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O MITO DE SÍSIFO DE CAMUS
Vilém Flusser

Os esquemas tradicionais para a divisão da literatura em drama, poesia e literatura épica nunca foram aplicáveis de maneira estrita. Atualmente esses esquemas devem ser abandonados, e com eles também as tentativas de uma classificação mais ampla da literatura em beletrística, científica, filosófica etc. As obras mais importantes da atualidade provam que todas essas gavetas estouraram.

À procura do tempo perdido, de Proust, por exemplo, situa-se entre um romance e uma pesquisa psicológica e existencial; Ulysses, de Joyce, fica entre um romance, um poema lírico, um tratado de psicologia de profundidade e uma pesquisa de psicologia social; Dr Faustus, de Mann, é um romance que contém um tratado completo de musicologia, uma estética explícita, dois tratados de teologia igualmente explícitos, sendo todo ele uma exposição implícita de teologia; as poesias de Eliot são pesquisas epistemológicas e ontológicas; os Cantos de Pound contêm, entre outras coisas, uma filosofia da cultura e da história; os trabalhos de Kafka não se enquadram em nenhuma repartição concebível.

Também O mito de Sísifo, de Camus, recusa-se a uma classificação e exige que seja sorvido e absorvido pelo leitor tal qual foi escrito: como erupção inteiramente honesta de um espírito imerso na tradição filosófica, artística e científica da atualidade.

Se queremos seguir Camus, precisamos supor, com ele, que existe somente um problema real: por que não me mato? 

A honestidade intelectual e moral me força a reconhecer que tudo carece de significado, é absurdo e se precipita na direção de uma morte absurda e sem sentido. Todas as tentativas individuais e coletivas da humanidade, tanto teóricas quanto práticas, de negar, de esconder, de esquecer ou de adiar essa verdade básica são outras tantas desonestidades. 

Nessa categoria se inclui, evidentemente, toda a majestosa tradição cultural e civilizatória da humanidade. Repito, portanto: por que não livrar-me de toda essa absurdidade, matando-me a mim mesmo? Por que viver quand-meme?

O conceito de absurdidade é em seguida iluminado por vários ângulos para aproximá-lo ao nosso sentimento (de nojo) e à nossa razão (ou seja, à impossibilidade de clareza e distinção): o homem honesto precisa ser definido como absurdo. A situação do homem absurdo é a do suicida no ato do pulo, e o suicídio é o salto a partir do absurdo para o nada, portanto para o transcendente. 

O suicídio é, portanto, uma espécie de metafísica, uma espécie de truque teológico, em resumo: uma tentativa desonesta de escapar ao absurdo. Consequentemente, o suicídio deve ser repelido, como qualquer outra espécie de metafísica. 

É preciso continuar vivendo com o nojo, dia após dia, momento após momento, para viver o mais possível, já que não se pode viver o melhor possível. Somente assim, devorando quantidade em vez de qualidade, somente como Don Juan, ator ou conquistador, é o homem honesto.

A melhor maneira de abordar esse mundo camusiano é com simpatia. Ele nos chama com a voz da revolta contra uma realidade absurda que se fecha diante de nosso sentimento e diante de nossa razão, chama-nos portanto com a voz da angústia da morte e do desejo de morte. 

Vive-se o mundo heroico de uma luta perdida e sem esperança já antes de ter começado, e perdida sempre de novo a cada instante. Vive-se o mundo da razão e do sentimento pervertido contra si mesmo (cor inversum). Vive-se o mundo da humanidade do século vinte, uma humanidade que se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo, ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus.

A situação da humanidade atual é, em consequência, honestamente absurda. Terá sido por terem reconhecido essa circunstância que os solenes senhores de Estocolmo concederam a Camus o Prêmio Nobel de Literatura?

Devemos nós ceder a essa ética horrível e viver quand-meme? Ou devemos cometer a desonestidade e pular da janela? Ou a desonestidade é pular para dentro da fé? Afinal de contas, o que é essa “honestidade”, e de onde vem senão do além da metafísica desonesta?

Com esta pergunta final, assim me quer parecer, podemos abandonar o mundo camusiano.