FLUSSERBRASIL



COMUNICAÇÃO
Vilém Flusser

Ficções filosóficas.
São Paulo: Edusp, 1998.

 


I


Perdi a conta dos dias que passei com ele naquela cela estreita e escura. Perdi a conta das vezes que compartilhei com ele daquele mingau repulsivo que aqui passa por comida, e daquele vaso horrível que passa por instalação higiênica. Tinha se estabelecido entre nós uma intimidade física degradante tanto mais absurda por jamais ter eu lhe visto o rosto, tamanha a escuridão da cela.

Temos trocado umas poucas palavras, todas elas relativas à situação imediata, mas não se estabeleceu entre nós o menor contato mental, por primitivo que seja. A nossa intimidade fisica era acompanhada por uma separação intelectual total, como que para provar que se trata de dois mundos distintos. Essa situação aumentava, dia a dia, e o meu sentimento do absurdo intolerável. Se quisesse suportar a convivência forçada, era necessário estabelecer uma comunicação mental com o meu companheiro de cela.

As poucas palavras que ele tinha pronunciado a contragosto, com voz rouca, revelavam uma personalidade grosseira, agressiva, dominadora, cheia de falsa segurança em si mesmo, inculta e alheia a qualquer pensamento abstrato. Revelavam uma personalidade prática e pragmática, inimiga da teoria e da especulação; em outras palavras, eu estava frente a frente com um criminoso primitivo. Isto dificultava a possibilidade de eu me comunicar com ele, pois compartilhava de muito poucos interesses com um espírito dessa categoria. No entanto, ele fazia parte da mesma sociedade ocidental, e era inconcebível que não existisse algo comum entre nós, além da comida e da digestão, que pudesse servir como base de um contato.

Pesei em minha mente cuidadosamente as primeiras palavras que lhe ia dirigir, porque sentia que tudo dependia delas. Um primeiro mal-entendido, uma primeira reação hostil de sua parte prejudicariam basicamente todas as minhas tentativas futuras e substituiriam o clima atual, o absurdo, pelo clima de hostilidade. Não podia começar o contato com a minha apresentação, porque o meu nome estrangeiro poderia provocar no seu espírito toda uma cadeia de reação, fazendo explodir toda uma série de preconceitos. Ao pronunciar meu nome, teria eu demonstrado a separação profunda entre nós, ao invés de nossa comunhão de interesses. Tampouco deveria eu lhe perguntar seu nome. Todo sinal de curiosidade precisava ser evitado. A sua agressividade denotava uma profunda ansiedade, suscetível de transformar-se em ataque brutal ao menor sinal de interesse alheio, interpretado como espionagem. Apresentações de nomes ficaram, portanto, excluídos da minha tentativa de iniciar uma conversação com ele.

Era necessário estabelecer uma base neutra que não envolvesse nem a sua nem a minha personalidade e que tivesse um significado aproximadamente igual para ambos. Uma vez encontrada a base, o tema da minha comunicação tinha que escolher as minhas palavras com o máximo cuidado. Não devia usar palavras que talvez lhe fossem estranhas. Isto provocaria a sua desconfiança. Não devia usar palavras por ele consideradas difíceis. Isto poderia causar a impressão de prepotência de minha parte. Não devia usar palavras primitivas demais. Isto poderia ser interpretado como sinal de desprezo. Muito importante era também a entonação da minha voz, que devia ser a mais neutra possível. Não devia denotar nenhuma emoção, qualquer que fosse. O perigo de uma interpretação errônea de toda emoção era evidente. Imaginava que a escala de emoções por ele aplicada deveria ser maior e mais larga que a minha. Provavelmente ele conhecia emoções mais fortes e menos graduadas. Uma leve simpatia minha poderia ser interpretada como sinal de amizade não solicitada; uma leve reserva, como sinal de hostilidade.

O meu sotaque representava um problema dificil. Era infelizmente inevitável; sabem que me esforçaria por suprimi-lo até o limite do possível. É verdade que ele não conseguiria localizá-lo geograficamente ou socialmente. Nunca, nem aproximadamente, ele me colocaria na burguesia tcheca. Tentei, em vão, imaginar que consonância o meu sotaque provocaria em seu espírito. Não consegui descobrir que classe de preconceitos seriam por ele provocados. A nossa primeira conversa estará, pois, por necessidade do meu sotaque, banhada em dubiedade.

