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JUSTIFICAR O CONCEITO
DE PÓS-MODERNIDADE
Vilém Flusser

para Sergio Rouanet

 

Em recente mesa-redonda, tendo por objetivo o projeto “Casa da Cor” a ser estabelecido em São Paulo, utilizei o conceito no contexto seguinte: “casa”, no significado moderno do termo, é espaço privado aberto para o espaço público graças a portas e a janelas. Tal espaço público (praça em cidade industrial) é lugar para o engajamento político (exposição de informações elaboradas no privado).

Ora, tal significado moderno de “casa” perdeu validade, porque o espaço público (a praça) está desaparecendo sob o peso de canais visíveis e invisíveis. Isto implica elaborarmos novo conceito de “casa” (como também de “praça pública”, de “política”, e “engajamento”). Sugiro que “casa”, no significado pós-moderno, seja espaço no qual informações adquiridas são armazenadas, processadas, e re-emitidas rumo a outras “casas”. 

Na discussão subsequente surgiu a seguinte objeção: o conceito “pós-modernidade” articula tentativa de escamotear os problemas não resolvidos pelo “projeto” moderno, conforme argumento avançado por Rouanet no livro As razões do iluminismo

As considerações seguintes procurarão rebater tal objeção, e serão elaboradas para serem apresentadas por ocasião da “ARS ELECTRONICA”, em Linz em setembro de 1983, e por ocasião da minha discussão com Baudrillard, Lyotard e Virilio em torno do tema “um 9” em Berna. É dever intelectual apresentar o rascunho a Rouanet, a fim de permitir que reaja.

Admitamos que “modernidade” seja projeto para realizar determinado programa, e que tal programa esteja longe de ter sido realizado (tal admissão é difícil, porque os próprios termos “projeto” e “programa” têm sabor pós-moderno). Disto não se pode concluir que novo projeto, tendo novo programa, não possa emergir antes que o moderno se tenha realizado. Projetos emergem, não em sucessão linear, mas toda vez que aparecem novos problemas, e se recobrem. 

Com efeito: o que caracteriza a cena cultural são as zonas cinzentas nas quais projetos incongruentes se cruzam. Projetos pré-modernos (inclusive projetos pré-históricos) continuam ativos, e nenhum projeto humano jamais realizou seu programa. O que aconteceu, no entanto, é o seguinte: todo projeto novo assumiu os problemas não resolvidos pelos precedentes, e os formulou a sua maneira. Exemplo: o projeto cristão emergiu  em momento no qual o projeto imperial romano estava longe de se ter realizado, e reformulou a problemática romana, sem no entanto ter eliminado o projeto romano, o qual continua vigorando até hoje.

Admitamos ainda que o projeto “modernidade” tenha por programa resolver os problemas ao submetê-los à crítica de razão discursiva (admissão igualmente difícil, porque implica a noção pós-moderna de “razão programada”). Tratar-se-ia, no caso, de tentativa da recodificar todos os problemas em códigos claros e distintos (preferencialmente numéricos), e isto seria “iluminismo”. Em tal caso, um problema será tido por resolvido se formulado algoritmicamente, e portanto ato a ser manipulado tecnicamente. Pois, se admitirmos tal definição de “iluminismo” (Aufklaerung enquanto Erklaerung), estamos em pleno pós-modernismo, pela razão que se segue.

Sob tal enfoque, o projeto moderno se inicia com a tentativa de reformular problemas do discurso precedente (grosso modo: teológico-filosófico) para o discurso das ciências tidas por “exatas”. Isto se torna óbvio em descarte, cuja meta é adequar o pensamento artístico ao mundo objetivo. Ora: a meta se revelou rapidamente inatingível, dada a discrepância entre a estrutura do pensamento aritmético e a do mundo objetivo (entre a “res cogitans” e a “res extensa”). A clareza e distinção da aritmética (os intervalos entre os conceitos) deixa escapar a quase totalidade do mundo objetivo. 

