FLUSSERBRASIL



PARÁBOLAS, HIPÉRBOLES
E HIPERREALISMO
Vilém Flusser

Falar por parábolas é falar comparativamente. Falar por hipérboles é falar exageradamente. Quem fala por parábolas recorre ao comparativo; quem o faz por hipérboles, ao superlativo. Além disto, parábolas e hipérboles são curvas. Não é acaso fortuito que os mesmos termos designem formas em retórica e em geometria. Quem analisar as curvas, com o propósito de captar a estrutura das formas retóricas, será recompensado. 

Embora tal empreendimento seja curioso: uso parabólico da parábola, uso retórico da geometria. Como a cabeça ameaça girar em tais parábolas e hipérboles do pensamento, como o pensamento ameaça se perder no vazio (não nos esqueçamos de que os pesos mais pesados giram parabolicamente no vazio), não será esta a órbita do presente ensaio.

O propósito do falar parabólico e hiperbólico é o mesmo: ilustrar a realidade. Se a parábola diz "maior" e a hipérbole "máximo", ambas pretendem "grande". O significado de "pior" na parábola e de "péssimo" na hipérbole é "ruim" em ambos os casos. Quem não se der conta de tal significado pretendido lerá de maneira errada. 

Parábolas e hipérboles querem ser decifradas. São enigmas, jogos de palavras. O deciframento não é tão fácil como o sugerem os dois exemplos acima propostos. Isto porque o jogo não se limita a brincar com adjetivos, como nos exemplos. O jogo brinca também com o discurso todo. Para decifrar parábolas e hipérboles é preciso que se conheçam as regras do jogo. Tais regras podem cair no esquecimento. 

Por exemplo, nas parábolas rabínicas (inclusive nas empregadas por Jesus) "vinha" significa Israel e "dono da vinha" significa Deus. Isto são as regras do jogo conhecidas de todos os jogadores. O prazer do jogo parabólico consiste, precisamente, na manipulação sutil de tais regras, tanto por quem diz a parábola, quanto por quem a ouve. 

Para quem desconhece a regra e decifra parábolas segundo critérios extra-parabólicos, o jogo é outro. É como se alguém encontrasse uma partida de xadrez abandonada no meio e continuasse a jogar segundo as regras do jogo de damas. Creio que nisto se resume grande parte da exegese do Novo Testamento.

Se insistirmos um instante no uso e abuso que é feito das parábolas rabínicas, e mais especificamente no das jesuínas, constatamos o seguinte: parábolas e hipérboles podem ser lidas de duas maneiras – enquanto histórias que se sustentam por si só ou enquanto jogos de palavras. Crianças leem as parábolas jesuínas da primeira forma, teólogos da segunda. 

A segunda forma de leitura pode, por sua vez, ser subdividida: posso brincar com parábolas e hipérboles segundo regras nelas subentendidas, ou posso recorrer a outras regras e continuar brincando. Mas a distinção desses três tipos de leitura não é tão fácil como parece.

Tomemos como exemplo os contos de fadas. O Chapeuzinho Vermelho. O conto se sustenta por si só como "horror story" de brutalidade inigualada. Como tal, ele é um sucesso de bilheteria, diante do qual filmes como "Jaws" empalidecem. Mas isso não basta para explicar a perenidade de Chapeuzinho Vermelho. 

É que o caráter hiperbólico transparece no conto. Embora crianças sejam feras sanguinárias, elas não suportariam o conto sem a consciência surda de sua hiperbolicidade. O conto evidentemente exagera algo. O que é este algo exagerado pelo conto? 

Os pais decifram a hipérbole afirmando ser ela exagero das consequências da desobediência e imprudência dos filhos: se você não tomar cuidado, será comido pelo lobo como chapeuzinho vermelho o foi. Os etnólogos decifram a hipérbole como transfiguração de um mito fundante: o cristianismo obrigou os mitos a se mascararem em contos de fadas. Os psicólogos decifram a hipérbole como transfiguração de um conteúdo psíquico reprimido: a cultura obrigou tais conteúdos a se articularem em forma de conto de fadas. 

Qual o deciframento "correto"? Quais eram as regras que informaram os jogos dos contos de fada na sua origem? Não seria o caso de todas as leituras serem igualmente corretas e/ou falsas, já que todas parecem co-implicar-se?

Os dois exemplos da retórica parabólica e hiperbólica não parecem ser comparáveis. Parece que Jesus é o autor das suas parábolas e que o "Chapeuzinho Vermelho" não tem autoria, de modo que a pergunta "quais são as regras subentendidas?" se justifica no caso de Jesus, mas não no de "Chapeuzinho Vermelho". 

Desconfiemos, no entanto, tanto da autoria quanto do anonimato. Por certo, Jesus é autor, mas colheu seu material de um substrato anônimo do pensamento parabólico judeu, cuja origem se perde no fundo dos tempos. Por certo, "Chapeuzinho Vermelho" é um conto que nos vem do fundo da tradição oral, mas foram os Irmãos Grimm que o formularam para o nosso uso – de modo que a pergunta pelas regras do jogo se justifica em ambos os casos, embora com sabor ligeiramente diferente. Tanto "qual o significado pretendido por 'vinha' nas parábolas jesuínas?" quanto "qual o significado pretendido de 'lobo' em Chapeuzinho Vermelho?" são perguntas legítimas, mas difíceis.