Passei a estudar o tema a ser comunicado. Eliminei todos os assuntos relativos à nossa situação atual, por demais suscetíveis de interpretações erradas. Todo o vasto campo da comida, bebida, digestão e comodidade física ficou excluído. Isto dificultou o meu propósito, pois justamente nesse campo residiam as melhores esperanças para uma comunhão de interesses. Restaram, no entanto, três terrenos com alguma promessa de êxito, a saber: esporte, política e sexo. Depois de demoradas considerações eliminei os dois primeiros. Tratava-se de assuntos que tinham para o meu interlocutor talvez cargas sentimentais que me eram estranhas. Talvez fosse ele corinthiano ou janista, e uma palavra minha mal interpretada poderia provocá-lo. Sou inteiramente ignorante no aspecto emocional do esporte e um entendimento nesse campo me parecia, portanto, ab initio precluso. Quanto à política, descobri que o que eu entendia por esta palavra provavelmente nada tinha em comum com a palavra idêntica empregada por meu companheiro. Eram meros homônimos sem parentesco de significado. Restava, como último e único recurso, o sexo.

Não nutria dúvidas de que todo o complexo sistema de preconceitos, tabus e atos cúlticos que representa esse tema era para nós dois profundamente diverso. Em nada disso as nossas opiniões, as nossas reações e os nossos sentimentos coincidiriam. A começar pelo próprio ideal de mulher, e confesso que estremeci ao imaginar o dele. No entanto, suprimi essas objeções em favor da seguinte consideração: o ato fisiológico e os processos glandulares de secreção interna e externa, sendo praticamente idênticos em ambos, devem, por força de correspondência, resultar em emoções basicamente parentes. Resolvi, portanto, adotar o tema do sexo para a minha primeira comunicação com meu companheiro.

A riqueza de variações desse tema me confundia. Tão vasta era a gama de possíveis expressões, que tornou difícil a escolha. Optei, depois de demorados estudos, pela comunicação de meu desejo, aliás irrealizável, de ter na nossa cela um objeto sexual, fazendo simultaneamente subentender que esse desejo era compartilhado por meu coprisioneiro. Desta forma, uma base comum de interesses teria sido estabelecida e uma ponte mental entre nós teria sido lançada.

Dado o tema e a variação, restava a ser feita a instrumentação da obra. Para facilitar esse trabalho, construí mentalmente as seguintes monstruosidades, estabelecendo desta forma os limites dentro dos quais me conservaria: “Uma fêmea da espécie homo sapiens na nossa cela seria um desideratum para ambos”. “Com a presença de um representante do sexo fraco seria satisfeito um desejo tanto de Vossa Excelência como meu.” “Ah, como ambos ansiamos por sorver o perfume suave da flor da feminilidade.” “Se tivéssemos uma mulher, hein?” Dentro desses extremos, construí a primeira aproximação, como segue: “Não seria bom se tivéssemos uma mulher conosco?”

Sob análise, no entanto, essa solução me pareceu pouco satisfatória. A palavra “não” traía o meu espírito crítico e negativista. Toda a construção gramatical era complicada, problemática e rebuscada. Optei pois pela seguinte edição simplificada: “Uma mulher aqui seria bom, não acha?”

À primeira vista essa construção me seduzia por sua simplicidade, honestidade e pujança. No entanto, sob análise, acusou defeitos. A palavra “uma” podia ser interpretada como número em vez de artigo, o que criaria um clima extremamente perigoso. A palavra “mulher” tinha, talvez, no espírito do meu interlocutor, uma ressonância em tudo diversa da minha. Parece que nas camadas sociais às quais ele aparentemente pertence ela tem ligação com a palavra “prostituta”. Os dois nasais em “bom” e “não”, tão juntos, trairiam demasiadamente o meu sotaque. Abri, portanto, um novo caminho para a solução do problema, e construí o seguinte: “Que tal uma garota aqui na cela?”

Construção admiravelmente simples, sem verbo, sem nasal, com um único R a trair o meu sotaque. O artigo “uma”, no entanto, era um defeito. Sob análise descobri, além disso, um tom de frivolidade, talvez de todo antipático ao meu companheiro, e em flagrante contraste com a nossa situação de prisioneiros. Francamente me chocou também o seu patente mau gosto. Abandonei, portanto, essa obra para optar pela seguinte: “Mulhé faz falta à gente, não é?”.

Uma construção, creio eu, quase perfeita. Comparável, em sua rigorosa serenidade e severidade, sem ornamentação nem acessório externo, às obras clássicas da Antiguidade. Magistralmente tinha evitado o artigo. A palavra “mulhé”, ao mesmo tempo popular e literária, me parecia de todo apropriada. Os dois verbos eram dos mais simples, e, no entanto, carregados do significado mais profundo. “À gente”: que grandiosa construção, impessoal e neutra, não envolvendo ninguém e envolvendo todos. O “não” tinha assumido uma qualidade positiva, conservando, no entanto, todos os seus aspectos negativos ao mesmo tempo. O clima da frase era ao mesmo tempo irônico e impulsivo. A despeito de certos defeitos secundários, como uma rigorosidade excessiva e a forma gramatical de pergunta, não nego que me senti orgulhoso por ter conseguido uma solução tão feliz, e optei por ela.