O problema metodológico da modernidade era pois o de preencher os intervalos para tornar a razão adequada ao mundo. O maior triunfo da modernidade era o cálculo (Leibniz e Newton), que visava integrar os diferenciais, e destarte elaborar código que fosse simultaneamente claro e distinto, e também “significante”. O otimismo do século 19 (o “progressismo” burguês e socialista) repousa sobre a convicção de que todos os problemas são, em tese, formuláveis em equações diferenciais, e portanto admitem soluções técnicas (razoáveis). O pós-modernismo é a admissão de que problemas formulados em tais algoritmos não são necessariamente solúveis (que a razão discursiva, alfanumérica, não é necessariamente método adequado para resolver problemas).

O projeto moderno naufraga, de tal ponto de vista, por duas considerações complementares: 

  1. A razão discursiva contém contradição interna entre o código de letras (lógica) e o de números (matemática), e Russel-Whitehead provaram não ser a lógica reduzível a matemática ou vice-versa. De maneira que problemas formulados logicamente não são numerizáveis, e problemas formulados matematicamente não são logicamente criticáveis.
  2. Resolver problemas “racionalmente” significa numerizá-los (não criticá-los logicamente), e numerizar problemas complexos (por exemplo sociais ou psicológicos) exige tempo superior ao disponível (por exemplo numerizar decisões existenciais e teoricamente possíveis), mas exige, mesmo com a ajuda de computadores, tempo superior à provável duração do universo. A “racionalidade” (o método de calcular em razões para depois recomputá-las) se revela inoperante (embora elegante). O projeto moderno naufraga precisamente porque avançou até regiões nas quais se revela inoperante. O que não impede que continue vigorando em regiões menos “iluminadas”.

Ora: se admitirmos (como devemos) que a razão discursiva é inoperante nas ciências tidas outrora por “exatas”, todas as categorias de razão discursiva (kantianas) ficam corroídas. Todas. Não apenas a casualidade (e com isto a noção moderna da liberdade) mas inclusive a identidade e a diferença. Na medida em que o cálculo da propriedade vai tomando o lugar das explicações causais, na medida em que a fatoração vai tomando o lugar da “lei”, e na medida em que o acaso vai tomando o lugar da causa, todas as categorias (as imperativas tanto quanto as “puras”) vão ser reformuladas. Pós-modernidade é isto.

Por certo: se aplicarmos isto aos problemas existenciais, políticos, sociais, psicológicos etc., tal afirmativa soa oca. O que importa ser a razão  no campo da ciência exata, se pode nos campos menos “iluminados” continuar a opor-se ao obscurantismo? Infelizmente, tal argumento “humanista” não é sustentável. 

O projeto moderno repousa sobre a fé de que todos os problemas são, em tese, aceitáveis aos métodos da ciência exata. E é tal fé que se torna impossível, não por desconfiança nas ciências, mas por conhecimento melhor da razão ela mesma. O projeto moderno naufraga em toda parte por excesso de iluminismo, graças ao qual a própria a razão ficou iluminada.

O projeto pós-moderno, por muito que se fale nele, ainda não foi conscientizado. O seu programa, no entanto, parece desde já aparente: resolver problemas não pela tentativa de explicá-los (admitido como tarefa impossível) mas pela tentativa de controlá-los. É projeto muito mais modesto do que o projeto moderno, isto porque o seu clima existencial é outro: não é mais “humanista” (perdeu a fé no homem, como o projeto moderno perdeu a fé em Deus) e sua única esperança é a de que a própria complexidade dos problemas evite colapso.

Recorrerei à metáfora para ilustrar o que pretendo: o modelo do projeto moderno é a linha reta “eu visa o futuro”, o do projeto pós-moderno é a linha fractal que é auto-semelhante. Resumo pois meu argumento: admito que o projeto moderno (se é que já era “projeto”) não realizou “ainda” as suas metas (des-ideologizar, des-mitizar, racionalizar, humanizar o pensamento e o comportamento), mas sou igualmente obrigado a admitir que outro projeto emergiu, no qual tenho tão pouca fé quanto no moderno, mas o qual formula os problemas (antigos e novos) de forma para mim mais interessante. 

Eis a razão porque acredito que o conceito “pós-modernidade” se justifica.