanto na lógica como no alfabeto, é como um mensageiro de um mundo diferente. Será algo como um hieróglifo? Mas os hieróglifos são signos que derivam de imagens de objetos, e algo de objetual sempre adere a eles. O signo hieróglifo que significa “andar” deriva da imagem de duas pernas, e o significado “andar” tem algo a ver com duas pernas. Uma análise do significado de “?” no entanto nunca descobrirá um objeto. Será pois algo como um ideograma da escrita chinesa? Mas o ideograma significa um conceito, uma idéia. O nosso signo “3”, este sim, pode ser considerado ideograma. Mas análise alguma do significado de “?” descobrirá uma idéia, um conceito, no seu fundo. E considerem o seguinte: o hieróglifo pode ser pronunciado. O ideograma, quando não pronunciável (e apenas nomeável como o nosso “?”), não afeta a pronúncia dos demais signos como o faz o nosso (o ideograma “3”, embora não pronunciável e apenas nomeável, pelo nome “três”, não afeta a pronúncia do ideograma “4” na sentença “7-4=quanto?”). Não, o signo “?” não é nem hieróglifo, nem ideograma.

Aquilo que descubro no significado do signo “?” não é nem objeto, nem conceito, nem relação, mas um clima. O clima da interrogação, da dúvida, da procura. A consideração, a contemplação e a ponderação do signo “?” provocam em mim este clima que contrasta com o clima final e conclusivo provocado pelo signo “.”, com o clima imperativo e provocativo do signo “!”, com o clima provisório e aliciante do signo “,”. Foi por isto que coloquei o signo “?” no topo deste artigo: para provocar o clima de interrogação, dúvida e procura que é o seu significado. Em suma: signos como “?” são os mensageiros existenciais nos sistemas simbólicos nos quais ocorrem e mergulham esses sistemas nos seus climas.

Estou contemplando um texto. Um poema ou um romance. O clima existencial do texto é articulado, em grande parte, pela freqüência da ocorrência de signos como “?”. O autor recorre a sentenças curtas. Ocorrem muitos “.”. O clima é final e conclusivo. O autor recorre a sentenças longas. Ocorrem poucos “.” e muitos “,”. O clima é provisório e aliciante. O autor recorre muito a “!”. O clima é exclamatório e pomposo. O autor recorre muito a “?”. O clima é de dúvida e de procura. Os signos agem sobre mim com impacto imediato. Não sei conscientemente porque antipatizo com o autor, até descobrir que antipatizo com o clima provocado pelos “!” aos quais recorre. Será possível destilar esse clima?

Considerem pseudo-sentenças como esta: “????”, ou como esta “...!”. São pseudo-sentenças já que não têm sentido. Mas são extremamente e exageradamente significativas. A primeira significa algo como “e agora, o que fazer numa situação tão enigmática?”, e a outra significa algo como “vejam só, que desfecho inesperado!”. Comparem essas pseudo-sentenças com outras, por exemplo: “e ou e ou se então”, ou “blá blá blá”. Todas as quatro sentenças carecem igualmente de sentido. Mas as duas primeiras demonstram vivencialmente a carga existencial dos seus signos. E esta é a quarta lição a ser tirada da nossa pesquisa: dada a carga existencial desses signos mesmo em pseudo-sentenças, que sejam utilizados com economia e discernimento por aqueles que procuram dar sentido, e não apenas significado, às suas sentenças.

O uso do “.” é inevitável. A tentativa do aboli-lo (empreendida por alguns) é inautenticidade. O “.” parece ser característico do clima do nosso discurso. E talvez seja no fundo por esta razão que os analisadores formais do pensamento têm todos preferência por sentenças que acabam por “.”, por sentenças afirmativas. Mas os demais signos existenciais são evitáveis. Em vez de dizer “que dia é hoje?”, posso dizer “quero saber que dia é hoje”. Esta possibilidade de substituir signos, de mudar o clima existencial do pensamento, é uma forma importante da minha liberdade. Utilizemo-nos dela com inteligência, sensibilidade e bom gosto. Não façamos desses símbolos gestos ocos e pretensiosos. Mas tornemo-los instrumentos da articulação autêntica da situação na qual estamos. Devo confessar que entre todos os signos existenciais é o “?” aquele que mais significativamente articula, a meu ver, a situação na qual estamos. Creio que pode ser elevado a símbolo da nossa época com justificação maior que qualquer outro. Maior inclusive que a cruz, a foice e o martelo, e a tocha da estátua da liberdade. Mas elevado assim a símbolo, deixa de ser obviamente o “?” um signo que ocorre em sentenças com sentido. Sofre o destino de todos os símbolos extra-sentenciais: é equívoco e nebuloso. Contentemo-nos pois com o “?” como signo que ocorre em sentenças. Mas saibamos manter fidelidade ao seu significado.

Não será este o papel mais nobre da nossa poesia? Formular sentenças com sentido novo que tenham um significado que lhes é conferido pelo “?” pelo qual acabam? Formulando este tipo de sentenças, rasgará a poesia novas aberturas para um discurso que ameaça acabar em ponto final.