FLUSSERBRASIL



POESIA E VERSO
Vilém Flusser

Poeta (do grego: poietés) significa produtor. Este significado é obscurecido pelo uso atual da palavra "poesia". De acordo com esse uso o poeta é produtor de versos. 

O propósito deste trabalho é fazer relembrar o significado original e tentar defender a tese que afirma a identidade fundamental entre poesia e produção. Para tanto é necessário localizar a poesia dentro do seu contexto, a saber, dentro da atividade linguística, e é necessário compreender a poesia a partir desse contexto.

Visualizemos a humanidade como vasta rede de conversação a cobrir o globo. Nessa imagem são os intelectos em conversação (isto é, os indivíduos) os nós da rede, e os fios que os unem são os temas conversados. O intelecto acolhe ("apreende") o tema, converte ("compreende") o tema e reverte ("articula") o tema na direção da conversação geral. 

Nisto se resume toda a atividade intelectual. O intelecto se realiza acolhendo, convertendo e revertendo temas, em uma palavra: conversando. A conversação é a realização dos intelectos. A conversação é, portanto, um projeto autêntico, no sentido que os pensadores existenciais dão a esta palavra. Um intelecto que não acolhe, converte e reverte temas, um intelecto que não conversa autenticamente, decai na conversa fiada, nada apreende, nada compreende, nada articula, não se realiza.

A história do pensamento, a história das realizações intelectuais é, portanto, idêntica à história da conversação. Aquilo que chamamos "civilização" é o conjunto dos temas já conversados, portanto acolhidos, convertidos e revertidos. A civilização é o conjunto daquilo que já tem sido apreendido, compreendido e articulado. A civilização é o conjunto dos detritos da conversação, é o rastro que a conversação deixa para trás como testemunho de sua passagem. 

A conversação, em seu avanço, devora temas, os digere e os expele em forma de civilização. Isto não impede que a própria civilização sirva como tema da conversação, que seja ela própria conversada. A conversação, tal qual a revolução, devora seus próprios filhotes. Ela avança em todas as direções, inclusive para trás.

O problema é o seguinte: como avança a conversação, como escolhe a direção do seu avanço, como escolhe os seus temas?

A resposta é: pelos poetas.

A rede de conversação se expande, qual nébula espiral, para dentro do caos do inarticulado. Os intelectos que se encontram nas regiões fronteiriças da conversação, naquelas regiões limítrofes aonde a conversação demanda temas, são os poetas. Eles se encontram nessa situação-limite (Grenzsituation) e enfrentam o inarticulado. 

Se definimos, como temos definido, o intelecto autêntico como aquele que está inteiramente empenhado (engagé) na conversação, devemos admitir que a própria situação do poeta à beira da conversação põe em perigo constante a sua autenticidade. Embora esse perigo seja comum para todos os intelectos, ameaçando todos com a queda para dentro da conversa fiada, o poeta vê-se, além disto, ameaçado pela queda para dentro do inarticulado. A ameaça é, para ele, a da ruptura dos fios que o unem à conversação geral, deixando-o à mercê do caos.

Em outras palavras: o poeta percebe-se constantemente ameaçado pela loucura. Esta situação poética é, aliás, bem conhecida e pode ser resumida na expressão “gênio e loucura”. Para evitar essa queda, num ato desesperado de auto-conservação, o intelecto situado à beira da conversação articula o inarticulado que o ameaça. O poeta verte versos. 

O avanço da conversação na direção do inarticulado se processa através de intelectos ameaçados pelo inarticulado. O avanço da conversação é um ato de auto-preservação. A conversação devora o inarticulado para não ser devorada por ele. Os poetas são, portanto, as bocas pelas quais a conversação articula o inarticulado. São eles os orifícios pelos quais o inarticulado penetra a conversação. Invertendo a imagem, são eles, no dizer dos antigos, “as bocas dos deuses”. 

Num artigo recentemente publicado, Wilson Chagas aborda este aspecto da poesia, referindo-se, embora obliquamente, à expressão de Heidegger “Dichter in duerftiger Zeit”, que ele traduz por “tempo de penúria”. Entrando em “conversação” com o sr Chagas proponho a tradução “tempo necessitado porque passível de realização”, o que dá uma vaga idéia do significado das palavras “duerfen” e “duerftig”.

