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O MITO DO CUBO
Vilém Flusser

O Estado de São Paulo, 22/08/1964

 

Pedirei neste artigo ao leitor uma façanha digna dos mágicos mais poderosos: pedirei que se transforme (pelo menos na sua imaginação) em sal de cozinha. 

A nossa imaginação, embora limitada por paredes que serão discutidas no curso deste artigo, é muito elástica e capaz de muita coisa surpreendente. Pode ultrapassar de muito as grades daquilo que chamamos  "realidade", e estabelecer, além, uma multidão de mundos. Esses mundos imaginários serão tão consistentes, ou mais, do que o mundo da "realidade", desde que a nossa imaginação criadora de mundos seja informada pelo rigor do nosso intelecto. 

A imaginação rigorosa é a mola mestra da atividade criadora. O mundo da "realidade" não passa de uma criação da imaginação imperfeitamente rigorosa.  O pedido que faço ao leitor é, em resumo, um apelo de substituir esse mundo  pouco rigoroso da "realidade" por outro, muito mais simples e passível de maior rigor.

Não será fácil o cumprimento do meu pedido, porque o mundo da "realidade" nos prende de mil maneiras. A imaginação que o estabeleceu endureceu e petrificou-se no curso de milênios, a ponto de não sabermos mais da origem imaginária do mundo da "realidade". Com efeito, essa imaginação que estabeleceu o nosso mundo petrificou-se na forma das diversas línguas. 

Mas com um esforço podemos, precariamente, ultrapassar a "realidade". 

Sejamos pois sal de cozinha por uns poucos instantes.

Para tanto será necessário que esqueçamos tudo que sabemos a respeito dessa substância humilde que é o sal de cozinha. Como objeto do conhecimento, como pó branco de gosto específico, ou como molécula de um átomo de sódio e outro de cloro, o sal de cozinha faz parte do nosso mundo "real" e não poderá servir de base para um mundo novo. É preciso intuir o sal de cozinha como existência, como centro de uma situação que adquire o seu significado somente em função do sal, que é doravante o seu centro. 

Se "somos sal", então doravante o sal é o sujeito do mundo, e tudo mais são seus objetos. As coisas do mundo são coisas somente enquanto "para o sal", mas o sal, este sim, simplesmente está aqui ("ist da"), simplesmente existe. A existência do sal é doravante o dado primordial do mundo, e tudo mais é apenas derivado desse dado. 

Nessa primazia da nossa existência como sal reside a nossa "salinidade", e um certo "halomorfismo" invade doravante o mundo inteiro. Essa salinidade e esse halomorfismo são inevitáveis no mundo que acabamos de estabelecer, e serão nossos companheiros constantes no curso da halologia que será desenvolvida por nosso argumento.

Qual é a forma, a "gestalt", pela qual existimos como sal de cozinha? O cubo. Somos seres que tendem a cristalizar-se em cubos. O resto do mundo, essa nossa circunstância dentro da qual tendemos para o cubo, é apenas o pano de fundo do processo da nossa cristalização, um pano de fundo altamente duvidoso.

Cristalizamos, "ergo" somos. O resto do mundo precisa legitimar-se ante o nosso processo cristalizador para tornar-se legitimamente "mundo". Há coisas que influem na nossa cristalização, e essas coisas serão chamadas doravante de "realidade". Esta será a base da nossa ontologia. 

Há coisas que favorecem, e outras que prejudicam a nossa cristalização, há portanto coisas "boas" e "nefastas". Nisto estará baseada a nossa ética doravante. O cubo é a forma ideal e perfeita da nossa existência, é portanto "belo"; outras formas como o dodecaedro são formas imperfeitas, e outras, como a esfera, portanto anti cristalina, são "feias". A nossa estética será radicalmente cubista. 

