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GUIMARÃES ROSA E A GEOGRAFIA
Vilém Flusser

Uma das características mais marcantes na obra de Guimarães Rosa é esta: o universo por ela projetado tem dimensões geográficas nítidas, mas é indefinido historicamente. Essa característica é tão marcante que o leitor a aceita como premissa. Não lhe ocorre de perguntar pela data do nascimento de Riobaldo, como não lhe ocorre de perguntar pela data do nascimento da Branca de Neve. Aceita como premissa que o universo da obra de Guimarães Rosa tem a estrutura do universo do mito: espaço a-histórico dentro do qual corre um tempo incongruente com a linearidade do tempo do historicismo. 

A rigor, essa aceitação da premissa pelo leitor é surpreendente. Porque o espaço projetado pela obra é, indubitavelmente, identificável, em alto grau, com o Planalto brasileiro. E o espaço do mito (por exemplo o de Branca de Neve) não é assim identificável com uma região geográfica determinada. Tendo-se fixado geograficamente, o leitor deveria tender a fixar-se também historicamente. 

Com efeito, se formos suficientemente pressionados, responderemos que os acontecimentos contados por Guimarães Rosa se dão aproximadamente no início deste século, e poderemos enumerar uma série de indícios que apontam na direção da nossa escolha da data. Mas ao darmos este tipo de resposta estaremos apenas satisfazendo a uma exigência da nossa cosmovisão, não da cosmovisão aberta pela própria obra. Para o universo projetado por Guimarães Rosa a fixação de datas é empresa estranha. Não o afeta.

Este fato permite uma argumentação nos seguintes moldes: o Planalto brasileiro é o habitat de uma sociedade que vive a-historicamente. Uma sociedade, portanto, que vive o mito. E Guimarães Rosa é o mitólogo dessa sociedade. Assumiu esse papel por destino, por vocação e por escolha. Por destino, porque está ligado a essa sociedade geográfica e etnicamente. Por vocação, porque há nele uma forte tendência para uma visão mítica do mundo. E por escolha, porque a sua formação filosófica e religiosa vai se desenvolvendo na direção de uma espécie de neoplatonismo. E estas três causas podem perfeitamente estar interligadas e se reforçar mutuamente. Este tipo de argumentação é perfeitamente válido num determinado nível de interpretação, e é provável que o próprio Guimarães Rosa concordasse com ele.

O presente trabalho proporá uma interpretação em nível diferente. Embora tenha o autor destas linhas sugerido a Guimarães Rosa os contornos da interpretação seguinte, não se chegou a um acordo. A morte interrompeu, brutalmente, a troca de idéias iniciada neste sentido. Mas havia acordo pelo menos no seguinte ponto: a insistência de Guimarães Rosa em dizer “estória” e não “história” sugere oposição deliberada ao historicismo. 

De forma que o universo roseano é a-histórico no sentido de “pós-histórico” (e não “pré-histórico”) e sua coincidência com o universo sertanejo é mais um pretexto que realidade. O argumento que convenceu Guimarães Rosa neste sentido caracteriza o seu pensamento. É este: “estória” não é o equivalente da palavra inglesa story. E se story teller é o equivalente inglês de “mitólogo”, Guimarães Rosa não faz mitologia.

A tese que o presente trabalho procurará defender é esta: Guimarães Rosa projeta um universo “pós-histórico” e usa para tanto o sertão brasileiro como pretexto. A tese não será ilustrada por textos. Não o será pelas razões seguintes:

  1. Citações são chatas. 
  2. A tese não é resultado da análise deste ou daquele trecho da obra, mas do impacto causado pela obra como um todo. 
  3. Não é visada uma crítica literária, mas um diálogo com Guimarães Rosa dentro do contexto da conversação geral que é o pensamento da atualidade. 
  4. É pressuposto que o leitor deste artigo conhece a obra de Guimarães Rosa.

Não se procurará, portanto, provar e convencer, mas apenas sugerir como a obra de Guimarães Rosa pode ser enfocada como parte do esforço atual de superar o historicismo. É óbvio que essa obra supera o historicismo formalmente, já que rompe com a linearidade do discurso. Numerosas análises sintáticas da sua língua o mostraram nitidamente. O propósito deste trabalho é sugerir que a obra supera o historicismo também semanticamente. Isto é: que o universo que é sentido da obra está no além do historicismo.