Acrescento eu que todo tempo é “duerftig”, porque a conversação está sempre ameaçada e, em consequência, sempre se expande. Sempre há poetas. São eles aqueles intrépidos postos avançados no exército da conversação que aumentam o território conquistado ao caos, muitas vezes perecendo neste empenho, porque caem na loucura. 

São eles os nossos heróis no sentido clássico desta palavra, porque enfrentam a ira dos deuses. Eles são impelidos pela hybris, pelo orgulho, porque pretendem arrancar o fogo dos deuses e trazê-lo aos mortais. Eles arranham versos ao inarticulado e os vertem por sobre a conversação. Eles produzem os temas da conversação.

A poesia assim concebida é a fímbria orgulhosa da conversação. Representa, portanto, do ponto de vista cristão, um pecado mortal. Os muito grandes e muito lúcidos entre os poetas (por exemplo, Hoelderlin e Verlaine) sabiam disto e sofreram por causa disto. Aceitaram, entretanto, a sua missão prometeica. Porque, entre todos os pecados, o orgulho é o mais nobre e mais belo. Prometeu é uma figura banhada em beleza. Por ser heroica e orgulhosa, é a poesia bela.

O poeta, enfrentando o inarticulado resolutamente, isto é, articulando-o, transforma vivência bruta (aistheton) em verso e assim cria beleza. Ele projeta conversação para dentro do caos e recolhe verso e beleza. Ele tira verso do abismo do inarticulado e assim produz (de producere = tirar para a superfície). 

Entretanto, ele sabe que atrás do verso se esconde toda a imensidade do inarticulado e nunca inteiramente articulável. Assim deve ser interpretado (“conversado”) o verso de Rilke: “Denn das Sehoene ist nur des Schrecklichen Anfang” (porque o belo não é senão o começo do terrível).

Poeta em alemão é “Dichter”. “Dichten” significa “tomar denso, impermeabilizar”. Este significado condensa poeticamente o método da produção poética que tento tornar explícito pela conversação seguinte: o poeta é o intelecto ameaçado pelo inarticulado que recolhe em seu redor a conversação para se proteger nessa conversação recolhida. Ele torna densa a conversação em torno de si, e a conversação recolhida pelo poeta encolhe. 

Em seguida, o poeta lança a rede da conversação, assim recolhida e encolhida, ao encontro do inarticulado, e qual pescador lança sua rede dento do oceano. Recolhe novamente a rede e, se a pesca for bem sucedida, terá recolhido um verso. O poeta verte esse verso na direção da conversação geral para que seja conversado, isto é, convertido e revertido. 

Assim o poeta produz um tema para a conversação. A conversação geral acolhe o novo tema, e, convertendo-o e revertendo-o, o torna apreensível e compreensível. O verso, denso e impermeável, torna-se frouxo e analisável. O verso intenso, quando conversado, torna-se extenso, plano, torna-se prosa (de “prorsus” = plano). O verso implícito torna-se explícito. A conversação é a explicação da poesia. A conversação é a análise crítica da poesia.

Recorrerei a um exemplo para ilustrar este processo produtivo da poesia conforme o esbocei.

Num artigo recentemente publicado no “Suplemento” do Estadão, discuti o verso de Nietzsche “Alles ist Wille zur Macht” que traduzi por “tudo pode ser querendo”. Nietzsche era, como sabemos, um daqueles poetas que não conseguiram evitar o mergulho para dentro do inarticulado, a queda para dentro da loucura. O verso em questão representa uma tentativa de evitar essa queda. 

Como chegou Nietzsche a verter esse verso na direção da nossa conversação, e como a nossa conversação converteu esse verso? Nietzsche se viu frente ao inarticulado, o qual ele chamava de “pensamento mais pesado e difícil” (den schwersten Gedanken).

Para poder suportar o peso desse pensamento, por ora inarticulado, para poder, portanto, suportar o peso dessa sombra de pensamento, recolheu sobre si a conversação filosófica ocidental desde as suas origens gregas até Schopenhauer. A conversação recolhida por Nietzsche como que se encolheu, dentro de seu intelecto, em duas palavras: “Wille” e “Macht” (“vontade” e “poder”). 