Pronunciei, portanto, com voz firme e clara, pausada e calma, as seguintes palavras fundamentais: “Mulhé faz falta à gente, não é?”.

E veio a resposta: “É”.


II


A porta da cela fechou-se atrás de mim. O ambiente era o mesmo de todas as outras celas da minha vida: o ar mofado, com seu leve aroma de metabolismo humano, a janela diminuta, e a escuridão. Mas, aos meus olhos se ajustarem à escuridão, notei a grande diferença: um companheiro de cela.

Observei-o atentamente. Por bem ou por mal estávamos condenados a conviver, e este “bem” e “mal” faziam toda a diferença. Na escuridão sua presença se resumia num par de óculos de aros prateados, e detrás destes dois olhos penetrantes e sonhadores, um intelectual! Mas de que espécie? Observei-o enquanto ele andava de cima para baixo com as mãos entrelaçadas detrás das costas, com passos um tanto pomposos, imerso em meditação profunda, que não parecia deixar lugar para detalhes secundários, como sua condição atual. Parou de repente, e ouvi pela primeira vez sua voz melodiosa e bastante afetada dirigir-se a mim: “Favor o vas-ooo”, o último “o” recebendo três entonações diferentes.

A voz levou-me a um amplo salão, sobriamente mobiliado. Minha cela transformou-se num sarau intelectual. E a mesma voz continuou do centro do salão: “... de símbolos meus caros. Um mundo de símbolos”. Com isto o senhor semicalvo jogou sobre a mesa um maço de cigarros. “Agora no fundo do cérebro começa a funcionar o gigantesco ciclotron que, ao focalizar este maço, envia seus raios de concepções caracterizantes provenientes de um introextroprojetor, que, absorvendo as experiências existenciais, transmite-as ao subconsciente, que canaliza-as ao ciclotron, que é uma outra face do subconsciente e que os reverte finalmente ao objeto, dando-lhe sua simbologia exata. Mas, assim como o átomo é uma estrutura homogênea, o objeto também deixa de existir sem a sua coroa de símbolos determinantes. Assim, objeto é símbolo, que é o próprio ciclotron visto de fora, que é o subconsciente, que por analogia é o introextroprojetor. Tudo isto é muito complicado — e o senhor semicalvo apontou o cigarro — mas o problema é tremendamente complexo. Num corte vertical encontramos o mesmo processo nos seguintes planos: 1º: O objeto real, incognoscível; 2º: A vivência; 3º: O ego, o id e o superego; 4º: O símbolo; 5º: A intuição; 6º: Só é concebível pelos hindus; 7º: Sua existência é suspeitada pelos papuas; 8º: O silêncio; 9º: O nada ei-lo: o Diabo.”

Mas o que faz ele aqui? Seu total desinteresse pela realidade, pelo “lá fora”, pelo “quanto tempo”, enfim, pelas curiosidades costumeiras, indicavam um cérebro abstraído, teórico, uma torre de marfim metafísica. Deve ser um mal-entendido qualquer. Entretanto, o silêncio estava se tornando insuportável. Era preciso dizer-lhe algo, nossas relações não podiam resumir-se em “passa o vaso – devolva o vaso”.

Mas dizer o quê? O que dizer a um homem para quem o mundo prático se resume no metabolismo e um extrointroprojetor? O que será que ele pensa de mim? Ele ouviu minha voz rouca ao responder a seu pedido, e provavelmente vê nos meus olhos os sinais dos meses de guerrilhas, do frio e da fome. Mas ele nem sabe que se luta lá fora! Pela voz ele me dá por “primitivo” e pelos olhos por um “bruto”. Percebe também que tenho sono. Mas para ele ter sono de dia é sofrer de insônia, ou ser ladrão à noite. Ele já tirou as conclusões: sou um criminoso comum.

Entretanto, também ele é Homem. Por mais grossa que seja a camada de marfim, ele compartilha da nossa abjeta vulnerabilidade. Se eu apelar para a “fraternidade universal da dor”, ele me compreenderá. Direi o que aconteceu ontem, friamente, sem exaltação. Assim: “Um dos meus camaradas recebeu uma baionetada e gritava pela mãe, o outro, partiram-lhe a cabeça, e não chamava mais ninguém... Eram meus amigos”. Isto é que devo dizer. Não se pode ver, ouvir, cheirar o sofrimento, sem vivê-lo, sem ter o mínimo que seja de piedade, de revolta. Ele compreenderá!