A tese aqui defendida afirma que Guimarães Rosa usa o sertão brasileiro como pretexto. Para compreender porque essa região geográfica é tomada por pretexto, torna-se necessário que seja descrita. Com efeito, a obra é, em grande parte, uma fenomenologia do sertão brasileiro. A sua flora e fauna, os seus acidentes geográficos e seu clima, e a sua população  humana, são enfocados e iluminados de numerosos ângulos, e é ensaiada uma penetração simpática, e por vezes antropomorfizante, dos fenômenos que nele ocorrem. 

Mas, por penetrante que seja a descrição roseana, o sertão continua indescritível. Quem o visita, e que seja apenas em automóvel (portanto de forma deturpada), terá uma vivência esclarecedora das razões pelas quais foi escolhido por Guimarães Rosa como pretexto. Que seja descrita a vivência mencionada.

O Planalto brasileiro (o chapadão) é indescritível porque despreza soberanamente toda dimensão humana. E “descrever” é inscrever em dimensões humanas. A vivência do chapadão é a da aniquilação do homem enquanto medida de todas as coisas. Uma aniquilação mais violenta que aquela sofrida na contemplação do céu estrelado. Porque a vivência do chapadão não é a experiência do vazio, mas de algo incomensurável. 

A sua imensidão (no sentido de “falta de medida”) resulta em desorientação e vertigem, portanto em terror e exaltação desenraizadora. A Masslosigkeit (imensidão) resulta em Bodenlosigkeit (falta de fundamento). Não se pode habitar o sertão, no sentido de habituar-se a ele. O sertanejo, qual marinheiro, vive em situação exposta e sem fundamento, não mora. Viver assim é muito perigoso. 

Mas o marinheiro visa o porto como sentido da travessia, e o sertanejo atravessa sem sentido nem meta. As ondas do mar embalam o marinheiro com seu ritmo articulado enquanto as ondas paradas do sertão, as suas inarticuladas colinas, envolvem o sertanejo em monotonia imóvel. Um mar congelado, sem definição, um campo de ondas paradas (em sentido próximo ao sentido visado por esta expressão pela física da atualidade).

E no sertão (no ser tão e tanto) há, no entanto, antes. Por que há nele algo, e não nada? Por que é ele um ser-tão, e não um de-serto? Esta pergunta (da qual brota toda ontologia) se impõe e é imposta pela vegetação que nele vegeta. 

Plantas bizarras e grotescas, com ramos e galhos pateticamente convulsionados, involtos e revoltos, e que apontam com suas extremidades secas extremistas ora o chão inimigo, ora a vastidão dos horizontes sem horizonte. A flora do diabo. Ora apontando o chão que não lhe tem amor, ora o nada contra o qual se recorta para provar que é algo e não nada. Uma flora que no entanto floresce periodicamente na época da chuva, naquela época (no sentido de pausa) na qual seu aspecto cristalino e cristalizado se metamorfoseia. 

A ontologia desses entes passa então de geologia para biologia. E confunde a pergunta: qual é o ser do sertão, que é o ser desses entes?  E tudo isso debaixo de um céu impiedosamente azul que mata, com sua luminosidade, todas as cores, a clara noite do nada. Um céu de sol gigantesco que conflagra, ao levantar-se e pôr-se o universo. Um céu no qual giram, em círculos de eterno retorno, os gaviões vorazes, vigias eternos da corrupção, da decomposição do ser em não ser, vigias ontológicos incorrompíveis.

Mas os morros escondem, entre as suas dobras, um recado secreto. Um segredo que é desmontado, um recado que é desdobrado pela travessia. Estreitamente guardado por duplas fileiras de buritis, aguarda esse segredo a sua revelação pelo peregrino, pelo homo viator. São as veredas.  Faixas estreitas e luxuriantes, ilhas de luxo e de luxúria no oceano do lixo. Um grito vitorioso da vida no abraço estreito e angustiante da morte. Esta a geografia metafísica e teológica que serve de pretexto para a obra de Guimarães Rosa.

Grande Sertão: Veredas.

Chamei de metafísica e teológica a geografia que é pretexto da obra roseana. Pois não é difícil imaginar-se uma revelação do ser em tal ambiente, tomando-se por paralelo, por exemplo, a revelação que se deu em ambiente sinaico, revelação esta que resultou na cosmovisão ocidental com seu historicismo. O paralelo sugerido chama a atenção sobre a diferença entre as duas geografias. 