Aquilo que Nietzsche chamava de “niilismo platônico” representava, dentro dessa conversação encolhida, o polo do poder, e aquilo que Nietzsche chamava de “revalorização dos valores” ou de “super-homem” representava o polo da vontade. A conversação filosófica ocidental, assim recolhida e encolhida pelo intelecto poético de Nietzsche, oscilava entre estes dois polos. Munido dela, armado e protegido por ela, Nietzsche se lançou contra o inarticulado que o ameaçava. Voltou dessa investida com o verso “alles ist Wille zur Macht” e verteu esse verso na direção da conversação geral num livro que tem por subtítulo “Um livro para todo mundo e ninguém”.

O verso, em sua densidade e intensidade poética, abrange toda a conversação filosófica conforme foi recolhida e encolhida por Nietzsche, e a supera. Contém, implícito, um significado novo e nunca dantes articulado. Cancela, com efeito, essa conversação e cria um novo tema. Submete uma nova região do inarticulado à conversação. 

Entretanto, em sua intensidade, em sua densidade, em seu heroísmo e beleza, o verso não é imediatamente apreensível e compreensível. Tal qual foi vertido por Nietzsche, o verso é impermeável. Ele é “hermeticamente fechado”, como diriam talvez os mistagogos órficos, os adeptos de Hermes.

A conversação geral, acolhendo o verso, se encarrega da extensão, da prosaição, da análise crítica do verso. A qualidade poética do verso se perde progressivamente no curso dessa conversação, mas o tema se torna progressivamente apreensível e compreensível em muitas camadas. O tema adquire significado nas camadas da sociologia, da biologia, da psicologia, da física, da epistemologia, da ontologia. 

“Vontade” é apreendida e compreendida como luta de classe ou de raça, como força vital, como libido, como energia nuclear, como processo de conhecimento, ou como fundamento do Ser. Algo do significado original denso e intenso se perde nessa conversação, mas algo se conserva.

Esta conversação ainda está em progresso. O verso nietzscheano ainda não foi digerido pela conversação, ainda não resultou em “civilização”. Se tivesse escolhido um verso mais antigo e mais conversado como exemplo, poderia ter demonstrado também a civilização oriunda da conversação subsequente. 

Por exemplo, o verso de Agostinho “Deum atque animam cognoscere cupisco. Nihilne plus? Nihil.” (Deus e a alma desejo conhecer. Nada mais? Nada). Da conversação que seguiu esse verso surgiu a civilização medieval. Entretanto, escolhi o exemplo nietzscheano, por ser mais próximo e mais comovente.

Retorno o fio do argumento: o que a poesia ganha em extensão e clareza no curso da conversação, ela perde em intensidade e multiplicidade de significados. O processo todo pode ser comparado à respiração: graças aos poetas a conversação inspira o inarticulado, para a seguir expirar essa inspiração lenta e progressivamente, revelando a civilização como subproduto da inspiração. A conversação expira, num converter e reverter constante, a inspiração poética, deixando a civilização como rastro e testemunho do processo. 

Trata-se, portanto, de um processo produtivo. O poeta é, dentro desse processo, produtivo “sensu stricto”, porque produz os temas da conversação, porque inspira a conversação, porque verte versos. Os demais intelectos em conversação são produtivos “sensu lato” porque produzem a civilização, porque estendem e clarificam a inspiração poética, porque convertem e revertem, porque conversam versos. 

A produtividade conversacional é secundária, trata-se de uma indústria de conversação. A produtividade poética é primária, trata-se de uma indústria de extração. O poeta é o produtor por excelência, ele produz “ex nihilo”, ele é o “poietés” – como queríamos demonstrar.

Entretanto, cabe mais uma observação para completar o argumento: o processo de expansão da conversação é um processo histórico. Com efeito, é ele a história do pensamento humano. É um processo irregular e conhece fases de inspiração poética profunda, e outras de expiração civilizatória extensa. Conhece “épocas” (de “époché” = pausa). Cada época inspiracional e cada época expiracional que lhe segue são marcadas por algo dificilmente analisável, mas facilmente constatável: todas são marcadas por um estilo. O estilo no qual os versos de uma dada época inspiracional são vertidos por sobre a conversação subsequente.

