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ENSINO SUPERIOR
Vilém Flusser

Folha de São Paulo, 22/02/1972

 

Na Idade Média ocidental havia duas camadas de cultura: a popular (com suas lendas, canções e costumes) e a erudita superior (nas Universidades). A superior latina sorvia sua seiva na inferior vulgar, e era, para a inferior, autoridade. Na Idade Moderna uma terceira camada (a nacional), muito duvidosa, se introduzia qual cunha entre as duas primeiras. 

Atualmente a situação é inteiramente diferente. A revolução dos meios de comunicação está esvaziando tanto a cultura popular quanto a nacional, criando assim a cultura de massa. Qual é doravante o papel da cultura superior (e o das Universidades)?

É preciso remontar até a Idade Média para se poder falar em Universidade. As Universidades são remanescentes medievais no contexto atual, por mais que tenham sido atualizadas (reestruturadas). São medievais não apenas em seus títulos e seu formalismo, mas principalmente por sua função na sociedade: pretendem ser autoridades. Isto é, autoras de modelos. Mas não podem sê-lo pelo simples fato de que para a cultura de massa não há autoridade. Todo participante de tal cultura se assume autoridade em tudo (futebol, política, aventuras amorosas dos astros de cinema). E o enumerado entre os parênteses é praticamente tudo para a cultura de massa.

É claro: para a cultura superior o enumerado não é tudo. Há ciência, há artes, disciplinas "humanistas" e tantas outras coisas. É nisto que as Universidades pretendem ser autoridades. Mas tudo isto não interessa do ponto de vista da cultura de massa. "Ciência" interessa apenas como programa de televisão, e como disciplina é praticamente dispensável. A cultura de massa se propaga automaticamente, dispensando novas descobertas. "Arte" são desenhos animados ou similares, o resto é para uma elite alienada. Assim com todo o resto.

A Universidade está perdendo sua função na sociedade. E não apenas no sentido mencionado. O titulo universitário não confere nem mais vantagem econômica nem "status". Nos países desenvolvidos a próxima geração será constituída de doutores trabalhando como contadores ou massagistas. Atualmente um torneiro vale mais que um professor de mecânica (para não falar em filósofos e linguistas). Tal tendência parece indicar que as universidades estão fadadas ao estéril academicismo.

Tudo isto pode ser considerado um exagero. As Universidades ainda são lugares de pesquisa, e seus laboratórios ainda absorvem bilhões de dólares nos países desenvolvidos. Ainda servem de espaço para a juventude contestar a situação. No entanto, o importante é a palavra "ainda". 

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