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INTERPRETAÇÕES
Vilém Flusser

O termo "interpretação" tem origem duvidosa, mas sugere que significa atividade que descobre preços (valores) no texto lido: “inter-pretare” viria então de “pretium” = preço. Determinada leitura seria “interpretativa” se seu propósito fosse o de descobrir valores escondidos no texto. Pois não seria isto o propósito de toda e qualquer leitura? 

Não, porque na maioria das vezes estamos lendo superficialmente, com o mero propósito de captar apenas a superfície do texto. De modo que “interpretação” significa toda leitura atenta, toda leitura que merece ser chamada leitura, toda leitura decente. “Interpretar” é não cometer a indecência da superficialidade: ao não penetrarmos o texto, ao não penetrarmos o texto, ao não entrarmos no seu tecido, assumimos posição distanciada, “transcendente”, e tal distância e transcendência desvalorizam. 

O termo latino “pretium” pode ser traduzido também pela palavra francesa “gage”, que significa salário, ordenado. De modo que “interpretação” significa “leitura engajada”. Toda leitura superficial, não interpretativa, é indecência, porque toda posição não-engajada, toda posição distanciada e transcendente, aquela que se recusa a sujar as mãos, é indecente.

No entanto: estamos atualmente condenados a leituras superficiais, indecentes, dada a inflação de textos que nos inunda. A indecência está no programa da literatura. Para se poder interpretar, é preciso que se tenha a suspeita de que determinado texto esconde valores. Não é possível, na maré de textos que nos cerca, separarmos dela os textos “merecedores”, prima facie, de serem interpretados. 

Por certo: dispomos de críticos (literários e outros) e de publicações (literárias e outras), aos quais delegamos a tarefa de pescarem tais textos “merecedores”. Mas é muito incômodo delegar tais poderes de escolha. “Delegar” significa “deixar de ler”, e delegados são representantes de iletrados. Quando se trata de delegados por nós, por exemplo deputados ou senadores, o delegado é ainda mais ou menos tolerável: são “delegados legítimos”, isto é, podemos ler (legítimo) o que deixamos de ler. Mas os críticos literários são delegados ilegítimos, e nos condenam a ler superficialmente. O que, decerto, problematiza toda leitura presente.

Interpretar é tarefa que contém contradição interna. Interpretar pressupõe que o leitor se ponha no lugar do autor, que o leitor “simpatiza” com o autor, a fim de poder descobrir as intenções que esse autor procurou veicular no texto. Pressupõe que o leitor se reconheça no autor e que o reconheça. Pois se me ponho no lugar de outro, não é mais ele, mas sou eu quem ocupa o posto. Embora o reconhecimento do autor seja pois valoração do autor, implica também que o autor fique disposto. 

Tal contradição interna mostra (seja dito de passagem) a diferença entre amor e reconhecimento. No amor me apago (deponho), no reconhecimento me afirmo (deponho o outro); na leitura interpretativa não posso amar o autor, porque toda leitura pressupõe afirmação do leitor (o amor é “cego”, incapaz de leitura). A interpretação deve reconhecer o autor e, ao reconhecê-lo, depô-lo.

Exemplo significativo da contradição interna a toda leitura interpretativa é fornecido pela ciência da natureza. Tais ciências se assumiam, até o passado recente, “interpretações da natureza”. Assumiam a natureza enquanto texto (conjunto de signos) e procuravam decifrar tais signos. Atualmente isto não mais é a maneira como as ciências da natureza se assumem. Elas hoje “sabem” que a ciência escreve textos para conferir significados à natureza. Pois ciência da natureza enquanto leitura interpretativa da natureza é esforço para reconhecer o autor da natureza. 

Os fundadores da ciência moderna (renascentistas e barrocos) se tomaram por gente de “fé”, procuravam dar facilidade ao texto escrito por Deus. A Igreja desconfiava disto, porque sabia que “reconhecer” o autor implica tê-lo. Deus interpretado é Deus deposto. Certos protestantes vão mais longe ainda que a Igreja. Sabem que a “interpretação” e a “inteligência” são termos paralelos: “inter-legere” = ler entre. Desconfiam portanto que todo ato inteligente é ato interpretativo, logo, que  todo ato inteligente vai acabar depondo Deus. Exigem portanto fidelidade à “letra”, fidelidade cega, e afirmam que nos salvaremos sola fide.

Se admitirmos que “interpretação” é leitura atenta, inteligente, compreendemos que o autor consciente da ambiguidade da interpretação seja, ele também, ambíguo com relação a ela. Por certo: deseja ser lido inteligentemente, deseja ser reconhecido. Mas não quer ser interpretado, no sentido de ser submetido à operação cirúrgica que lhe revolve os instintos. Para ele, autor, é o texto tal qual foi escrito que conta. Que o leitor analise o texto, que o critique (que aplique critérios de medidas e peso ao texto), mas que não avance ao longo do texto até o autor para se pôr no lugar dele. 

