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A MORTE DE GUIMARÃES ROSA
Vilém Flusser

A misteriosa interrelação entre a morte e a imortalidade é o motivo da vida. A morte injeta urgência em todo instante; sem ela nada importaria porque tudo seria adiável. Mas a morte problematiza todo instante, porque derrota todo esforço. A morte é pois necessária para que eu possa viver, mas é igualmente necessária a imortalidade. 

É pois necessário que me decida tanto para a morte quanto para a imortalidade. Em outras palavras: devo admitir que a morte não é apenas uma crise entre dois estágios da vida, mas sim uma catástrofe definitiva. E simultaneamente devo admitir que viso, em todo ato, a negação dessa definitividade.

Abrigo, em consequência, dois conceitos de imortalidade: a imortalidade para mim seria a minha morte como apenas crise. A imortalidade para os outros é a minha morte como crise para os outros. A decisão para a definitividade da minha morte é a decisão em prol da minha imortalidade para os outros. Mas terei, para essa decisão, abandonado o primeiro conceito da imortalidade? 

Este foi o tema de uma das minhas últimas discussões com Guimarães Rosa.

Para ele, as duas imortalidades estão em conflito. Ou uma ou a outra. Se viso a imortalidade para os outros, ponho a periclitar a “imortalidade da minha alma”. Estas são as suas palavras: “a obra de Guimarães Rosa está ameaçando a minha alma eterna”. Declara-se pronto a sacrificar todos os seus livros ao esquecimento, pois isto implicaria a sua imortalidade como alma. 

A sua explicação é esta: o empenho na imortalidade para o outro desvia a atenção para o imanente. O importante não são os livros mas a prece. É esta que dirige a atenção rumo ao eterno. É possível que esta dúvida tenha dilacerado o nobre coração que parou no último domingo.

A dúvida é insuperável. É ela uma das contradições da condição humana. A tentativa de adiar a “imortalização” oficial no imanente prova, em Guimarães Rosa, o quanto essa contradição atormentava o seu pensamento. Mas nós podemos superá-la no caso excepcional e gigantesco que é Guimarães Rosa. Os seus livros são preces. E a sua imortalidade para nós é a prova existencial da sua imortalidade no outro sentido do termo. Porque os seus livros foram lidos nas fontes que brotam do terreno ao qual este segundo sentido do termo se refere. Lê-lo é imortal para nós justamente porque ele nos abre para a outra imortalidade.

A teoria da informação define a poesia como introdução de ruídos no repertório do pensamento. A quantidade de ruídos que Guimarães Rosa introduziu no nosso pensamento alterou profundamente o nosso repertório, a nossa competência e o nosso universo. Somos literalmente outros, graças às operações que ele efetuou no nosso pensamento. E este processo de alteração é progressivo. Espalha-se, por nosso intermédio, no campo do pensamento adentro, e atingirá os distantes e as gerações vindouras. Não apenas nós, o pensamento todo ficou e ficará aloucado graças a Guimarães Rosa. 

Críticos de um futuro distante descobrirão na sua cena o sabor, o aroma indisfarçável que se chama “Guimarães Rosa”. E estes críticos saberão, melhor do que nós, avaliar as modificações estruturais que o pensamento humano deve a ele. Esta é a sua imortalidade para nós, e por ela devemos render-lhe tributo: por ter ele alterado, ampliado e aprofundado o universo, nosso e dos que virão depois, em sucessão constante.

Mas os ruídos que ele introduziu no repertório do pensamento para alterar o universo, ele os colheu do além do pensamento. Ele os colheu pela sua abertura para o impensável. Ele era uma boca que sofria, dia e noite, o mistério inefável daquilo que cerca o pensamento. Uma única, gigantesca prece. Um saber perpétuo da limitação da competência humana. Uma prontidão decidida para o outro lado. 

É dessa prontidão que surgirão os seus livros, como testemunhas do inteiramente diferente do homem. Os ruídos que ele introduziu no pensamento são o sussurrar da voz que vem da voz, de lá aonde se dá aquela outra imortalidade. Ele abre para nós, por seus livros, janelas para o inefável – com efeito, ele é, para nós, uma janela para o inefável. Por ser imortal para nós, ele nos abre uma visão daquela outra imortalidade.

Se fossemos nós os demiurgos do mundo, não teríamos afastado Guimarães Rosa da circunstância que nos rodeia. Do nosso ponto de vista parece totalmente cretino o fato de ter secado essa fonte. De ter sido transformado aquele lugar na nossa circunstância ocupado por ele, que até domingo passado era uma de nossas inspirações em abismo silencioso. Mas ele nos ensina que o nosso ponto de vista não é necessariamente “válido” apenas por ser nosso. E que talvez não seja muito lamentável não sermos demiurgos. 

Sejamos fiéis a ele. Aceitemos a nossa incompetência para a compreensão de uma economia que age para além do pensável e que decidiu (mas que significa “decidiu”?) afastá-lo do nosso meio.