Lembrei-me do sarau intelectual, e desisti. Ele me condenará em nome de alguma estética, serei mais bruto ainda, um pornógrafo. Existem certos assuntos íntimos, como de banheiro e de boudoir, que não se deve tocar. São nojentos, e ferem o sentimento de pudor. Um gentleman respeita a sensibilidade alheia. Pobre meu amigo. Tuas últimas palavras, o nome de tua mãe, pronunciado na dor final, é pornografia, tuas feridas são antiestéticas. Falhaste como gentleman. Descansa em paz!

Talvez se fosse menos subjetivo; se traísse menos meus sentimentos exasperados. Se dissesse: “vi uma vala contendo quinze mil cadáveres”. Ele ficará alarmado, a conversa estará entabulada, e eu poderei conduzi-la de tal maneira que possa contar-lhe tudo, porque preciso contar, é demais para que um homem possa guardá-lo em si sozinho. Analisei a sentença, tentei ouvi-la com seus ouvidos, e logo percebi o absurdo da idéia: Quinze mil cadáveres! ou Vinte mil cachorros-quentes! ou então Um milhão de gafanhotos! São numerais que qualificam substantivos, simples construção gramatical. O que significam quinze mil cadáveres para um homem que nunca viu um sequer? E se fosse ver? Se conseguisse seqüestrá-lo da sua torre para mostrar-lhe? Não faria muita diferença. Ver é muito pouco para crer. Diria categoricamente como a criança incrédula ao ver a primeira girafa: “Tal animal não existe”; ou então nunca mais abriria um livro.

Naturalmente, há sempre a filosofia. Imaginei como ele ficaria abismado se eu começasse a falar, por exemplo, de lógica. Ficaria confuso, seria mais uma experiência inteiramente nova, talvez a mais chocante desde que o tiraram tão rudemente do seu habitat, os saraus intelectuais. Um espírito cultivado que não se sublimou. Um filósofo que suja as mãos. Incrível! E bem que podia surpreendê-lo. Eu também já sorvi “o doce vinho embriagante da filosofia”, e apreciei-o bastante. Mas desde então vi muitas valas comuns, e ouvi meus camaradas estertorar a palavra: mãe, e desde então pouco me dá se as palavras expressam ou não toda a verdade, porque o que expressam já me basta. E por isso sujei as mãos.

Não, não posso falar de filosofia. Seria hipocrisia, e mais ainda, depois de viver o que eu vivi, seria traição. Isto é algo que ele nunca entenderá. Envolvido hermeticamente por grossas paredes de marfim, não suspeita que existimos nós, que encaramos o mundo detrás de um milímetro de epiderme. Não compreende que para nós a única filosofia possível, o único que nos retém na beira do abismo, que não leva diretamente ao suicídio ou à inautenticidade, é fechar os punhos, cerrar os dentes e gritar: “Merda!” Levantamos a cabeça, e, através das lágrimas, gritamos em desaforo: “Não adianta!” E continuamos a sujar as mãos, porque nem todos estão na vala ainda, e enquanto sobrar um sequer, continuaremos a fechar os punhos, cerrar os dentes e encarar o Universo à frente a berrar-lhe no rosto: “Não vale a pena viver, mas só de pirraça continuaremos”. Tudo isso está expresso naquela palavra.

Tampouco posso dizer isso. Nossos conceitos daquela palavra são inteiramente divergentes. Nós, que vivemos dentro da sarjeta, construímos nossa linguagem figurativa de acordo com esse mundo. Mas ele, que troca as roupas de baixo todos os dias, não poderá fugir à exata conotação gramatical do termo. Para ele, aquela palavra seria... ela mesma. Seria novamente taxado de rufião.

Neste momento o homem parou, e disse: “Mulhé faz falta à gente, não é?” Exatamente isto. Incrível! Aquela familiaridade condescendente lembrava-me o meu tio, pequeno-burguês dos melhores, que de vez em quando resolvia ser democrático, virava-se ao cocheiro e dizia: “Então, seu João, uma chuvinha não faria mal, não é?” E depois aquela frase! Não tinha dúvidas de que na escala de suas necessidades presentes, a mulher ocupava o sopé da lista. E, sem dúvida, não sentia a mínima falta de uma mulhé. Tudo isto era tão assombrosamente inverossímil que parecia sair diretamente de uma peça de Ionesco. Lembrei-me da resposta costumeira do “seu” João, e respondi de acordo: “É”.

Que mais posso dizer-lhe? Que mais pode ele dizer-me? Que tópico permitiria respostas mais substanciosas? Não há nada. Boca calada pois, e, nas nossas relações, que reine o vaso!