FLUSSERBRASIL



A RECONSIDERAR
Vilém Flusser

Há os que não aceitam nada como definitivamente acertado. Acreditam que tudo merece ser reconsiderado, sobretudo quando parece ser indubitável. Exemplo: nada mais indubitável o mundo dos objetos que nos cercam composto de quatro elementos (terra, água, ar e fogo), e que tais quatro elementos estão dispostos em esferas sobrepostas uma à outra. A terra está no centro, cercada e coberta por água, por sua vez cercada e coberta por ar, por sua vez cercado e coberto por fogo. Tão indubitável é este fato, que podemos observar em toda parte como tal ordem concêntrica dos elementos se restabelece, se for porventura perturbada: se há pedras no ar, caem elas por cima da terra, seu lugar adequado; se há água na terra, deve ela subir sob forma de fontes para alcançar seu lugar adequado, e se há água no ar, deve ela cair sob forma de chuva; e o fogo sobe sempre para alcançar seu lugar justo. Tão evidente é tal estrutura do mundo objetivo, que Aristóteles elaborou todo um sistema harmonioso que permite explicar os movimentos dos corpos enquanto buscas do lugar justo do corpo. O universo está em movimento porque sua harmonia justa foi criminosamente perturbada, e porque tal perturbação tende a restabelecer-se por necessidade. Tal cosmovisão, além de confirmada em toda parte pela observação quotidiana é consistente, possui grande poder explicativo, concorda com a vivência religiosa e é sumamente bela. Razão por que tem sido aceita durante milhares de anos. Ora, gente como Galilei se propõe a reconsiderá-la.

Por certo: posto nestes termos, o esforço galileano é loucura criminosa. Querer atacar simultaneamente a evidência, as explicações dessa evidência consagradas pela tradição e perfeitamente lógicas, a fé religiosa, e a vivência da beleza do cosmos, não pode ser senão querer criminosamente derrubar toda autoridade, e abrir campo para a desordem diabólica de todo tipo. Posto em outros termos, o esforço galileano é heróico no significado antigo do termo, e resultará na ciência moderna, na Revolução Industrial e em transformação radical do mundo, da vida humana e de todos os conceitos, valores e crenças. Estamos programados, pela cultura da Idade Moderna, para pôr o esforço galileano nos termos heróicos que acabam de ser enunciados. É evidente e lógico, e é, portanto, indubitável, que a cosmovisão iniciada por Galilei (e outros) seja melhor que a cosmovisão precedente. Não estaria na hora de reconsiderarmos isto?

Aristóteles afirma que as pedras caem a fim de reocuparem seu lugar justo que é a terra. Galilei parece dizer que caem por serem atraídas pela terra. À primeira vista, as duas afirmações parecem dizer a mesma coisa, cada qual à sua maneira. A diferença parece apenas ser que Aristóteles aponta o motivo da queda, e Galilei a sua causa. Na realidade, a diferença é grande. A afirmativa de Galilei pode ser matematicamente formulada; tais fórmulas permitem a construção de máquinas que voam pelo ar e que produzem botões de pressão, enquanto a afirmativa aristotélica não permite nada disso. O que deve ser reconsiderado é isto: em que sentido pode ser dito que a afirmativa galileana é a melhor das duas? Por ela permitir a produção de botões de pressão, e por ter que sacrificar a explicação dos motivos? A perda não seria maior que o lucro?

Reconsideremos tal perda. Para Aristóteles, todo movimento pressupõe motivo. Se levanto o braço, devo ter motivo para fazê-lo, e o mesmo deve valer para a queda de pedras. Para Galilei, pedras caem sem motivo, absurdamente, mas não obstante, caem ordenadamente. Nada no mundo objetivo tem motivo, mas tudo tem causa. Pressupor que há motivos por detrás dos movimentos dos corpos é pressupor intenção humana ou para-humana (por exemplo, divina) por detrás do mundo. Ora, não é bom partir de pressupostos quando se quer conhecer o mundo. A perda na afirmativa galileana é, portanto, na realidade, vantagem: Aristóteles é mais preconceituoso que Galilei. E os que reconsideram Galilei e afirmam que as causas, elas também, são pressupostos, e que devemos nos limitar a explicar como as pedras caem, sacrificando todas as explicações causais, são ainda menos preconceituosos que o próprio Galilei. De modo que a progressiva eliminação, primeiro das explicações finais, e depois das causais, seria medida do progresso rumo a um conhecimento gradativamente menos preconceituoso, gradativamente mais puro.

