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ESTILO DE GUIMARÃES ROSA
Vilém Flusser

Para evitar o labirinto de problemas que o conceito “estilo” estabelece, definirei, para finalidade desta discussão, “estilo de Guimarães Rosa” como estrutura das suas frases. E, mesmo depois dessa limitação drástica, tentarei iluminar apenas dois aspectos dessa estrutura, um visual: a pontuação; e outro formal: a sintática sensu lato. Abrirei mão, premido pelo tempo, de toda ilustração de textos.

A língua portuguesa dispõe, como toda língua literária, de um conjunto de regras para a pontuação, um conjunto fluido e pouco rigoroso, mas mesmo assim relativamente fixado. As vírgulas, os pontos, os semicolons etc são símbolos visuais, ideogramas, que interrompem o fluxo da frase, a qual consiste de palavras notadas com letras alfabéticas, que são por sua vez anotações musicais. 

Os sinais de pontuação funcionam portanto de duas maneiras: abrem fendas na estrutura da frase e introduzem elementos estranhos nessas fendas. Mas a ritualização do uso dessas interrupções vela o seu caráter aos olhos do leitor que passa por cima delas, já que a elas está acostumado. Não se dá conta de que a vírgula, por exemplo, rasgou o compacto da frase e abriu como que uma janela para o inarticulado dentro do qual a frase se articula.

Pois bem, Guimarães Rosa rompe a tradição, despreza as regras e acaba com o rito. Coloca vírgulas, cólons etc em lugares inesperados, e deixa de colocá-los nos lugares corriqueiros; por esse truque aparentemente simples esses ideogramas readquirem o seu caráter revelador e forçam o pensamento a movimentos deliberados. 

O efeito disto é uma espécie de um despertar de um sono dogmático (para falarmos com Kant), uma nova sensibilidade para o inarticulado. As pausas que as vírgulas inesperadas criam não somente alteram o ritmo do pensamento, mas surpreendem o pensamento para dar espaço a outras capacidades mentais, por exemplo a intuição ou a fantasia.

Mas o efeito é muito mais profundo. As frases de uma dada língua formam o esqueleto da realidade para o intelecto que nelas pensa. O esqueleto das frases em Guimarães Rosa, sendo anti-tradicional pelo seu uso das pontuações, tem como efeito o esqueleto de uma realidade diferente da conversação portuguesa. Lendo Guimarães Rosa somos mergulhados dentro de uma realidade nova, uma realidade criada por Guimarães Rosa. E criar a realidade é sinônimo de poesia. 

Essa realidade criada é muito menos compacta do que a realidade corriqueira, muito mais aberta para o seu fundo inarticulável, portanto muito mais espantosa. Porque o inarticulado nos causa espanto. Podemos ver, portanto, que o simples uso da vírgula e dos pontos possibilita ao nosso autor um método de forçar aberturas para o nada, ou, como ele diria, para o fundamento pré-racional do qual a poesia brota. E esse uso, talvez acidentalmente, confere às suas frases uma qualidade pictórica, ideogramática, que se aproxima, embora de longe, do concretismo.

A ordem pela qual as palavras seguem uma à outra é igualmente fixada pela tradição, e essa ordem tem um significado epistemológico sutil. A posição do sujeito, objeto e predicado é, na teoria, digamos, aristotélica, um espelho da ordem que prevalece no mundo fenomenal, portanto um espelho da realidade, se a frase for verdadeira. Essa sequência de palavras estabelece justamente a famosa correspondência entre intelecto e coisa que é a verdade no sentido tradicional do termo. 

Pois bem, Guimarães Rosa despreza essa ordem. Na teoria aristotélica, as suas frases deveriam ser, a rigor, todas isentas de significado. Não espelhando “realidade objetiva” nenhuma, não são nem falsas, são simples “flatus focis”. Mas sabemos, existencialmente, que as frases do nosso autor, longe de serem insignificantes, são pelo contrário muito mais significativas que frases formalmente corretas. Por quê?

Creio que o significado das frases da conversação corriqueira não está na sua correspondência com alguma realidade metalinguística, mas na sua própria estrutura. Essa estrutura, sendo gasta pelo uso excessivo, tem também o seu significado gasto. As frases de Guimarães Rosa são suficientemente próximas da estrutura tradicional para poderem ser assimiladas, mas também suficientemente novas, para criar uma nova aura de significado. 

A inversão de substantivos e adjetivos, por exemplo, não acaba com a substantividade, mas pelo contrário salienta a substantividade e o acidente de uma dada situação de maneira revolucionária, e essa situação se abre, como que por encanto, à nossa visão surpreendida. Pelo truque sintático o autor nos abre uma nova avenida para a contemplação da coisidade, do “eidos” da situação da qual nos fala.

Mas aí tenho que introduzir um aviso. A coisidade que Guimarães Rosa revela não é a coisidade de uma coisa extralinguística, mas da própria palavra. Pelo seu uso revolucionário da estrutura da frase, o autor consegue fazer resplandecer a palavra como que rejuvenescida, como que recém saída de seu húmus. E é este o significado das suas frases. Assim, um truque aparentemente lúdico é, na realidade, um método fenomenológico, uma distância irônica, uma “époché” ante a palavra, para a qual o autor nos força.

Confesso que a limitação de tempo que oprime esta exposição torna obscuras as considerações nela contidas. Espero sinceramente que a discussão as esclareça.