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PAIXÃO
Vilém Flusser

Folha de São Paulo, 29/02/1972

 

É curiosa a gama de significações que este termo sugere. Inclui por exemplo aquelas cenas sexuais prometidas pelos títulos de certos filmes, e também a morte de Cristo. 

A gama de significados se explica se considerarmos alguns parentes próximos do termo "paixão", como "paciência" e "passividade". "Paixão" é pois situação na qual sou tomado por forças que passam a reger meus movimentos. Submeto-me a tais forças ou porque são muito mais fortes que a minha vontade ou porque adiro a elas. 

"Paixão" será então perda - deliberada ou não - da minha liberdade. E já que liberdade tem a ver com razão, "paixão" é perda da razão - razão sacrificada ou perturbada. É bom que disto saibam os que dizem estar defendendo causas apaixonadamente. Ou será que já sabem?

O contrário de "paixão" é "ação" (ou pelo menos assim o ensinam as gramáticas: "voz passiva" e "voz ativa"). Embora saibamos que existe a ação passional e a paixão ativa. Será que as nossas línguas não têm "vozes" para gritarem este fato aos quatro ventos? Ou será que as gramáticas ginasiais e colegiais são tão pouco passionais e apaixonantes que fizeram calar tais "vozes"? Urge reformar o ensino.

As gramáticas ginasiais e colegiais são pálidos bisnetos da gramática latina, ensinada pelos monges medievais nas Universidades. A saber, uma das três vias da trivialidade; a aritmética e a retórica são as duas vias restantes. Mas é fácil torná-las menos triviais, basta recorrermos à língua latina na qual nasceram. 

Assim por exemplo: "história" em latim não tem nome, mas tem equivalente: "res gestae", o que significa "coisas feitas". História é, para o pensamento latino, relato de ações, de atividades, de atos. 

Paixões, paciências e passividades não fazem parte, para o pensamento latino, nem da história, e nem, portanto, daquilo que é memorável. Paixão é sofrimento. É melhor, portanto, que seja esquecido o mais depressa possível. Recalcado.

Sociedades históricas agem, e são responsáveis por seus atos. Sociedades não históricas são apaixonadas, e atribuem a responsabilidade dos seus sofrimentos a outros. Sociedades históricas falam pela voz passiva e são objetos das sentenças (fazem parte da história apenas enquanto objetos de outros). 

Mas é sabido que a gramática ensina como mudar a voz passiva em voz ativa. Assim, a sentença "pastores guiam ovelhas" é voz ativa, podendo ser mudada de duas maneiras: "ovelhas são guiadas por pastores" e "ovelhas guiam pastores". É a segunda mudança que conta. E esta nada tem a ver com a paixão e passividade. 

Gramática não é necessariamente trivial.