Reconsideremos tal afirmativa. Afirma ela que motivos (e causas) não devem ser assunto para o conhecimento puro. Quem diz que chove a fim de que os campos sejam irrigados está sendo ridículo, e igualmente ridículo será, dentro em breve, quem diz que chove por causa de determinada conjuntura meteorológica; o que devemos dizer é que chove desta ou de outra maneira. Ora, isto implica a afirmativa de que é ridículo querer saber tudo aquilo que interessa existencialmente (motivos e causas). Por certo: se sabemos como chove, podemos fabricar chuva artificial, coisa que não podemos fazer se perguntamos por que motivo chove (a não ser que façamos magia). De modo que podemos dizer que as perguntas finais e causais não são boas (não resultam em chuva artificial), e as perguntas funcionais são boas. Quem quiser mudar eficientemente o mundo, deve restringir-se a perguntas que começam por "como?", e não seria a modificação do mundo o que interessa existencialmente ao conhecimento? Mas reconsideremos um pouco este argumento. Diz ele que o conhecimento puro (despreconceituado) é melhor que o impuro por ser melhor aplicável. Não haveria contradição nisto?

Reconsideremos a coisa de ângulo diferente: Aristóteles afirma que conhece os motivos (justiça, necessidade). Galilei afirma que ignora tudo isto, e que está condenado a aceitar, sem explicação, o dado bruto do movimento (inércia). Há algumas coisas que Galilei conhece e Aristóteles ignora (por exemplo, que há montanhas na Lua). Mas não é por conhecer mais que Galilei se opõe a Aristóteles, mas por estar decidido a conhecer mais. O sistema aristotélico está relativamente "fechado": explica muita coisa. O sistema newtoniano, adubado por Galilei, está mais "aberto": há nele muito buraco inexplicado (por exemplo, o buraco dos motivos). E quando o sistema newtoniano começa a consolidar-se e fechar-se, vêm novos reconsideradores e abrem novos buracos. De modo que Galilei seria melhor que Aristóteles por admitir que há coisas não-sabíveis.

Reconsideremos este argumento: por que seria melhor admitir ignorância que afirmar que se sabe? Aprendemos na escola por quê: acaso Sócrates não diz que sabe que nada sabe, e acaso isto não seria sabedoria? Se Galilei afirma que há coisas que ele não sabe, não seria ele mais sábio que Aristóteles, que afirma que sabe tais coisas? Mas tal resposta dada nos ginásios deve ser reconsiderada (como todo o resto que aprendemos na escola). Sabedoria é atitude que se contenta, e ciência é o oposto de sabedoria: sua vontade de saber é insaciável. Ao dizer Galilei que ignora muita coisa, não é para se satisfazer com isto, mas para colocar perguntas novas dentro de tal buraco. Diz ele, com efeito: Aristóteles crê saber dos motivos, porque formula perguntas que começam por "para quê?", que são más perguntas. Como eu não formulo tais perguntas, abri um buraco de ignorância, e agora posso colocar boas perguntas em tal buraco. Sei que há muita coisa que não sei, e este meu saber me permite avançar contra o desconhecido. Afirmar ignorância é método para abrir caminho rumo ao conhecimento.

Reconsideremos tal método um pouco. Se compararmos a cosmovisão atual com a dos nossos avós, verificaremos ser ela muito mais ampla. Contém ela muito mais dados sabidos, tantos que não cabem mais no cérebro humano. Mas a nossa cosmovisão é mais ampla, sobretudo porque contém muito maior número de buracos. Sabemos mais coisas que nossos avós, mas a relação "sabido:ignorado" se deslocou em favor do "ignorado". Sabemos melhor que nossos avós e quanta coisa ignoramos. Exemplos: os nossos avós sabiam que a vida se originou por ato criador, e nós ignoramos praticamente tudo a este respeito (enorme buraco). Os nossos avós sabiam que desejos são processos mentais, e nós ignoramos praticamente tudo a este respeito (outro buraco enorme). Por certo: sabemos muito mais coisas a respeito da origem da vida e dos processos mentais que nossos avós, mas precisamente por causa disso ignoramos praticamente tudo a esse respeito. De modo que parece certa a afirmativa de que admitir ignorância é método para avançar em futuro conhecimento.