Todo texto é braço estendido do autor rumo ao leitor, a fim de ser acolhido. Não há pior ofensa que recusar o braço estendido e avançar até o íntimo do autor (seja tal íntimo seu cérebro, seu sexo ou seus intestinos). De maneira que há duas ofensas mortais para autores. A primeira é passar pelo seu braço estendido com desdém, recusá-lo. A outra é tomar o texto por pretexto para interpretações das intenções não articuladas no texto. 

A única atitude adequada ao texto (do ponto de vista do autor) é a atitude crítica, julgadora. O que permite distinguirmos entre leitura crítica e leitura interpretativa. A leitura crítica visa dialogar com o autor, a interpretativa visa conhecer o autor para poder se pôr no lugar dele.

Do ponto de vista do leitor, a atitude interpretativa exige três tipos de postura nitidamente distintas umas das outras. A primeira: este texto exige ser interpretado para se tornar inteligível: postura explicativa. A segunda: este texto, embora inteligível, admite leitura que revelará camadas escondidas: postura analisadora. A terceira: este texto é mentiroso e precisa ser desmascarado: postura polemizante. O próprio leitor pode não estar consciente da divergência entre as três posturas, e pode passar, inconscientemente, de uma a outra. Isto mostra que toda interpretação pode, por sua vez, ser interpretada.

Primeira postura: há textos obscuros. Por serem tensos (exemplo: os fragmentos de Heráclito, os poemas de Rilke) ou por serem deliberadamente contraditórios (exemplo: o Tractatus de Wittgenstein, ou os aforismas de Nietzsche). Muitas vezes densidade e contradição deliberada vão de mãos dadas porque a densidade pode ser método para esconder contradições, ou, em outros termos: é a contradição consequência da densidade. O leitor “interpretará”, isto é: diluirá a densidade e forçará a contradição até a aporia. O resultado dependerá do interpretador tanto quanto do interpretado. 

Determinada interpretação da Bíblia ou dos textos da sabedoria oriental mostrará que tais textos são densos e contraditórios, porque sua riqueza implícita exige contradição e densidade. Outra interpretação de tais textos mostrará que são densos e contraditórios porque são pobres, e que tal pobreza se revela depois de interpretados. Apenas “meta-critérios”, critérios de leitura crítica, poderão tentar julgar qual das duas interpretações é “válida”, se são “válidas” ambas, ou se são “inválidas” ambas.

O que caracteriza tal postura interpretativa é que visa desdobrar o dobrado, explicar o complexo. Ao desdobrar destarte o complexo, tal interpretação traduz a poesia (densidade) em prosa (largura). Devido a isto, tal tipo de interpretação perde o sabor condensado do interpretador, e adquire o sabor de poeira. 

Exemplo: surge toda uma leitura interpretativa em torno do mandamento “observarás o sábado para santificá-lo”. Por certo: tal literatura deu origem a várias teologias e religiões que marcaram o ocidente, mas o sabor (a “sacralidade”) evaporou-se dela. 

Outro exemplo: o verso rilkeano “wir machen alle den Fehler, dass wir zu gut unterscheiden” (“cometemos todos o erro de distinguirmos com perfeição demasiada”) admite interpretações divergentes, inclusive esta: “não devemos interpretar demasiadamente”. No entanto, nenhuma de tais interpretações captará o sabor da contradição densa entre “Fehler” e “zu gut”. 

Conclusão: a primeira postura interpretativa é exigida por certos textos obscuros, mas destrói tais textos. Trata-se de um aspecto da contradição interna do gesto interpretativo.

Segunda postura: todo texto é expressão de uma interioridade. A interioridade inteira do autor está implícita em todo texto, embora apenas parte da interioridade esteja nele explícita. E a interioridade, por sua vez, é armazém de influências provindas do ambiente no qual o autor existe. “Interpretar” o texto com tal postura é procurar tornar explícitos os elementos da interioridade do autor, e do seu contexto. 

O autor mergulhará no texto para trazer à tona as suas motivações psicológicas, sociais, econômicas, culturais, ideológicas, e poderá, se for disciplinado, alcançar as camadas mais “objetivas” do autor, inclusive as fisiológicas e climáticas. Trata-se, em tal interpretação, de dessubjetivar o texto e de objetivar, isto é, reificar o autor do texto.

Tais interpretações podem ser muito reveladoras. Com efeito, são elas fontes do nosso conhecimento do homem, elas revelam contextos históricos passados e presentes, mostram o funcionamento da psiquê. Mas, precisamente por fornecerem conhecimentos sobre o homem, são elas fundamentalmente anti-humanistas. Transformam o autor (é o homem tout court) em objeto do conhecimento, logo, reificam o sujeito. São elas agressões contra a “livre intenção” do autor, já que não admitem o próprio texto, expressão de tal intenção, mas procuram por detrás dele. São agressões, inclusive quando simpatizam (quando reconhecem). 

Por exemplo: Lucrécio é agredido quando a interpretação o revelar sujeito fundamentalmente cordial e caloroso, e Machiavelli é agredido quando a interpretação o revelar sujeito fundamentalmente filantrópico e amante da liberdade. Ficam agredidos, porque sua intenção nos textos é transmitir mensagem discordante de tais traços do seu caráter. A interpretação depõe o autor que reconhece.

