FLUSSERBRASIL


POR QUE AS MÁQUINAS DE ESCREVER ESTALAM?
Vilém Flusser

Tradução de Raquel Abi-Sâmara

 

A explicação é simples: o estalar condiz mais com a mecanização do que o deslizar. As máquinas são gagas, mesmo quando parecem estar deslizando. É o que se percebe por exemplo nos carros ou nos projetores de filme quando estão funcionando mal. 

Mas a explicação não é suficiente. Pois o que está por trás da pergunta é o seguinte: por que as máquinas gaguejam? E a resposta é: porque tudo no mundo (e o mundo como um todo) gagueja. Mas isso só se percebe quando se observa bem de perto. É bem verdade que Demócrito já o suspeitara, no entanto somente Planck pôde prová-lo: tudo é quantizável. Eis por que os números convêm ao mundo, mas as letras não. O mundo é calculável, mas indescritível. Por isso os números deveriam livrar-se do código alfanumérico e tornar-se independentes. As letras induzem meras conversas vazias sobre o mundo, e deveriam ser deixadas de lado como algo inadequado a ele. 

E é isso, de fato, que vem ocorrendo. Os números migram do sistema alfanumérico para novos sistemas (como por exemplo os digitais) e alimentam os computadores. As letras, por sua vez (se quiserem sobreviver), devem simular os números. Por isso estalam as máquinas de escrever.

Mas ainda há o que dizer sobre o tema. Por exemplo: o fato de que tudo no mundo gagueja só ficou evidente quando se começaram a contar todas as coisas. Para contar, foi preciso fragmentar o todo em pedrinhas (calculi), e a cada uma dessas pedrinhas foi anexado um número. Será, portanto, que o fato de o mundo ser uma dispersão de partículas é consequência do nosso contar? Quer dizer então que não se trataria absolutamente de uma descoberta, mas sim de uma invenção? Por acaso não descobrimos no mundo aquilo que nós mesmos teríamos inserido nele? 

O mundo talvez seja calculável apenas porque nós o construímos para os nossos cálculos. Não são os números que são adequados ao mundo, mas o contrário: nós montamos o mundo de modo que se tornasse adequado ao nosso código numérico. Pensamentos como esses são inquietantes.

São inquietantes exatamente por levarem à seguinte conclusão: o mundo consiste atualmente numa dispersão de partículas porque nós o engendramos de modo a adaptá-lo aos nossos cálculos. Antes, porém (pelo menos desde os filósofos gregos), o mundo era descrito alfabeticamente. Portanto, ele tinha de se adaptar às regras do discurso disciplinado, às regras da lógica, e não às da matemática. 

De fato, Hegel ainda era da opinião, que hoje nos parece insensata, de que tudo no mundo seria lógico. Atualmente somos de opinião oposta: tudo no mundo é redutível a contingências absurdas, que podem ser perfeitamente avaliadas por meio do cálculo de probabilidades. Hegel pensava exatamente por palavras (em “discursos dialéticos”), enquanto nós pensamos calculando (processando dados pontuais).

A coisa se torna ainda mais inquietante se pensarmos que Russell e Whitehead, em seu Principia mathematica, demonstraram que as regras da lógica não seriam totalmente redutíveis àquelas da matemática. Os dois tentaram, como se sabe, manipular matematicamente o pensamento lógico (“função proposicional”), e depararam-se aí com essa irredutibilidade. 

Portanto, não é possível estabelecer uma ponte realmente adequada entre o mundo descrito (como o de Hegel) e o mundo calculado (a exemplo de Planck). Desde que aplicamos metodicamente o cálculo ao mundo (ou seja, pelo menos desde a geometria analítica de Descartes), a estrutura do mundo modificou-se a ponto de tornar-se irreconhecível. E isso foi sendo lentamente divulgado até se fazer sabido. Daí podemos nos ver impelidos a concluir que o modo como o mundo está estruturado depende de nós próprios. Se desejarmos descrevê-lo, então ele figurará como um discurso lógico, mas, se preferirmos calculá-lo, ele se assemelhará à dispersão de partículas. 