O Planalto brasileiro é sertão, a península sinaica é deserto. O deserto (como sugere a palavra portuguesa) é um terreno abandonado pelo ser, e neste sentido um lugar ermo. O sertão (como procurou sugerir a vivência acima ensaiada) é um terreno, não abandonado pelo ser, mas do ser abandonado. Se o ser se revela no deserto, revela-se como princípio que por ele paira. 

As revelações desérticas são revelações urânicas nas quais o ser, ao revelar-se, descende das alturas, e nas quais a salvação é ascensão, ressurreição e reintegração no alto. São relações em movimento, e o ser se revela neles enquanto movimento. Qual seria uma revelação do ser no sertão, se tal se desse? A tese deste trabalho é que foi este tipo de pergunta que motivou Guimarães Rosa.

A tradição ocidental, desenvolvimento milenar da revelação sinaica, é neste sentido uma profanação progressiva do sacro. Nela se desdobra o segredo que envolveu, qual manto, o ser revelado enquanto movimento. Desdobra-se em sujeito que paira por cima do deserto das coisas (Deus, alma espírito, intelecto) e em objeto que se opõe ao movimento do sujeito (natureza, corpo, matéria, coisa). 

Este desdobramento é um separar-se e reencontrar-se dos dois opostos em dicotomia. É uma busca de reintegração da alienação estabelecida na revelação do ser enquanto movimento. Dela resulta um sistema de valores, que são todos os valores da criação, do fazer, do trabalho, do engajamento. São valores da superação da alienação sujeito-objeto. A ciência e a tecnologia são os derradeiros efeitos da revelação no deserto. E são também a derradeira profanação, já que ocultam o revelado. 

A história (que é o processo do desdobramento do segredo) é, por isso mesmo, o processo de ocultação do segredo. Tal o estágio da ocultação do ser na atualidade, tal a distância percorrida pela história a partir da revelação, que de uma nova ela carece. Uma que não seja histórica, mas que revele uma face do ser até aqui escondida. E ela pode dar-se (com efeito quiçá esteja se dando) na geografia sertaneja. Foi este tipo de imperativo que motivou Guimarães Rosa.

Forcemos ainda um pouco o paralelo entre o Monte Sinai e o Planalto. A revelação sinaica é a revelação do ser enquanto Deus (entendendo-se por Jeová Aquilo que é o que cria). Uma revelação sertaneja seria a revelação do ser enquanto Diabo (entendendo-se por Diabo Aquilo que teima ser e que aniquila). O seu nome seria: Nonada. 

Mas o paralelo com o Sinai não deve ser exagerado, e o Nonada não deve ser dialeticizado. Não é um Não ao nada em sentido de mera negação, mas em sentido de afirmação por dupla negação, já que o Nada se afirma pela negação em ser-tão. Como o pensamento (sujeito) se afirma pela dúvida pela qual procura negar-se, assim o Diabo se nega pela afirmação de si mesmo. 

Isto não é dialética, porque não resulta em devir, mas em permanecer isto mesmo. Dupla negação sem nova posição, dialética negativa. Se Jeová é: Aquilo que foi, e é, e será, Nonada é: Não ao nada, não há nada e no nada. Este o novo tipo de maniqueísmo que seria, talvez, a revelação do ser sertanejo.

Não haveria uma sacra história que se desdobrasse a partir de uma tal revelação, haveria sim estórias do diabo. E todas elas primeiras. Porque aonde não há dialética, não há desdobramento. Não que as primeiras estórias sejam as últimas, pois isto seria uma visão divina. Mas que as primeiras estórias já estivessem nas últimas e as últimas nas primeiras. Haveria uma sincronização do sim e do não, logo, não haveria decisão e engajamento. 

Toda escolha seria também escolha do oposto, toda adoração seria anti-adoração, portanto diadoração, e viver seria imitar Diadorim, não o Cristo. Em outras palavras: o ser se revelaria integral, embora negativo, e não dicotômico, embora positivo.

É claro que a visão de uma possível revelação sertaneja não brotou meramente da vivência do sertão, mas passou pelo crivo da obra roseana. Pois não é possível vivenciar-se o sertão sem as categorias roseanas para quem leu Guimarães Rosa antes de ter visitado o Planalto. Mas este fato não torna necessariamente inválidas as considerações precedentes. Prova apenas que há, para ele, um feed-back entre sertão e Guimarães Rosa. Para ele, Rosa informa o sertão, e o sertão informa Rosa. E isto equivale a dizer que a informação roseana está baseada sobre o sertão como sobre um pretexto. 

