FLUSSERBRASIL



SEXO
Vilém Flusser

Folha de São Paulo, 17/02/1972

                          

Quem vê apenas a enorme multidão das formas dos seres vivos tende a admirar a riqueza da vida: com efeito, que diferença entre algas e carvalhos, entre borboletas e baleias. Mas quem vê as regras que ordenam o jogo da vida pode vir a admitir a curiosa pobreza da vida. Devorar-se mutuamente e multiplicar-se, eis as duas únicas regras. Deve haver planeta na imensidão cretina do cosmo no qual a vida se comporte de forma um pouco mais inteligente.

Considerem o método para a multiplicação dos seres vivos. É de monotonia enfadonha (não estivéssemos nós próprios ativamente engajados no processo). Com efeito, há dois métodos apenas: divisão e sexo. Os que se dividem (por exemplo os unicelulares) escapam à morte. Vivem eternamente e de forma sempre mais ampla. Mas compraram a imortalidade pelo preço do sexo, preço que alguns podem considerar excessivo. Os que recorrem ao sexo para multiplicar-se, morrem. 

O salário do pecado é a morte.

Os seres primitivos (primitivos, obviamente do ponto de vista chauvinisticamente humano) são bissexuados e podem autofertilizar-se. Alturas do narcisismo inalcançáveis para nós, meramente humano. Os outros (carvalhos, aranhas, homens e, de acordo com alguns escolásticos, anjos) recebemos dois sexos separados um do outro. O feminino, que é responsável pela multiplicação das espécies, e o masculino, um tanto subalterno, que é o instrumento graças ao qual o feminino se multiplica. Durante as múltiplas centenas de anos (que é a idade da vida na Terra), não lhes ocorreu idéia mais brilhante para se multiplicarem. 

Uma pena.

O sexo masculino é uma espécie de luxo que a vida se permite. Uma espécie de apêndice do feminino. A vida é feminina. Tal afirmativa pode servir de arma às feministas na sua luta contra nós, meros machos. Mas não necessariamente. Permite argumentar, é verdade, que o macho é mera função da fêmea, argumento este levado às últimas consequências por certos peixes, no quais a fêmea devora o macho depois do ato. Mas permite argumentar também que o macho, sendo luxo, é o sexo mais elegante (argumento ainda não aproveitado pela moda masculina). 

Prova do seguinte: fatos não importam. Importa interpretá-los.

Embora fatos não importem, são obstinados. Nenhuma revolução cultural pode mudar por enquanto o fato dos dois sexos. Nem as botas altas das mulheres, nem o cabelo longo dos rapazes, nem o terceiro, quarto e quinto sexo que por aí passeiam. Por enquanto isto é “dado”. Até que a biologia nos forneça outras alternativas.