A dificuldade é esta: o exemplo da parábola jesuína mostra que o significado "correto" de 'vinha' é Israel, mas que outros significados podem funcionar na continuação do jogo. O exemplo da hipérbole de Chapeuzinho mostra que o significado de 'lobo' varia segundo o deciframento, mas que os valores burgueses de obediência e prudência certamente não correspondem à intenção original do conto. 

Isto sugere que o significado pretendido pela parábola e pela hipérbole não é seu único significado. Quem conta determinada parábola e hipérbole visa determinada realidade, e quem decifra tal intenção capta a intenção do contista. Mas a parábola e a hipérbole podem, igualmente, ser manipuladas para visarem realidade diferente da pretendida. Quem as manipula assim terá traído a intenção do contista, mas, não obstante, fará uso legítimo do caráter parabólico e hiperbólico do conto. 

Finalmente, a parábola e a hipérbole podem perfeitamente ser despidas desse seu caráter e funcionarão, então, como contos relatando uma realidade. Em tais casos, quando o conto passa a significar-se a si próprio (“vinha” significa vinha e “lobo” significa lobo), o leitor trai tanto a intenção do contista quanto o caráter do conto, mas mostra-se fiel ao próprio texto.

Resumirei a análise esboçada: parábolas e hipérboles são lances de determinado jogo de palavras. As palavras que ocorrem em tais lances têm significado diferente do corriqueiro e tal significado é determinado pelas regras do jogo. Às vezes tais regras são enunciadas explicitamente, por exemplo, como quando Jesus diz: Deus é como o dono da vinha. Às vezes são subentendidas, como no caso do Chapeuzinho Vermelho. 

Mas parábolas e hipérboles podem ser transferidas do jogo de palavras do qual são lances para outro jogo de palavras. Em tais transferências elas podem continuar a funcionar enquanto lances, mas suas palavras terão significados diferentes. Finalmente, parábolas e hipérboles podem se despir de seu caráter lúdico, retórico, e passam então a funcionar como discursos corriqueiros.

Por que insistir tanto nas dificuldades e ambiguidades do deciframento de parábolas e hipérboles, já que ao final todo leitor tem consciência delas? 

Todo leitor sabe espontaneamente que as parábolas jesuínas podem ser lidas como histórias ou como significando um ensinamento, seja ele judeu, cristão ou simplesmente "moral", e que tal significado varia segundo a intenção do deciframento. Todo leitor sabe espontaneamente que contos de fadas podem ser lidos como histórias ou como significando um ensinamento, uma “moral" qualquer, e que tal significado varia segundo a interpretação do interessado. A coisa parece ser tão evidente que análises como a da nossa proposta não passam de academismo precioso.

Pois quem argumenta assim está enganado. Analisar as dificuldades e ambiguidades inerentes a parábolas e hipérboles não lhes visa facilitar a leitura: visa captar o funcionamento dos jogos de palavras e, por extensão, dos jogos de símbolos em geral, já que palavras não são senão um tipo de símbolo.

A palavra “vinha” é símbolo daquele fenômeno concreto que encontramos no nosso caminho ao passearmos pela Palestina, símbolo da “mesma” concreticidade e de determinada fotografia. Na parábola, a “mesma” palavra “vinha” passa a significar, além desse fenômeno concreto, outro fenômeno igualmente mais ou menos concreto. A fotografia, ela também, pode ser utilizada parabolicamente. 

A palavra “lobo” é símbolo daquele mamífero canino que encontramos atualmente em jardins zoológicos, mas que outrora era encontradiço em florestas européias. Símbolo do “mesmo” animal e determinado desenho em livro de zoologia. No Chapeuzinho Vermelho a “mesma” palavra “lobo” passa a significar, além do animal, outro fenômeno, igualmente mais ou menos concreto. 

O desenho ele também pode ser usado hiperbolicamente: como caricatura. E o que vale para palavras, fotografias e desenhos, vale para todo tipo de símbolo, seja ele fórmula matemática, proposição lógica ou simplesmente gesto. 

As dificuldades e ambiguidades acima enumeradas caracterizam todos os jogos simbólicos, desde os mais “primitivos” – expressões corporais – até os mais refinados – cálculos proposicionais – porque tais jogos obedecem, fundamentalmente, à mesma estrutura.

Substituamos, nesta altura do argumento, os termos “parábola” e “hipérbole” pelo termo “modelo”.

Digamos que “parábola” se quer modelo de determinada realidade, ao copiar tal realidade em outra realidade. Por exemplo, modelo-miniatura. Em modelo arquitetônico, o que mede 1 metro na realidade da casa mede, na realidade do modelo, 1 centímetro. As parábolas jesuínas são modelos-miniatura. O que é Deus na realidade modelada é o dono da vinha na realidade do modelo. Em outros termos, o significado pretendido de “cm” no modelo da casa e “m” na realidade do modelo é o significado pretendido de “dono da vinha” e Deus.

E digamos que “hipérbole” se quer modelo de determinada realidade, ao lhe exagerar certos traços. Por exemplo, caricatura. Na caricatura de um político, o nariz é acentuado enquanto os demais traços do rosto são desacentuados. Chapeuzinho Vermelho é modelo-caricatura. O que as forças da natureza são na realidade, o lobo o é na realidade do conto. 

Em ambos os casos, o propósito do modelo é o mesmo: construir armadilha para nela captar um fenômeno qualquer (casa, Deus, político, forças da natureza). As dificuldades e ambiguidades acima enumeradas são características de armadilhas.