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EXPLICAÇÕES
Vilém Flusser

O propósito do presente artigo é de uma curiosa circularidade, a saber: tentar explicar que explicações são impossíveis. O fascínio desse propósito barroco não está apenas na sua estrutura, na concha de caracol, mas também na sua vibração dialética entre duas negações que não se sintetizam. Convido pois o leitor a participar comigo da aventura da espiral intelectual, uma das poucas aventuras ainda abertas ao homem civilizado.

Explicações são respostas a perguntas. Por exemplo: “estou comendo” é uma explicação, se for resposta a uma pergunta do tipo “por que não estás trabalhando?”. A rigor, a sentença deveria rezar “porque estou comendo”, a fim de distingui-la da sentença “estou comendo”, que não é resposta. 

Esta distinção é importante. Nem toda indicação é explicação, embora seja muito difícil dizer o sentido de uma sentença que indica, mas não explica. Creio que a distinção entre explicações e outras indicações não é devidamente considerada nas tentativas atuais em prol de uma teoria do conhecimento.

Explicações explicam aquilo que as perguntas implicam. Chamarei esse "aquilo" de “problema”. Explicações explicam problemas lançados por perguntas. Quando não há pergunta, não há problema a ser explicado. Isto também é importante, e procurarei mostrar a importância pela introdução de duas definições que podem ou não ser aceitas. 

A primeira é esta: a soma das explicações é a teoria científica (em sentido lato). A segunda é esta: a soma das perguntas é a filosofia (em sentido lato). Se as duas definições forem aceitas, elas sugerem o seguinte: todos os problemas científicos são propostos pela filosofia. Mesmo se as duas definições forem rejeitadas, deverão pelo menos servir de ilustração para a importância do assunto considerado.

Explicações explicam problemas. Fazem com que o problema deixe de sê-lo. Como posso saber que um problema deixou de sê-lo, foi explicado, liquidado, superado, aniquilado (ou qualquer termo que se queira usar para dizer que o problema deixou de sê-lo)? Muito simples. Um problema deixa de sê-lo quando aquele que perguntou se dá por satisfeito. A explicação é dita “satisfatória” neste caso. 

Considerem: a criança pergunta “por que nasci?” e lança um problema. A mãe responde “por causa de uma cegonha” e a criança se dá por satisfeita. O problema deixou de sê-lo, e a explicação é satisfatória no caso. Mas é possível que esta explicação da explicação não satisfaça alguns dos leitores. Por isto continuarei explicando.

Considerem: alguém pergunta “por que caem pedras?”. Um outro (por exemplo Aristóteles) explica “por justiça”, e o primeiro (no caso: a humanidade) se dá por satisfeito por um período de dois mil anos. Volta, no entanto, a perguntar e torna assim insatisfatória a explicação proposta. Um terceiro (por exemplo Newton) explica agora “por causa da gravidade”, e um quarto (por exemplo um físico atual) dará uma explicação mais complicada que envolve cálculo de probabilidade. 

Não aparece no caso (que é o caso do progresso científico) um outro critério da explicação, que não a satisfação, mas a “validade” ou coisa semelhante?

O caso não é tão simples como parece. Uma análise mostrará que Aristóteles não está explicando o mesmo problema que Newton. O problema de Aristóteles foi lançado pela pergunta “para que caem pedras?”, e sua resposta é “a fim de restabelecer a justiça no mundo”. O problema de Newton foi lançado pela pergunta “por que caem pedras?”, e sua resposta é “por causa da gravidade”. 

As perguntas lançadoras do problema têm estruturas diferentes (a primeira teológica, a segunda causal) e por isto lançam problemas de estrutura diferente. As explicações têm a estrutura do seu problema, que é a estrutura das perguntas das quais são respostas. Aristóteles  deixou de satisfazer quando a estrutura das perguntas se modificou. Isto é: quando surgiram novos problemas. De maneira que podemos dizer que Aristóteles explicou os seus problemas satisfatoriamente.

Mas podemos dar mais uma volta no paraíso da explicação, e dizer o seguinte: embora de estrutura diferente, têm as perguntas aristotélica e newtoniana o mesmo sujeito (pedras) e o mesmo predicado (caem), e lançam, neste sentido, o mesmo problema. 

Que quer dizer, aqui, o termo “mesmo”? Isto: as duas perguntas são mutuamente traduzíveis. E que sejam traduzíveis, também, para a pergunta “como caem pedras?” (que Leônidas Hegenberg chama de “genética”, mas que prefiro chamar “estrutural”, para evitar conotações indesejáveis). De maneira que a explicação “pedras caem a fim de restabelecer a justiça no mundo”, a explicação “pedras caem por causa da gravidade” e a explicação “pedras caem com aceleração geométrica” são intercambiáveis. 