Terceira postura: todo texto é ficção, inclusive quando procura não sê-lo. Se Newton afirma que “hypotheses non fingo”, ele está enganado. Porque todo texto é produto trabalhado (poiesis), portanto produto de arte (artifício, artimanha). Mas o autor pode fingir de várias formas, inclusive pode fingir que não está fingindo. Pois tal ficção de ficção é chamada “mentira”, e a tarefa da interpretação é desmascará-la. 

O leitor procura retirar do texto a capa da “má intenção” do autor para revelar a sua intenção “verdadeira”. O leitor procura inverter a intenção do autor explícita no texto para revelar a intenção do autor deliberadamente excluída do texto. O problema de tal postura interpretativa é que a inversão da intenção do autor exige que o leitor entenda a inversão. São duas intenções em luta.

A interpretação desmascaradora de mentiras (desideologizante) se toma muitas vezes por crítica (de cultura, de textos, de pensamentos). Exemplo: a crítica cultural da Escola de Frankfurt. Mas está enganada. Crítica, no sentido exato do termo, é aplicação de medidas (critérios) ao fenômeno, é portanto gesto frio e distante. Crítica em sentido exato acontece quando aplico os critérios da lógica formal, da informática ou da análise sintática a textos. Os melhores críticos de textos são os computadores. 

Os desmascaradores de mentiras estão engajados na luta quente, corpo a corpo, contra o texto. Não criticam: interpretam, isto é: valorizam. Precisamente por isto é a interpretação polêmica mais “humanista” que a interpretação analisadora (segunda postura). Por exemplo: se desmascaro a propaganda nazista, se mostro que o que ela afirma não é o que ela pretende, estou admitindo que Goebbels é gente, e não, como o fará a crítica fria, apenas instrumento de aparelho programado para mentiras. E inclusive estou admitindo Goebbels mais humanisticamente que a segunda postura, a qual revelará seus complexos devido a sua baixa estatura. 

A postura polêmica é mais humanista que as outras por mais uma razão reveladora da contradição inerente a toda interpretação: por ser a polêmica luta entre intenções – o polemizador deve, por sua vez, ser interpretado, porque pode estar mentindo ao combater mentiras.

O leitor, ao interpretar o texto, não assume deliberadamente uma das três posturas. Não decide que vai desdobrar complexidades, ou analisar profundidades, ou desmascarar mentiras. A não ser em casos excepcionais, o leitor vai lendo, e vai assumindo alternadamente uma das três posturas, sem disto estar consciente. A posição do leitor é vacilante. Podemos observar, fenomenologicamente, tal vacilação do leitor, tal mudança constante de posição, durante a prece, e sobretudo durante a prece judia. 

O que parece ginástica absurda (geste gratuit) se revela, sob tal aviso, como sendo técnica elaborada par permitir leitura interpretativa, técnica que permite desdobrar as complexidades divinas, mergulhar nas profundidades divinas e polemizar com Deus – com toda a contradição inerente à leitura interpretativa. Pois o vacilar do leitor durante a prece judia, sua recusa de assumir posição regida perante o texto (a recusa de afirmar: estou na leitura correta), caracteriza toda leitura inteligente. Porque a inteligência (inter-legere) é precisamente a capacidade de admitir que todo texto está cercado de uma aura de interpretabilidade, e que tal aura é tanto mais vasta quanto mais rico for o texto.

O vacilar do leitor na sua tentativa de “apreciar” (interpretar) o texto é uma das vitórias mais preciosas do espírito humano. Porque não assume o sujeito humano como um ponto central e fixo, um ponto “hic et nunc” sobre o qual tudo se precipita para ser apreciado. Assume, pelo contrário, o sujeito humano como flutuando em torno das “coisas”, logo, capaz de penetrá-las a partir de vários pontos. 

O interpretador não é aquele que se afirma face ao texto, mas aquele que penetra o texto a partir de vários pontos a fim de abri-lo. Por certo: ao abri-lo, o interpretador destrói o texto. Mas igualmente certo: ao destruí-lo, o interpretador aprecia, valoriza, confere valores ao texto. Contradição inerente à interpretação, contradição inerente à inteligência, contradição inerente ao espírito humano.

A situação atual nos condena à leitura superficial, “diagonal”, ininteligente. Não mais podemos interpretar, mas consumimos textos sem digeri-los. Por isto os textos se tornaram indigestos, sobretudo os “digestes”. Delegamos toda interpretação, toda inteligência, a especialistas. Por isto a leitura está se tornando gesto inoperante. Nada mais estúpido que ler os jornais da manhã quando podemos contemplar as imagens da TV à noite. 

O sol matinal da leitura está deixando de brilhar e a noite das imagens técnicas está nos engolindo. Noite esta na qual todas as vacas são cinzentas, e portanto não interpretáveis. O sol da inteligência está se pondo a despeito de toda contradição inerente à inteligência; o seu caso não é necessariamente motivo de regozijo.