Não resta dúvida de que o cubo, por ser a forma ideal, é a um tempo a suma realidade, a suma bondade e a suma beleza. Se conseguirmos cristalizarmo-nos em cubo, estaremos plenamente realizados, seremos seres perfeitos. A mera contemplação do cubo, com a sua simetria perfeita, com os seus seis quadrados perfeitamente dispostos, com a beleza dos seus cantos e o rigor dos seus ângulos, eleva a nossa existência extaticamente. 

O estudo das qualidades óticas, elétricas e mecânicas do cubo é o fundamento do conhecimento da realidade. A relação misteriosa entre os lados e as diagonais dos quadrados, e entre a superfície dos quadrados e o volume do cubo, desvenda a própria estrutura da realidade. O caráter matemático dessas relações, um caráter que tem a ver com a harmonia da música, enche-nos de espanto sagrado, um espanto que nos faz vibrar até ao íntimo da nossa organização molecular, e que é, ela também, uma organização cubista. 

Em suma: somos projetados em forma de cubo. O cubo é o nosso projeto, e o processo da nossa cristalização é a realização progressiva desse projeto. Se nos tornarmos cubo, teremos sido autenticamente nós mesmos. "This above all, to thine own self be true" – terá sido o nosso lema. Mas, se decairmos no pó branco e amorfo que está jogado em qualquer canto da cozinha, teremos sido existências inautênticas e decadentes. Teremos traído o projeto do cubo.

Por ser o nosso projeto, é o cubo o mito em obediência ao qual existimos.

Foi-nos revelado "in illo tempore" em toda a sua perfeição resplandecente. Nessa sua primeira e definitiva revelação apareceu o cubo como um desvendar do oculto, como uma articulação do inefável. Estabeleceu, nessa sua primeira aparição, as nossas existências e todo o mundo em nosso redor, de modo que podemos dizer que nós e o nosso mundo somos projeções do mito do cubo. 

Esse mito abre as possibilidades da nossa existência, a saber a possibilidade de cristalizarmo-nos em cubo. Neste sentido estabelece o mito a nossa liberdade. Mas, simultaneamente, o mito limita essas nossas possibilidades, por exemplo torna impossível a nossa cristalização em dodecaedros. Neste sentido o mito  condiciona-nos. 

Somos, como sal de cozinha que somos, prisioneiros do mito do cubo, mas livres dentro dessa prisão que é o nosso mundo. Se e quando nos tivermos cristalizado inteiramente, teremos realizado esse mundo, teremos esgotado as suas virtualidades, e isto será o "fim do mundo". Parará o tempo (a cristalização) e reinará a Eternidade. Teremos sido salvos.

A revelação primordial e mítica do cubo é um acontecimento festivo. Nela o Ser resplandece festivamente. A nossa existência como sal, isto é, a nossa cristalização, é uma repetição dessa festa primordial que é o mito. Mas, à medida que cristalizamos, à medida que traduzimos o mito em realidade, profanamos o seu "tonus" sacral e festivo. A nossa cristalização definitiva, que será o reino da Eternidade e a nossa salvação, será também a profanação total do mito do cubo.

Nisso reside a profunda problemática existencial nossa como sal de cozinha. Se decaímos em pó, somos inautênticos, um mero "a gente", perdão, "grão salino". Mas se nos cristalizamos em cubo, profanamos o mito que é o nosso projeto.

A nossa salvação é sinônimo da nossa dessacralização; somos, como seres salinos, seres absurdos. Em outras palavras: fomos projetados para cá como cubos e estamos aqui para o cubo. A absurdidade da nossa existência está contida em germe no projeto que nos estabeleceu. 

Esta a tragédia da existência salina. E são justamente os melhores entre nós, os mais perfeitamente cristalizados, que se chocam contra essa absurdidade, para serem triturados em pó e servirem de condimentos numa sopa qualquer que será servida em uma refeição que ultrapassa a nossa imaginação salina.

A descrição da existência salina e do mito do cubo é uma caricatura brutal da nossa existência como seres humanos e dos nossos mitos. É ainda uma caricatura, tanto da nossa existência como ocidentais quanto dos mitos do cristianismo. 

