FLUSSERBRASIL



DEPOIS DA ESCRITA
Vilém Flusser

No Seminário sobre A escrita;
Hessen, Falkanstein, 20-21/11/1987

 

Nos dois livros, “Adentrando o universo das imagens técnicas” e “A escrita”, tentei projetar uma única tendência atual rumo a um futuro previsível. No primeiro livro a tendência das imagens de se tornarem portadores preferenciais das informações culturais, no segundo livro a tendência da escrita linear para ser transcodificada digitalmente.

Por certo: se uma única tendência é destarte arrancada do seu contexto e projetada, todo um feixe de tendências colaterais é igualmente arrancado. Ora: se for verdade que cenário projetado é tanto mais provável quanto mais parâmetros (tendências) englobar, os seminários propostos nos dois livros não são extraordinariamente improváveis.

Não obstante, trata-se, nos dois livros, de caricaturas. Um único traço é exagerado e os outros são desprezados. Isto não é necessariamente desvantagem: caricaturas permitem ver o que caracteriza a cena visualizada.

Se de fato a escrita linear for “superada” por código digital, e se de fato tal código for projetado em forma de imagens em tela, devemos esperar por mutação da nossa maneira de percebermos, vivenciarmos, compreendermos e avaliarmos o mundo. Meu livro parte da primissa de que gestos exprimem determinada interioridade, e de que rebatem sobre tal interioridade.

O gesto de escrever linearmente (e de alinhar signos do tipo letras e cifras) exprime vivência linear do mundo interno e externo (a realidade é vivenciada como seqüência de eventos, como “história”, como processo), e quanto mais se escreve tanto mais tal vivência vai sendo reforçada. Tal premissa implica que a estrutura da mensagem (no caso: a linha) é mais decisiva para a vivência do que o conteúdo da mensagem, ou seja, é a estrutura da escrita que articula e reforça a consciência histórica: a consciência de estarmos mergulhados em corrente de eventos irrevogáveis e irrepetíveis que busca o futuro provindo do passado, e que percorre o presente sem se demorar nele.

Por isto sugiro no livro mencionado que foi a invenção da escrita linear (e mais especificamente do alfabeto) que provocou a consciência histórica no segundo milênio a.C., e que, abandonado o alfabeto, a época histórica seria seguida por outra.

Tal sugestão exige ser examinada de vários ângulos para ser comprovada ou refutada. Por exemplo: a neurofisiologia deveria ser examinada se de fato o gesto de escrever linearmente (e de seguir a linha escrita com os olhos) tem por efeito processos cerebrais do tipo “pensamento lógico”, “explicação linearmente causal” ou “decisão linearmente tomada”. Tais disciplinas deveriam poder examinar se de fato o pensamento científico, técnico e político, tais como evoluíram, devem ser considerados consequências da escrita linear e se de fato tais consciências não poderiam ter evoluído sem a escrita. Deveriam também examinar se de fato o gesto de escrever incentiva tais consciências e se tais consciências, por sua vez, provocam sempre novos textos.

Ora: tais pesquisas estão atualmente em curso, e não são ainda concludentes. No entanto, creio que podemos, desde já, assumir como hipótese operativa que a escrita linear articula e reforça a consciência histórica da nossa cultura.

No meu livro assumo exame diferente: procuro olhar a época histórica (grosso modo: de 1500 a.C. até hoje) do ponto de vista da dinâmica da escrita. Isto resultou em aproximadamente o seguinte modelo: a história se inicia com a invenção do alfabeto. Tal invenção é devida ao desejo inconoclástico de libertar a consciência da tirania exercida sobre ela pelas imagens, da “idolatria”.

A maior parte da história seria, segundo este modelo, marcada pela luta dos textos contra as imagens, as quais, por sua vez, se infiltram nos textos para ilustrá-los. Graças a tal dialética entre texto e imagem (entre consciência histórica e mágica, entre “judeo-cristianismo” e “paganismo”), ambos se reforçam mutuamente, e tal processo seria a verdadeira dinâmica da história do Ocidente.

Com a invenção da imprensa (com o barateamento e a difusão dos textos), a consciência histórica se torna dominante, as imagens vão sendo repelidas do centro da cena cultural, e desta forma a escrita pode avançar segundo sua linha sem impedimentos: o caminho da ciência e da técnica está aberto. Tal processo de progressiva eliminação das imagens (seu encerramento em cantos chamados “arte”) e de progressiva evolução dos textos seria, segundo este modelo, a verdadeira dinâmica da idade moderna.

Com a invenção da fotografia (e das demais imagens técnicas), a consciência mágica começa a reimergir dos seus cantos e a contestar o domínio da consciência histórica, e isto seria, segundo este modelo, a dinâmica da atualidade.

O modelo proposto que interpreta a história como função da escrita deveria ser examinado em seus vários detalhes, para se verificar até que ponto resiste. No entanto, sugiro que se trata de modelo frutífero, sobretudo nos pontos nos quais as objeções mais percucientes podem ser levantadas, a saber, no ponto no qual o modelo procura explicar a atual contra-revolução das imagens. O modelo parece sugerir que estaríamos recaindo da consciência histórica para a consciência pré-histórica, da época histórica para a época da magia.

