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DAS LÍNGUAS SANTAS
Vilém Flusser


Os enigmas que a língua em geral e cada língua em particular nos põem não foram até bem recentemente percebidos e muito menos pesquisados. Dentre eles, chamo a atenção para a circunstância de que existem línguas consideradas santas por certas pessoas ou grupo de pessoas.

O fato de ser tal circunstância do conhecimento geral não a torna menos curiosa. A afirmativa irrefletida, oferecida à guisa de explicação, de que aquelas línguas são consideradas santas por terem servido de veículo para certas escritas sagradas, é tão banal quanto insignificante.

Creio, muito pelo contrário, que existe uma relação fundamental entre língua e pensamento, e que é igualmente legítima a afirmação de serem aqueles escritos sagrados por terem sido formulados em línguas santas. Nutro a suspeita de que a qualidade da “santidade” (que não pretendo analisar) relaciona-se com os aspectos estéticos e ontológicos dessas línguas. E pretendo expor ao leitor algumas considerações que fizeram nascer em mim tal suspeita.

Sabemos que os judeus consideram o hebraico tão santo que não devem pronunciá-lo com a cabeça descoberta. O latim é para o católico tão santo que as traduções da Bíblia para outras línguas não chegam a ter autoridade. Para o muslim o árabe é tão santo que uma tradução do Alcorão é simplesmente impossível. As mesmas qualidades são atribuídas pelos hindus ao sânscrito, pelos budistas ao pali, pelos ortodoxos ao slavônico.

Não se diga que se trata somente de línguas mortas ou mumificadas. As recentes tentativas de retradução da Bíblia para o inglês encontraram oposição, e são de fato impróprias se comparadas com a linguagem da King James Bible. A razão é que há uma qualidade nessa linguagem considerada, por muitos, como sendo santa. Talvez se torne um pouco mais palpável essa qualidade misteriosa se considerarmos palavras cujo significado nos escapa, ou quase escapa.

Nas escritas hebraicas existem palavras provenientes, aparentemente, de línguas anteriores ao hebraico e que foram mantidas pela sua santidade. Por exemplo a frase: “Mene Tekel Ufarsin”. A tradução comum é “Pesei, medi e recusei”, ou “pesei, medi e Persas”. O significado da frase é no entanto independente da tradução e reside no clima mágico, na melodia evocativa, no ritmo que se aproxima do balbuciar, enfim, na qualidade estética da frase.

Como outro exemplo dou a palavra: “Chabat”. A tradução é evidentemente “sábado”, e os etnólogos e filólogos procuram as origens dessa palavra na Suméria, onde devem ter existido festas da lua com nomes similares. O seu significado reside, entretanto, numa espécie de aura que a encobre, revelando para quem sabe percebê-lo uma visão do eterno que irrompe dentro do tempo.

Outro exemplo, mais brutal e direto, é a expressão: Tohu-va-Bohu. É traduzido por “caos”, mas é na realidade um par de palavras sem significado unido pela cópula “e”. O caráter do caótico, embora interligado, salta aos olhos de maneira diabólica e nefasta.

Como último exemplo dou a palavra: Jehovah. Todas as tentativas de explicá-la etimologicamente ou como anagrama erram de alvo. Ela é, para todos os que ainda conservam um pouco de ingenuidade estética, o nome do “ser em si”, o nome ontológico por excelência, aquilo que os hindus chamam de “nama-rupa” — “nome-forma”.

Quero acrescentar outro exemplo, desta vez emprestado de um ambiente diferente e exótico, porém representando também resíduo de uma língua mais santa. Tenho em mente a palavra “Om” ou “aum” encontrada em textos escritos em sânscrito. Conforme nos dizem os “richis”, essa palavra encerra a suma sabedoria. Os “yoguin” a pronunciam no curso de suas meditações para invocar a ajuda de forças superiores. Não tem significado lógico, estando, todavia, prenhe de um significado mágico e religioso. É redonda e fértil como um ovo, colocando-se no limite entre a sílaba e a palavra, entre o falar e o calar-se. Conhecemo-la através de um descendente ocidental enfraquecido, a palavra “amém”.

Passo agora a considerar alguns aspectos ontológicos das línguas “santas”.

As palavras árabes, por exemplo, formam-se de letras que têm, além do seu papel como elementos da palavra, também significados independentes. Cada palavra representa, portanto, uma espécie de charada, significando diversos planos de realidade. O estudo do Alcorão revela progressivamente essas diferentes camadas do Ser, e o Alcorão como um todo deve ser encarado como chave para a solução da charada da realidade. De palavra em palavra, de letra em letra, avança o espírito até Deus, e é neste sentido que o Alcorão é “logos”, a palavra Divina, o Filho de Allah.

Tomemos, como segundo exemplo, o significado ontológico de duas palavras em sânscrito, a saber “atman” e “satchitananda”. A primeira significa simplesmente “respiração”, mas respiração tomada como fundamento da realidade. Significa, portanto, o pulsar cíclico do mundo, o surgir e o passar dos fenômenos, a cadeia de causa e efeito (tanto no sentido cientifico quanto no ético); significa o Eu individual, o agente da respiração fisiológica, e também o Eu cósmico, agente e provocador da cadeia dos fenômenos; significa, enfim, um aspecto de Deus. Não é para admirar que o hindu pretenda governar o mundo e a si mesmo controlando a respiração, sujeitando-a à sua vontade.

A palavra “satchitananda” é um composto de “sat=ser”, “chit=saber” e “ananda=felicidade”. Assim conjugadas, tais palavras superam-se por assim dizer dialeticamente: o estado da alma a que essa palavra alude está além do Ser, do Saber e da Felicidade, é uma espécie de fundir-se do Eu na totalidade da realidade, uma união mística para a qual as nossas línguas não têm expressão equivalente.

Como último argumento proponho as considerações seguintes, relativas à gramática hebraica:

  • (1) falta o verbo “ter”, substituído pelo dativo “mim”;
  • (2) falta o presente, substituído pelo particípio (por exemplo, em vez de “falo” se diz “eu falante”);
  • (3) existe a forma “nãoeu”, “nãotu” etc.

A frase portuguesa “eu não falo” seria, em hebraico, “nãoeu falante”. Quem negará que através dessas formas se revela um conceito da realidade basicamente diferente do nosso? Que está sendo articulada uma realidade que, possivelmente, será considerada por certas pessoas como a única realidade, e a língua que a articula, em conseqüência, língua santa?

Em conclusão deste esboço, em forma de tentativa e demasiadamente sumário, diria o seguinte: toda língua possui, em grau maior ou menor, a capacidade de evocar, invocar ou provocar aquilo que é chamado “o santo”. Possui essa capacidade graças a duas qualidades: ao seu aspecto estético e ao seu significado ontológico.

Existem línguas que possuem tal capacidade em grau altíssimo, aparentemente, e são essas que são consideradas santas. A minha intenção não foi tanto expor o problema, como provocar a curiosidade necessária para a sua proposição. Mas mesmo uma aproximação tão modesta já ilumina a grande infelicidade que reside na pluralidade das línguas santas, tornando um pouco mais compreensível o castigo que se seguiu à construção da torre de Babel: a confusão das línguas.