Seria uma conclusão precipitada. Somente quando começamos a calcular é que passamos a dispor de máquinas (como por exemplo as máquinas de escrever), e sem elas não podemos viver, mesmo se quiséssemos. Portanto, somos obrigados a calcular em vez de escrever, e se, apesar disso, quisermos escrever, teremos de fazer as máquinas estalarem. Fica parecendo o seguinte: que o mundo teria de ser construído de fato para o cálculo, mas que ele mesmo exigiria esse modo de construção.

Nesse ponto do quebra-cabeça é recomendável um pouco de prudência. Caso contrário, pode-se correr o risco de cair onde não há chão nem fundamento (no campo religioso). Para evitar semelhante queda na sacralização pitagórica dos números, deve-se examinar o gesto envolvido no ato de fazer contas, que é oposto ao gesto de escrever. 

Quando a escrita ainda era manual, o que se fazia era traçar, da esquerda para a direita (no que diz respeito aos povos ocidentais) uma linha toda torcida com interrupções em certos lugares. Consistia num gesto linear. Para calcular, é preciso escolher pedrinhas num monte de pedras e acumulá-las em pequenos montículos. Trata-se de um gesto pontual. Em primeiro lugar, calcula-se (ao escolher), e depois computa-se (ao acumular). Analisa-se primeiro para depois sintetizar. Eis a radical diferença entre escrever e contar: o contar procura alcançar sínteses, mas o escrever, não. 

Aqueles que se dedicam a escrever tentam negar isto. No ato de contar, veem apenas o cálculo, que acreditam ser frio e carente de sentimentos. Esse é um mal-entendido quase malévolo. Quando se faz contas, trata-se de, pelo ato de computar, transformar aquilo que é friamente calculado em algo novo, algo que nunca existira antes. Esse ímpeto criativo é vedado àqueles que não se dão bem com as contas, por verem nelas apenas números. Essas pessoas não estão aptas a experimentar a beleza e a profundidade filosófica de certas equações extraordinárias (como por exemplo as de Einstein). 

Mas, desde que os números foram transcodificados em cores, formas e tons, graças aos computadores, a beleza e a profundidade do cálculo tornaram-se perceptíveis aos sentidos. Pode-se ver nas telas dos computadores sua potência criativa, pode-se ouvi-la em forma de música sintetizada e, futuramente, talvez se possa, nos hologramas, tocá-la com as mãos. O que é fascinante no cálculo não é o fato de que ele constrói o mundo (o que a escrita também pode fazer), mas a sua capacidade de projetar mundos perceptíveis aos sentidos a partir de si mesmo. 

Seria pouco proveitoso desprezar esses mundos projetados sinteticamente como ficções ou simulações do mundo efetivo [eigentlichen]. Esses mundos são acumulações de pontos, computações de cálculos. Perceba-se que isso vale também para o mundo “efetivo” em que fomos jogados. Também ele é computado mediante cálculos por nosso sistema nervoso a partir de estímulos pontuais. Portanto, ou os mundos projetados são tão reais [wirklich] quanto  o “efetivo” (caso possam reunir os pontos com a mesma densidade com que o faz este último), ou o mundo percebido como “efetivo” é tão fictício quanto os mundos projetados. 

A revolução cultural hoje consiste no fato de que nos tornamos aptos a construir mundos alternativos e paralelos a este que nos foi supostamente dado; de que, de sujeitos de um único mundo, estamos nos convertendo em projetos de vários mundos; e de que começamos a aprender a calcular.

Diz Omar Khayyam: “Ah love, could you and I with fate conspire to grasp this sorry scheme of things entire. Would we not shatter it to bits and then remould it nearer to the heart’s desire?(Oh, amor, se pudéssemos conspirar com o destino, de modo a compreender essa melancólica e íntegra estrutura das coisas! Acaso não a desintegraríamos em pedaços para computá-la conforme o desejo do coração?). 

Todos percebem que estamos desintegrando em pedaços [Bits] a desprezível estrutura íntegra das coisas. Mas não veem que podemos transcodificá-la de acordo com a vontade do coração. As pessoas deveriam de uma vez por todas aprender a contar.