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RETRADUÇÃO ENQUANTO MÉTODO DE TRABALHO
Vilém Flusser


O presente ensaio é tentativa de conscientização do meu método de trabalho. Publico-o não por crer ser meu método de interesse público, mas por crer ser minha situação linguística interessante para quem estiver engajado no lançamento de pontes entre os universos das várias línguas.

Nasci em Praga, portanto bilíngue: duas línguas de estrutura radicalmente diferente, o tcheco e o alemão, contribuíram em partes iguais para a formação da minha mente. Em idade universitária passei a ler e a escrever em inglês, passei a falar inglês como língua cotidiana, e inglês continua sendo a língua na qual recebo a maioria das informações que adubam meu trabalho. 

Morei durante muito tempo em São Paulo. O português é a língua materna dos meus filhos, escrevi e continuo escrevendo grande parte dos meus trabalhos em língua portuguesa. Atualmente moro na França, o francês passou a ser a língua que falo no cotidiano e meus cursos e conferências são redigidos na língua francesa. 

Como fui formado pelo sistema ginasial austro-húngaro (herdado pela Tchecoslováquia), o latim e o grego clássicos foram sistemas referenciais para todas as minhas articulações disciplinadas. Além disto várias outras línguas, e sobretudo o italiano, tiveram influência sobre a forma pela qual me exprimo.

O que importa em tal situação é de não dispor de meta-língua que me possa servir para a captação dos universos linguísticos aos quais tenho acesso por certo: o alemão ocupa posto preferencial entre as línguas que me são disponíveis, por ser a língua na qual me comunico com minha mulher, na qual escrevi meus poemas de adolescente, e na qual acredito que sonho. Mas minha relação com alemão está contaminada pelas experiências com o nazismo, e pela repulsa que sinto face ao alemão atualmente em uso, e que me parece barbarizado tanto por remanescentes do linguajar nazista, quanto pela assimilação mal digerida de anglicismos. 

De modo que nenhuma das “minhas” línguas é central, e mantenho relações ilícitas de amor e ódio com todas elas, relações que são todas de intensidade comparável, mas cada qual com colorido distinto.

Odi et amo” todas as minhas línguas, porque odeio e amo a palavra. Não apenas no sentido heideggeriano de ser para mim a palavra a morada do ser, mas sobretudo no sentido de ser a palavra “logos spermatikós” que me sinto chamado a martelar a fim de dá-la às coisas. Daí, toda vez que eu tento dar a palavra às coisas, me vejo obrigado a dar a toda coisa várias palavras, constantes dos repertórios das línguas que me informam. 

O problema com o qual me deparo é que tais palavras, adequadas à coisa a ser nomeada, não são congruentes umas com as outras. De modo que não se trata, para mim, tanto de adequar a palavra à coisa, mas de adequar as várias palavras uma à outra para finalmente adequar tais adequações linguísticas às coisas. Amo tal jogo de palavras, porque permite à coisa revelar várias das suas facetas. E odeio tal jogo porque fascina a ponto de encobrir a coisa.

O jogo com palavras, o qual é minha vocação, é o motivo do meu assumir coisas. O “assunto” conta menos que o “assumir”, o “tema” menos que o “método”. Por isto assumo todo assunto em função da sua traduzibilidade. Quanto mais dificilmente traduzível determinado assunto, tanto mais me desafia. Porque vai provocar a tensão dialética entre as diversas línguas que me informam, e vai me obrigar a procurar sintetizar as contradições entre elas. De modo que dar a palavra às coisas é empresa não tanto epistemológica quanto existencial: o que procuro conhecer não é tanto as coisas quanto meu próprio estar no mundo.

Assumo pois determinado assunto, por exemplo o da retradução enquanto método do meu trabalho (o presente assunto). Assumo tal assunto em português, porque a revista “Tradução e Comunicação” é publicação brasileira. Quando tiver terminado o ensaio, traduzirei o texto para o inglês, porque o assunto é vizinho de temas que li em literatura americana. Terminada a tradução, re-escreverei o texto em francês, porque espero poder utilizá-lo nos meus cursos. Terminada a tradução, re-escreverei o texto em alemão, para ver se o meu argumento se sustenta em tal formulação carregada de reflexões sobre a palavra, no significado heideggeriano e wittgensteiniano. Terminada a tradução, re-escreverei o texto em português, para submetê-lo à redação da revista. 