Peço que o leitor considere o que fiz ao esboçar essa caricatura. Abandonei, nas asas da imaginação, o projeto da existência humana e procurei existir de acordo com outro projeto, mais "simples". Mas devo confessar que essa minha tentativa fracassou redondamente. 

A imaginação, embora capaz de estabelecer mundos além da "realidade", transfere, para esses novos mundos, a estrutura do projeto dentro do qual nasceu. Essas são as paredes da imaginação das quais falei no primeiro parágrafo deste artigo. 

Com efeito, o mundo que estabeleci é, longe de ser salino, humano. E as coisas desse mundo, longe de serem halomórficas, são antropomórficas. Digo mais: o mundo que estabeleci é o mundo da civilização ocidental, e as suas coisas são instrumentos no sentido ocidental deste termo. A imaginação não pode escapar ao projeto que a formou e que é a civilização, da qual ela é uma das articulações criadoras. 

E o mito do cubo, do qual falei em termos tão exaltados, esse mito não é outra coisa a não ser uma caricatura de Deus (se me for permitida a formulação dessa frase aparentemente blasfêmica, mas, assim mesmo, carregada de espanto).

Disse que este artigo é uma caricatura. É próprio da caricatura exagerar certos traços da "realidade" a ser retratada e suprimir outros. Essa simplificação tem por finalidade ressaltar aquilo que o caricaturista considera mais característico, e servir, neste sentido restrito, de "explicação" da realidade. Essa "explicação" é válida na medida em que é como tal reconhecida pelos espectadores. Dispenso portanto comentários explicativos, já que seriam explicações secundárias, e, neste sentido, improdutivas.

Mas devo acrescentar uma palavra quanto ao caráter irônico, para não dizer malévolo, da caricatura. Se descrevi a existência salina como descrevi, não era minha intenção ironizar a existência humana e o desespero que a acompanha, quando autenticamente sorvida. O que pretendi ironizar era uma certa mentalidade filosófica que pode ser caracterizada pelo termo "mitofilia”. 

A descoberta e o estudo de mitos é uma atividade enormemente importante e abre toda uma nova dimensão de conhecimentos. Essa descoberta e essa pesquisa (relativamente recentes) estão a ser  empreendidas em duas direções diferentes. Na direção externa estão a ser investigadas culturas primitivas e, de maneira menos rigorosa, civilizações evoluídas, para descobrir os mitos que as informam. Na direção interna está a ser  investigado o subconsciente, especialmente sonhos e desenhos de alienados, na tentativa de descobrir os mesmos mitos. 

Os resultados, embora ainda parcos, são incrivelmente fecundos. Não é exagero dizer que os mitos formam uma camada fundamental tanto no nível individual como coletivo do comportamento. Sem dúvida têm essas descobertas uma importância profunda para a nossa tentativa de cosmovisão, para a filosofia, portanto. Não será possível, doravante, explicar a "realidade" sem tomar em consideração essas descobertas. 

Mas a mentalidade de "mitofilia" à qual me referi está fascinada por este aspecto da realidade. Cai no mesmo fascínio do qual era vítima a filosofia mecanicista de tempos passados, já que simplesmente substitui a física pela mitologia. Isto é um perigo, como perigoso era o mecanismo. Acresce que a "mitofilia" pode facilmente conduzir a um anti-intelectualismo, embora não necessariamente. É essa a mentalidade que visava com a caricatura salina.

Dito tudo isto (como tinha que ser dito), resta o fato do mito da sua influência sobre o nosso pensamento, o nosso valorizar e o nosso comportamento.

A meu ver, descobrir e investigar o mito não significa render-se a ele, mas, muito pelo contrário, trazê-lo à tona do intelecto. Assim, intelectualizado, não será aniquilado o mito, e não será libertado o homem do seu peso, mas teremos aumentado o território do intelecto, e, com isto, o território da atividade mais característica, e, por que não dizê-lo, mais nobre do homem. 

A isto está dedicada a caricatura que ofereci aos leitores.