FLUSSERBRASIL



ANATOL ROSENFELD
Vilém Flusser


Inédito (cc 1973)

 

Soube, vagamente, da sua morte, quando na Europa. A relação ambivalente que nos unia e dividia, tal amizade-inimizade que ele próprio costumava comparar com a relação entre Settembrini e Naphta de A Montanha Mágica, tornou, para mim, duplamente difícil digerir sua morte prematura.

Agora, de volta a S. Paulo, soube que ele morreu na solidão de um quase-ostracismo. Não quero crer na veracidade de tal informação, mas assumirei ser ela correta como hipótese deste artigo, o qual não se quer homenagem a um intelectual brasileiro de primeira linha, honesto, disciplinado e engajado nos valores mais dignos da cultura. Há outros muito mais autorizados para apreciar a influência que Anatol Rosenfeld exerceu sobre o teatro, a crítica literária e o estudo da filosofia em S. Paulo. O artigo se quer reflexão sobre o reconhecimento devido a um pensador pela sociedade que o “consome”.

De chofre quero recusar dois argumentos, baratos, que procuram minimizar e contornar o problema. O primeiro afirma que a influência do pensador sobre a sua sociedade pode ser lenta  e retardada, e que a falta do seu reconhecimento em vida ou imediatamente depois da sua morte não exclui, necessariamente, a admissão posterior, e envergonhada, da importância da ação por ele exercida. O segundo argumento afirma não ser o reconhecimento a meta da ação do pensador, mas que tal meta é o próprio pensamento e a sociedade para a qual se dirige.

Recuso tais argumentos com indignação, não por serem falsos. São corretos. Recuso-os por serem lícitos apenas quando é o próprio pensador quem os avança. Nós, os beneficiados pelo engajamento do pensador, não temos o direito de recorrer a eles. Nossa obrigação moral, e não apenas moral, é recompensar o esforço dedicado a nós, embora tal esforço não pretenda ser recompensado. Pelo contrário: é precisamente a modéstia intelectual e pessoal de A. Rosenfeld, a qual transfere, pesadamente, a responsabilidade pela recompensa para os nossos ombros.

Muito se tem escrito e se escreverá no futuro a respeito da relação entre o intelectual e sua sociedade. É relação difícil. O verdadeiro intelectual é como pernilongo que não quer permitir que a sociedade durma, que a perturba com seu zunir, e que, quando cessa de girar no ar por cima da sociedade, baixa para picá-la, tirar-lhe sangue, e infectá-la com doença febril e potencialmente perigosa. É pois mau sinal quando a sociedade tece hinos de louvor em torno do intelectual e o cobre de honrarias. Mosquitos não são glorificados, e se o são, deixaram de ser mosquitos. Mas sinal ainda pior é quando a sociedade dorme calmamente a despeito do mosquito, o afasta com movimento inconsciente da mão, ou o elimina com aerosol tecnicamente elaborado. Porque sem o mosquito a perturbar-lhe o sono e a picá-la, a sociedade é corpo inerte estendido sobre cama confortável, objeto de manipulação de outrem. A relação ótica entre intelectual e sociedade talvez seja a da irritação, da raiva que um sente pelo outro. Tanto a glorificação quanto a indiferença aniquilam tal relacionamento difícil e precioso. É esta a razão porque a verdadeira recompensa do intelectual está na irritação que provoca na sua sociedade.

Assim, A. Rosenfeld sempre irritava. Irritava-me a sua insistência no respeito às “fontes”. Tal insistência cortava as asas da minha imaginação e encurtava o seu vôo. Irritava-me a sua constante volta para o que ele considerava ser “a realidade”, e o que para mim não era senão uma das camadas da realidade, e não a mais significativa. Tal volta constante me parecia ser pedestre. Irritava-me a sua posição, que me parecia rígida e dogmática, tão diferente da fluidez aberta que se me afigura como a indicada na situação de ideologias interpenetrantes e em decomposição mútua como o é a nossa. Irritava-me, sobretudo, a sua modéstia intelectual, que o impedia a formular sínteses do seu pensamento.

Isto me parecia ser o seu maior defeito: sua falta de coragem, ou de “pretensiosidade”, de dar o passo além do campo estreito da competência que ele próprio se tinha fixado. Porque isto mergulhava as minhas próprias tentativas em tal direção num clima de irresponsabilidade. Devo confessá-lo: a existência de A. Rosenfeld era, para mim, irritante, porque questionava a minha própria “forma mentis”. Mas agora, que ele deixou de existir, não me sinto mais à vontade. Pelo contrário: a sua ausência funciona como freio ainda mais irritante. Será isto a “imortalidade”?

Como a mim, A. Rosenfeld irritava a muitos, por razões diversas que não são necessariamente as minhas. Estou convencido de que tal irritação continua efetiva. Em outros termos: estou convencido de que a cultura brasileira tem e terá, doravante, a marca da sua passagem. Admitamo-lo e inclinemo-lo perante a sua memória para que seja benção para nós e para a sociedade a qual dedicou o seu engajamento, por escolha lúcida e livre.