Que quer dizer isto? Que Aristóteles satisfaz a quem pergunta pela finalidade, Newton a quem pergunta pela causa, e a física atual a quem pergunta pela estrutura. Mutatis mutandis: Newton não satisfaz a quem pergunta pela finalidade, e o sistema newtoniano todo não é uma explicação para quem pergunta: “para que tudo isto?”

E retornamos assim, nesta volta do caracol, para a satisfação como critério da explicação, como única “validez” portanto.

Continuemos subindo. Admitamos que explicações teológicas, causais e estruturais produzem satisfações diferentes. Mas estabeleçamos uma hierarquia entre essas três explicações (e possivelmente outras). Digamos que a satisfação de uma explicação causal é “melhor” que a de uma explicação teológica, e “pior” que a de uma explicação estrutural (ou, em vez de “melhor” e “pior”, digamos “mais simples” e “mais complicada”). Temos um novo critério para julgar as explicações, um critério “ético” ou “estético”, em suma: valorativo. E teremos salvado a ciência como explicação progressiva. 

Mas que critério é este? É resposta à seguinte pergunta: “para que explicações?” e diz: “para satisfazer o nosso desejo do bom (ou do belo)”. A volta neste anel do parafuso, além de nos remeter de novo para a teologia, restabelece a satisfação como único critério disponível. E a satisfação é pouco satisfatória, para quem se satisfaz apenas com critérios mais “objetivos”.

É óbvio que, a estas alturas do parafuso, tontos e fartos, podemos saltar para o pragmatismo. Podemos dizer simplesmente: “explicações são válidas quando aplicáveis”: a práxis é o teste da teoria. É igualmente óbvio que isto é uma fuga (que poderíamos ter tomado antes de embarcar na nossa aventura). Porque o pragmatismo diz: “o critério da explicação é a práxis porque eu me satisfaço com a práxis”. 

Além de abdicação (porque desinteresse em explicação como tal), representa o pragmatismo mais uma volta no nosso parafuso. Uma volta, com efeito, que pode ocorrer na base do caracol, ou em qualquer outro ponto.

Pois bem, este giro pragmático permite mais uma volta. É esta: a aplicação é uma forma de explicação e a explicação uma forma de aplicação, e há uma tensão dialética entre teoria e práxis. Uma é pois critério da outra. Esta nova virada, no entanto, esqueceu o nosso ponto de partida. Não há problema, quando não há pergunta. Nada pode ser explicado nem aplicado, se nada foi implicado. E a pergunta que desfecha tanto teoria como práxis, por lançar o problema, impõe o critério tanto à teoria como à práxis, a saber: quer ser satisfeita. De maneira que, com ou sem dialética, estamos de novo no ponto de partida.

Poderíamos continuar girando em torno do parafuso indefinidamente, e inserir nele todas as teorias do conhecimento. E aconteceria sempre o mesmo: no meio da volta teríamos critérios “objetivos” para explicações e seríamos crentes da capacidade humana para o conhecimento objetivo. Ao fim da volta voltaríamos a diversos pragmatismos, correspondendo a vários níveis do parafuso. Todos estes pragmatismos permitiriam uma nova virada em direção da objetividade. Pois qual a lição que podemos tirar deste exercício vertiginoso?

Tirarei pelo menos uma. Explicações podem ser muito longas. Podem ser séries muito longas de sentenças indicativas. As várias ciências são exemplos dessas séries longas. De maneira que, se estivermos no meio da série, poderemos facilmente esquecer que se trata de resposta. Podemos esquecer a pergunta que provocou toda essa série longa. Em outras palavras: podemos tomar a ciência como um discurso objetivo. 

Mas na realidade o discurso da ciência todo é parte de um diálogo entre ciência e pergunta, digamos, filosofia. E isto é verdade, mesmo se a própria pergunta for formulada por um cientista. O cientista é filósofo, no caso. Os bons cientistas sabem disto. Galileu sabia que não estava, no fundo, discursando sobre pedras, mas dialogando com Aristóteles e o atomismo. De maneira que a ciência (e toda explicação) não é objetiva, nem subjetiva, mas intersubjetiva. E neste contexto podemos aceitar a satisfação como critério, sem cair em pragmatismo, no final das contas.

Obviamente, não alcancei o propósito barroco deste artigo: explicar que explicações não são possíveis. Expliquei, creio, que explicações objetivas não são possíveis, mas expliquei isto para minha satisfação e para a satisfação daqueles que se satisfazem com isto, mas, no fundo, também não posso satisfazer-me com isso, já que exigi explicação do termo “satisfação”, e assim por diante.

À guisa de conclusão, proponho o seguinte resultado: não é possível explicar explicações satisfatoriamente.