No entanto, ao examinarmos as imagens atualmente emergentes, constatamos que sua estrutura é inteiramente diferente da das imagens procedentes. As novas imagens são granulares: não são superfícies, mas mosaicos que integram (computam) pontos por cima de intervalos. Ora, se aceitarmos que a estrutura da mensagem modela a consciência mais do que o conteúdo da mensagem, devemos concluir que as novas imagens emergentes articulam consciência outra que a articulada pelas imagens precedentes.

Não se trata, na atual emergência de imagens, de recaída para magia pré-histórica, mas de emergência de consciência nova. Isto me parece evidenciar a fertilidade do modelo proposto.

A “granularidade” das novas imagens (o fato de serem elas “calculadas” e “computadas”) exige que sejam analisadas criticamente com critérios novos. Dois fatos são importantes: tais imagens não podem ser feitas manualmente e tais imagens não podem ter o mesmo significado das imagens precedentes. Para que tais imagens sejam produzidas precisa-se de instrumentos adequados para calcular fenômenos em pontos e para computar tais pontos.

Tais instrumentos são aparelhos, e estes funcionam segundo programa determinado (exemplo: aparelho fotográfico programado para calcular e computar moléculas de sais e prata). Ora, se tais aparelhos executam “programas” (“pré-inscrições”), as imagens que produzem são conseqüência de uma forma de escrita, emergem da escrita, e não recaem para trás da escrita. Com efeito: mas imagens mais evoluídas (nas feitas por computador), a escrita da qual emergem é digitalmente codificada. As novas imagens devem pois ser consideradas evolução da escrita.

As imagens precedentes eram, na grande maioria dos casos, representações de cenas percebidas (abstrações das cenas sobre planos). Nas outras imagens isto não é mais o caso. A dificuldade aqui está no fato de as primeiras imagens técnicas (fotos, filmes, vídeos) parecerem serem representações ainda mais fiéis do que as imagens precedentes.

No entanto, se examinarmos as imagens feitas por computador, verificamos que todas as imagens técnicas (inclusive as mais primitivas) não são, na realidade, representações, mas projeções de pontos. Exemplo: a imagem de um avião, produzida por plotter sobre tela de computador, não é “representação de avião” mas “projetos de avião a ser construído”.

As novas imagens, até quando parecem representar, são de fato projetos para determinado comportamento, e a crítica de fotos, filmes e da tv começa a se dar conta disto. Disto deve ser concluído que as novas imagens articulam consciência (imaginação) diferente da articulada pelas imagens precedentes: articulam consciência calculadora, computada, programada.

O gesto da escrita linear não é suprimido na produção das novas imagens, mas é radicalmente modificado. Não se trata mais de alinhar signos, mas de acionar teclas provocadoras de signos. O gesto fluido do ducto é fracionado: a linha é fracionada em pontos e intervalos. A imagem que vai emergir de tal gesto é consequência de tal fracionamento de linha.

Ora, a própria linha do texto é consequência de uma dissolução do plano pictórico em linhas (conseqüência de explicação e imagem). O fato de que textos desenrolam imagens em linhas é nitidamente observável em determinadas tabelas mesopotâmicas. De modo que devemos concluir que as novas imagens surgem de textos por salto comparável ao pelo qual os textos digam, e se ao primeiro salto devemos consciência histórica, ao segundo deveremos consciência nova, jamais articulada adequadamente.

Procurar esboçar os contornos de tal nova consequência é a tarefa difícil, porque o feed-back entre digitalização (acionamento de teclas) e a consciência é ainda recente, e ainda não conseguiu articular a nova consciência de maneira palpável.

No entanto: desta já é possível se apontarem alguns entre os traços fundamentais de nova maneira de se estar no mundo, o que tentarei fazer agora. O mundo externo e interno não mais poderá ser vivenciado enquanto sequência linear de eventos que emerge um do outro. Será vivenciado doravante enquanto contexto de realizações de virtualidades.

Para ilustrar tal nova vivência por imagem, por certo inadequada: o mundo será vivenciado enquanto conjunto de bolhas que surgem de mingau virtual, para nele retornarem, ou para explodirem. O tempo não mais poderá ser vivenciado enquanto fluxo que provém do passado em demanda do futuro. Será vivenciado doravante enquanto input que provém do futuro sob forma de pergunta que se realiza quando se apresenta, e que vai ser represado sob forma de memória no presente.

Em suma: o mundo interno e externo serão doravante vivenciados enquanto “campos”. Se o modelo da vivência histórica é o rio, o modelo da nova vivência poderá ser o campo magnético, com o imã representando o presente. Ora, tal mutação da vivência do mundo terá algumas consequências radicais para a futura compreensão e avaliação do mundo.

Se o tempo for vivenciado enquanto erupção do futuro para dentro do presente, o termo “progresso” perderá seu significado ou adquirirá outro. Para uma tal experiência do real explicações causais (explicações pelo passado) não mais serão adequadas e deverão ceder seu lugar aos cálculos de probabilidade.