No entanto: o que estará acontecendo em torno dos buracos recentemente abertos? Gente provinda de toda parte do edifício do conhecimento se precipita nos buracos, e lá colidem uma contra a outra. Chamamos a tais colisões "interdisciplinaridade". Reconsideremos isto, tendo como recurso a metáfora sugestiva. Admitamos que, em 1492, expedições simultâneas tenham partido da Espanha, da China, da Polinésia e da Nigéria para explorar o buraco atualmente preenchido pelo continente americano. Em tal caso, Colombo teria informado aos Reis Católicos que o novo continente está habitado por chineses, e o Colombo chinês teria informado ao Grande Khan que a América está habitada por espanhóis e nigerianos. Por certo: ambos teriam encontrado astecas. Mas para o Colombo chinês os astecas seriam espécie de espanhóis, e para o nosso Colombo seriam espécie de chineses. As expedições que avançam atualmente para o buraco "origem da vida», provindas da genética, afirmam que os astecas que lá encontraram são espécie de moléculas, e as expedições provindas da física molecular afirmam serem eles espécie de genes. As expedições que avançam atualmente para o buraco "processos mentais", provindas da neurofisiologia, afirmam serem os astecas espécies de processos nervosos, e as expedições provindas da eletrônica afirmam serem eles espécie de bits de informação. Comédia de erros? Não, porque dos dois buracos começam a emergir monstros do tipo "bactéria artificial", ou "inteligência artificial", prova de que algo está acontecendo lá embaixo.

Reconsideremos, sob o impacto da cosmovisão atual, os resultados do método que admite ignorância a fim de poder avançar rumo a futuros conhecimentos. Os buracos abertos no conhecimento por tal admissão transformam-se em zonas cinzentas que são lugar de encontro para disciplinas distintas. Isto resulta em reestruturação do edifício do conhecimento todo. No século passado, tal edifício consistia em andares bem definidos: no térreo moravam os físicos, no primeiro os biólogos, no segundo os psicólogos, no terceiro os sociólogos, e o quarto andar estava sendo elaborado. Quando um biólogo foi visitar os físicos, foi para ver seu próprio sonho por baixo. Tal estrutura positivista evoca a estrutura aristotélica das esferas concêntricas "terra-água-ar-fogo". Tratava-se, pois, no edifício do conhecimento oitocentista, de construção inserível em linha que se inicia na Grécia antiga. Isto não é mais o caso. Os buracos enormes que se abriram no conhecimento abriram brechas que atravessam todos os andares, e os habitantes de todos os andares se precipitam nas brechas. Para evitar suicídios, foram construídas escadas provisórias, planos inclinados escorregadios (chamados "teoria da informação", da "decisão", "dos jogos" etc.), cujo propósito é permitir o trânsito entre os andares rompidos. Em suma: a admissão da ignorância desorganizou a harmonia do edifício do conhecimento, e este ameaça implodir qual castelo de cartas. Não que o conhecimento não possa continuar a avançar ignorância adentro: pelo contrário, continua avançando com velocidade crescente. Mas a estrutura do conhecimento está ruindo. O termo "crise epistemológica" procura captar o evento.

Reconsideremos o argumento todo, avançado neste ensaio. A ciência enquanto discurso pode ser tida por reconsideração periódica das afirmativas precedentes. No decorrer de tais reconsiderações sucessivas surgem conhecimentos novos, mas a relação entre o conhecido e o desconhecido se desloca progressivamente em direção ao desconhecido: sabemos sempre mais coisas, e graças a isto sabemos sempre melhor quão pouco sabemos. Até que seja alcançado um ponto a partir do qual o desconhecido começa a devorar o conhecido. Tal "história da ciência" pode ser resumida da seguinte maneira. No começo, sabe-se algo. Depois, sabe-se que não se sabe muita coisa. Em seguida, não se sabe se se sabe alguma coisa. Finalmente, não se sabe sequer isso. Ora, tal progresso da ignorância espelha o progresso da fé, tanto individual quanto coletiva. No começo, crê-se em algo. Depois, crê-se que há muita coisa incrível. Em seguida, não se crê que se crê coisa alguma. Finalmente, não se crê sequer nisto. A partir deste ponto, os dois espelhos "saber-crer" deixam de se espelhar, e começam a fundir-se e a confundir-se.

Atualmente podemos observar como tal crise do conhecimento e da fé se manifesta. Há muitos que procuram "superar" a crise fugindo rumo à Índia, ao Tibet, a seitas, a drogas, à verdura dos verdes. Na esperança de poder, destarte, alcançar fé e conhecimento indubitáveis. Ora, se não podemos deixar de reconsiderar o conhecimento quanto à fé precedente, devemos igualmente reconsiderar tais fugas. E este é um dos desafios diante do qual o futuro nos coloca.