Não sei, no momento, o quanto tal segunda redação portuguesa se distinguirá da que estou escrevendo neste instante, mas sei que será muito diferente. Se a formulação do assunto me parecer aproximadamente satisfatória, considerarei o assunto liquidado. Mandarei o texto para a revista, e esquecerei o assunto. Se, pelo contrário, a formulação me parecer insatisfatória, retraduzirei o texto para o francês, para publicá-lo na revista “Langages et Communication”, na qual colaboro. Se tal redação for satisfatória, o assunto morreu. Se for insatisfatória, retraduzirei para o alemão, a fim de publicá-lo na revista “Merkur”. Se tal retradução para o alemão for insatisfatória, retraduzirei o texto para o inglês, sem saber de antemão aonde publicá-lo. Se tal retradução para o inglês for satisfatória, retraduzirei para o português e remeterei à revista brasileira. 

Se for insatisfatória, porém, recomeçarei a dança. No decorrer de tal dança, o assunto terá várias vezes mudado de forma, e no final será irreconhecível. De modo que o convite do professor Morejón para eu escrever um artigo para a revista “Tradução e Comunicação” terá sido convite para a dança.

Por certo: tal retradução recorrente em espiral é formalizável. É perfeitamente viável formalizá-la enquanto adequação de várias sintaxes em “overlap” uma sobre a outra, e enquanto adequação de vários léxicos inter-relacionados. Em tese, os computadores do futuro próximo serão capacitados para executar a dança. Trata-se de tomar toda língua disponível enquanto meta-língua das demais, e depois tomar tais línguas-objeto enquanto meta-línguas da sua própria meta-língua. Mas tal formalização do problema da retradução levará a perder o encanto do jogo.

O que fascina é o confronto com os acordos e desacordos entre os vários “espíritos da língua”. Tais “espíritos”, embora não definíveis, são no entanto concretamente palpáveis. É concretamente palpável a involuta profundidade obscura do alemão, parcialmente devida à origem não-latina de muitos termos, e parcialmente à construção involuta das suas sentenças. O alemão desafia a mente para que esta não se entregue ao convite sedutor da profundidade, e para que busque clareza. 

O oposto ocorre com a língua francesa. Embora a célebre clareza e distinção do francês seja mito (basta, para constatá-lo, comparar o francês com o latim), não pode ser negado que o francês convida a mente para ser brilhante. O desafio consiste em resistir ao virtuosismo verbal, e a procurar obrigar a língua a tocar em surdina.

Se o “espírito” da língua alemã leva a mente a mergulhar, e se o da língua francesa a leva a fazer piruetas, o “espírito” da língua portuguesa leva a mente a partir tangencialmente do assunto. O português é a língua das digressões, das associações ditas “livres”, talvez por ser língua que carrega pouco peso de literatura disciplinada (filosófica, científica, técnica ou crítica). De modo que a língua portuguesa convida a mente a formulações rigorosas que a obrigam a conter-se.

Tenho dificuldade em descrever a experiência com o espírito da língua inglesa, esse monstro de riqueza, de beleza e de plasticidade. Por certo: toda e qualquer língua é sobre-humana, já que contém, no seu íntimo, a sabedoria acumulada por gerações cuja origem se perde na noite dos tempos. Mas o inglês é, em certo sentido, a língua das línguas. Talvez por ser síntese entre o germânico, o latim, o francês, com forte dose de celta, talvez por ser língua sobreposta sobre tantas outras, especialmente na África e no subcontinente indiano. 

Mas talvez simplesmente por ser a língua que articulou tanta poesia, tanta ciência, tanta técnica, tanta filosofia, e tanto kitsch quanto nenhuma outra. Mas embora seja difícil descrever a experiência do inglês, essa simultaneidade de profundidade, clareza e elasticidade, é fácil dizer-se em que consiste o seu desafio à mente: resumir o assunto, usar um máximo de economia. Podar a profundidade alemã, o brilho francês, a “genialidade” portuguesa, e reduzir o texto ao essencial, ao núcleo da coisa.

Pois é tal vai e vem entre espíritos dispares e complementares que constitui o meu método de aproximar-me da coisa. E será somente na medida em que conseguir sintetizar tais espíritos em minha mente que terei dado a palavra à coisa. Por certo: tal método é resultante da minha posição linguística especial, e não pode ser generalizado. Não obstante creio que todos os que estão interessados na tradução, seja enquanto tradutores, seja enquanto leitores de texto traduzidos, seja enquanto teóricos da tradução, poderão aproveitar alguns dos dados que acabo de apresentar de forma resumida.