A “mathesis” de um mundo assim vivenciado não mais poderá ser rígida (exemplos: lógica aristotélica e sistema cartesiano) mas deverá ser fluída e ondulatória (“topológica”), e deverá ser fundada no jogo do acaso com a necessidade. O engajamento criativo (científico, político e artístico) não pode mais modificar os eventos, mas sim realizar virtualidades.

Todas essas modificações na experiência, avaliação e reação (todas estas modificações da consciência) poderão ser reduzidas talvez ao seguinte denominador comum: o mundo não mais será percebido enquanto conjunto “objetivo” mas enquanto tecido relacional em permanente atamento e desatamento dos nós que o constituem.

Darei um exemplo existencial para ilustrar o que tenho em mente: não mais podemos vivenciar a sociedade enquanto grupo de homens ligados entre si por determinados laços, mas enquanto campo de relações sociais em cujos nós são previamente localizados determinados homens. Sob tal visão a questão histórica “o homem deve servir a sociedade ou a sociedade ao homem?” passa a ser insignificante.

A sociedade vai ser vivenciada enquanto soma de relações sociais, o indivíduo enquanto nó de relações sociais, e, desatados tais nós, desaparece o conceito “indivíduo” e “sociedade” (um é função do outro). O futuro pensamento político (e a futura ação política) não mais poderá querer modificar a “sociedade” ou o “homem”, mas vai querer programar a estrutura das relações sociais que são o único dado concreto e outros termos: o pensamento e as ações políticas passaram a ser “cibernéticos” (“cibernética” e “governo” sendo sinônimos), e isto permite, desde já, explicarmos os novos fenômenos políticos como seja tecnocracia e terrorismo. São, desde já, tentativas de programar ou desprogramar o campo relacional que é a sociedade.

O exemplo aqui oferecido do campo social poderá ser aplicado a inúmeros campos diferentes: ao da psicologia, da neurologia, da genética, da lingüística e da física, naturalmente. Em todos estes campos passamos a vivenciar a realidade enquanto tecido relacional em movimento ondulatório, em cujos vales de ondas se “cristalizam” os fenômenos outrora chamados “objetivos”. Em outros termos: não mais podemos vivenciar a realidade enquanto processo mas enquanto emergir de virtualidades.

Para parafrasear Wittgenstein: o mundo não é tudo que acontece, mas tudo que é o caso, e o caso é relação (“Sachverhalt”) e não coisas (“Sache”). A nova consciência será “imaterial”, no sentido de relacional e provável por signos imateriais (por “software”).

Tudo que acabei de dizer com referência à consciência emergente pode ser concretamente vivenciado por aqueles que estão sentados frente a computadores, que acionam teclas e produzem imagens digitalizadas (isto é: sobretudo pelos nossos netos). Selecionei meu exemplo social seguinte: a rapaziada que passa o seu tempo brincando com o minitel e semelhantes aparelhos telemáticos vivencia conexões com a sociedade enquanto campo de relações sociais (não importa se tais relações atam pessoas humanas ou inteligências artificiais) e se vivencia a si própria concretamente como nó para o qual relações convergem ou do qual irradiam.

Tal experiência concreta fatalmente será aplicada para cobrir todos os campos da vivência, todo o conhecimento da avaliação e da ação subseqüente. Fatalmente, no futuro, “depois da escrita”, o real será percebido enquanto relação imaterial, mas concreta.

Ora, dito isto devo acrescentar três observações restritivas.

(1) A consciência emergente não é tão nova. Foi ela preparada por gente como Pascal, gente como Newton e Leibniz que elaboraram a sua disciplina (o cálculo), e produziu resultado em vários campos: na filosofia (Husserl), na psicologia (Freud e Jung), na semântica (Saussure), na tecnologia (Levy-Strauss), para nem falar na física (Planck e Einstein). O que está erguido está querendo emergir há muito tempo.

(2) Não creio que a nova consciência vá abolir a precedente. A digitalização não eliminará a escrita, como a escrita não eliminou as imagens e a fala. A nova consciência constituirá, por muito tempo, camada fina, precariamente sustentada, e assentada sobre grossas camadas de consciência histórica, mágica, mítica (e talvez ainda mais profunda).

(3) Não estou convencido de que a nova consciência vá efetivamente poder cristalizar-se. Como procurei mostrar, para poder cristalizar-se, ela necessita de aparelhos que são prerrogativas de pequena minoria. A maioria sofredora da humanidade talvez não permita que o processo de concretização se realize, destruindo os aparelhos.

Deve confessar, não obstante, que a perspectiva da nova consciência me enche de esperança. Isto não é razoável. Não há razão para se crer que o “Novo Homem” será menos lobo do outro que o é o “antigo”. Minha esperança irracional se explica: a direção que a história tomou não pode ser perseguida por muito tempo, e toda alternativa é pois bem-vinda. Dito isto, são os senhores que devem julgar se a utopia que acabo de lhes propor é positiva ou negativa.