Por exemplo: o estilo romanesco e gótico da civilização medieval é consequência do estilo no qual se verteram os versos de Agostinho e dos poetas de sua época inspiracional por sobre a moribunda conversação clássica. Outro exemplo: o estilo embrionário da nossa própria civilização é consequência do estilo dos versos da época inspiracional da qual Nietzsche participava. Portanto o estilo tem uma importância primordial para a compreensão de uma dada época de expansão da conversação – uma importância ontológica, com efeito. 

O estilo atesta a região do inarticulado que se encontra submetida à conversação numa dada época. Por exemplo: o estilo romanesco e gótico atesta que a região do inarticulado então em vias de articulação era aquela vagamente delineada por “alma”. Outro exemplo: o estilo embrionário atual atesta que a região do inarticulado atualmente em vias de articulação é aquela vagamente delineada por “vontade”. É claro, entretanto, que podemos mais facilmente reconhecer um estilo ultrapassado de que um estilo nascente.

O que é importante para o argumento é a consideração de que o estilo caracteriza o poeta. Ele é a sua marca de autenticidade. Num artigo publicado neste “Suplemento,” Anatol Rosenfeld investigou o fenômeno do “Kitsch”, da pseudo-arte. O que Rosenfeld demonstrou de maneira cabal é o fato de o “Kitsch” se revestir de um estilo ultrapassado. 

Um intelecto que escreve atualmente versos no estilo romântico, por exemplo, não é um poeta autêntico, não verte autenticamente versos, porque não enfrenta o inarticulado, mas simplesmente conversa o já conversado e digerido pela conversação. Com efeito, um intelecto assim decaiu na conversa fiada, faz de conta que conversa.

Os poetas autênticos avançam, é verdade, cada um por si para dentro do inarticulado e suportam, cada um por si, o peso do pensamento “mais difícil”, mas avançam todos na mesma direção geral, representam todos a ponta da conversação geral em seu processo expansivo. São, portanto, todos marcados pelo mesmo estilo, consequência da região do inarticulado que todos eles atacam. 

O poeta não pode autenticamente escolher a direção do seu avanço, produto que é da conversação geral que o impele. Não pode, portanto, o poeta escolher o seu estilo. O estilo é a estampa do inarticulado sobre o intelecto, faz parte de sua inspiração. O estilo é a síntese da ação da conversação e da reação do inarticulado numa dada época da expansão da conversação. Tentativas frustradas de escolher o seu “próprio estilo”, empreendidas por poetas autênticos, o provam. A sinfonia clássica de Prokofieff e as Bachianas de Villa-Lobos não são nem clássicas nem bachianas, mas modernas, o que prova a sua inspiração autêntica.

Terá verificado o leitor que o conceito “poeta” foi utilizado neste argumento num sentido um tanto amplo. Incluí nele filósofos e compositores, e estarei propenso a incluir, ainda sob reserva, também outros artistas e pesquisadores científicos. O critério é, assim o espero, evidente: poeta é todo aquele que enfrenta o inarticulado com o intuito de articulá-lo. O poeta é o “inspirado” que produz versos para vertê-los na direção da conversação. A inspiração de Einstein é poética e a sua equação é um verso, pela definição deste argumento. Ficam excluídos, entretanto, os assim chamados “poetas da vida”, justamente porque não articulam.

Se aceita esta definição da poesia, devemos concluir que a inspiração poética nunca cessou no curso da conversação que é a história da humanidade. Com efeito, se tivesse cessado, a conversação teria morrido de asfixia. 

Há épocas de inspiração profunda e outras de inspiração superficial, como há poetas que avançam profundamente para dentro das regiões do inarticulado e outros que apenas agem como patrulhas de reconhecimento. Debalde tentam as diferentes hipóteses históricas explicar este ritmo irregular da história. Enquanto a inspiração poética viva, enquanto esta corda umbilical que é a poesia ligue a conversação com o inarticulado, a conversação prosseguirá em seu avanço.

O grande poeta tcheco Hàlek diz: “Aquela nação ainda não morreu enquanto o poeta a cante. Nasceu a canção nos céus e verte vida para dentro da morte.”

Os versos novos da poesia são a chuva vivificante na planície prosaica da conversação. O maior feito produtivo do qual é capaz o intelecto condensa-se poeticamente no verso do salmista: “Cantarei um novo verso ao Senhor.”