Pois a tese defendida neste trabalho assume agora a seguinte forma: o sertão é para Guimarães Rosa um pretexto extremamente bom para provocar uma nova revelação do ser, a substituir uma revelação cansada e profanada da tradição do Ocidente. E provocar fazendo de conta que já se deu. Os sertanejos de Guimarães Rosa não são os sertanejos do sertão atual, mas de um sertão pós-histórico, isto é, posterior à ruptura do tempo.

Suponhamos que alguém aceite a tese defendida (como possivelmente o próprio Guimarães Rosa a aceitasse se pudesse lê-la). Este alguém hipotético poderia argumentar da seguinte forma: a tese no fundo afirma ser a obra de Guimarães Rosa mais uma dentre as tentativas atuais (fenomenológicas, neopositivistas, estruturalistas etc.) de superar a noção historicista do tempo, substituí-la (ou completá-la) por outra sincrônica e compenetrante. 

O sertão pode perfeitamente ter servido de pretexto para tal empreendimento, mas certamente não foi essencial para tanto. Já que as demais tentativas atuais certamente não o tomaram por pretexto, e, no entanto, informam. De maneira que a tese se derrota a si mesma, se é que procura afirmar a importância da geografia na obra de Guimarães Rosa.

Este tipo de argumento conduz a conclusões exatamente opostas às que resultaram da tese mitologizante. Para os defensores da tese mitologizante, Guimarães Rosa é o articulador do mito sertanejo. Para os defensores da nova tese hipotética, Guimarães Rosa é um intelectual do fim do nosso século, e que recorre ao sertão como mero pretexto. É preciso recolocar a obra em perspectiva.

Que seja repetida a observação com a qual se iniciou este artigo: a geografia na obra roseana é nítida e a história, indefinida. A nitidez da geografia (se por “nitidez” for entendido não “identificabilidade com mapas” mas “clareza de contornos”) prova que a obra está ancorando o seu universo indubitavelmente em terreno, de forma que esse terreno é fundamento da obra e não pretexto. 

Pretexto é o sertão brasileiro, com o qual o terreno da obra é identificável, mas não necessariamente coincidente. Esta distinção é importante: a geografia da obra é essencial para o seu universo mas não o é para ele o sertão brasileiro. E a geografia da obra tem por pretexto o sertão brasileiro.

Se mantivermos este fato na mira, conseguiremos distinguir entre a obra de Guimarães Rosa e as demais tentativas atuais de superar o historicismo. As demais tentativas atuais são intelectuais, no sentido de procurarem resolver os paradoxos do historicismo pelo abandono deliberado do modelo historicista e sua substituição por outro. A tentativa roseana é vivida porque os paradoxos do historicismo já não têm sentido na própria vivência do universo roseano. Não têm sentido porque esse universo está ancorado em geografia que não está localizada fora do tempo (e portanto em lugar nenhum=“utopia”) mas em outro tempo. 

As demais tentativas são utópicas, a obra roseana é concreta. Por isto, falta-lhe o aroma do deliberado  e planejado que caracteriza as demais tentativas, e que também as desautentica. A superação da história se dá, na obra roseana, como que automaticamente, e portanto autenticamente. E isso se deve à sua geografia vivida.

Críticas penetrantes e minuciosas da obra conseguiram mostrar que a sintaxe roseana rompe a linearidade do discurso (a historicidade) não deliberadamente, mas espontaneamente. A língua de Guimarães Rosa situa-se em plano pós-discursivo, no sentido de abranger e ultrapassar esse plano do discurso, sem ter deliberado o seu abandono. Esta espontaneidade não exclui, obviamente, que o autor se desse conta daquilo que estava fazendo. Pois o presente trabalho procura sugerir que a mesma superação espontânea da historicidade se dá no plano semântico da obra. Isto é: que o autor já vive pós-historicamente, e que procura comunicar essa vivência aos que leem sua obra. E que consegue fazê-lo, porque a sua vivência brota de uma revelação nova do ser que se dá em determinada geografia concreta.

Se a presente interpretação da obra roseana tiver alguma validade, terá apontado um lugar singular de Guimarães Rosa na cultura atual, um lugar caracteristicamente brasileiro. Nele se articularia uma da primeiras contribuições fundamentais do Brasil à cultura universal: uma contribuição que tem a geografia brasileira por pretexto.