FLUSSERBRASIL



TEREZIN: POEMAS DE EDITH ARNHOLD
Vilém Flusser

 

Imaginemos o seguinte: adulto, no exercício de suas funções e com isenção de emoções, empurra garoto de dez anos para o interior de um vagão de transporte de gado. Quando o garoto, movido pela confiança que as crianças têm no poder protetor dos adultos, lhe estende o braço pedindo ajuda, o adulto lhe dá um pontapé para empurrá-lo mais para o fundo.

Imaginemos o seguinte: adulto, no exercício de suas funções e com isenção de emoções, solta um cão de caça treinado a fim de impedir que o garoto de dez anos, todo sujo de urina e excremento, tremendo de frio e medo, saia da fila que vai do vagão aos fornos.

Imaginemos o seguinte: adulto, no exercício de suas funções e com isenção de emoções, remexe cinzas ainda quentes - os restos do garoto de dez anos, já passado pelo chuveiro, pelo gás, pela agonia e pelo crematório - a fim de recuperar das cinzas algo aproveitável.

Imaginemos o seguinte: quarenta anos depois, pessoas bem intencionadas comparam acontecimentos bélicos recentes com aqueles eventos “a serem” imaginados, a fim de, inconscientemente, banalizar o inimaginável.

Edith Arnhold, tentando imaginar o inimaginável, escreve poemas a fim de tornar concebível o inconcebível, e, para publicá-los, vê-se obrigada a recorrer à “edição da autora”.

Tarefa praticamente impossível imaginar tudo isso. 

Tarefa indispensável: ninguém pode compreender a cena atual, ninguém a pode avaliar ou nela se engajar, antes de ter imaginado o praticamente inimaginável. 

Porque o praticamente inimaginável, o inconcebível, o indigesto, o indigerido se esconde no próprio núcleo da cena atual e a corrói de dentro para fora.

Edith Arnhold enfrenta o desafio praticamente impossível. O mínimo que devemos fazer, nós, os covardes, é lê-la. 

Depois, tentaremos continuar a trabalhar, a assistir televisão, a defender opiniões, a discutir religião e filosofia.