FLUSSERBRASIL



TEXTO IMAGEM
Vilém Flusser

Instituto Cultural Francês, Napoli, 03/02/1984

 

 

Proponho algumas hipóteses ousadas sobre a atual revolução cultural das imagens, não para defendê-las, mas para submetê-las ao debate. De fato, proponho modelo da história humana do ponto de vista da comunicação visual, recorrendo para tanto ao método da fenomenologia.

O homem natural, essa contradicto in adictu, está imerso, como todo animal, em ambiente das quatro dimensões do espaço-tempo, em ambiente composto de "aventuras", isto é, experiências que se aproximam e se afastam. Mas o homem, ao contrário dos animais, é munido de mãos que lhe permitem segurar as "aventuras", captá-las, apreendê-las e compreendê-las. Por tal ato o homem transforma o ambiente em circunstância composta de objetos. 

Isto é: o ato humano abstrai a dimensão "tempo" do ambiente e destarte se abstrai a si próprio do ambiente. Surge de um lado o mundo objetivo e do outro a existência subjetiva, pois a existência pode manipular os objetos (resolver os problemas), mudar-lhes a forma, produzir cultura. Facas de sílex se tornam viáveis. Os objetos culturais são o primeiro medium visual, os primeiros portadores de informação armazenada e transmissível.

As mãos são controladas pelos olhos. Levou centenas de milhares de anos até que tivéssemos aprendido a olhar primeiro e agir depois, a fazer preceder a práxis pela teoria. As dificuldades a superar eram a efemeridade e a privaticidade da visão: fez-se necessário fixar a visão e torná-la publicamente acessível. 

Fez-se necessário inventar imagens, pois as imagens são abstrações da dimensão da profundidade da circunstância, projeções de volumes sobre superfícies (em Lascaux, por exemplo). Graças à imaginação o homem se afastou da circunstância, introduziu entre ele mesmo e o mundo objetivo o terreno do imaginário que lhe permite orientação contextual, e com isto o homem se transformou em homo sapiens sensu stricto. As imagens são o segundo medium visual da comunicação humana.

As imagens sofrem de dialética interna: ao representarem a circunstância a cobrem. Logo, tendem a se tornar opacas. O homem, em vez de orientar-se no mundo graças a imagens, passa a viver, desejar, valorizar, conhecer e agir em função das imagens. Idolatria. 

Torna-se necessário, para vencer tal alienação, tornar as imagens transparentes. Levou dezenas de milhares de anos até que tivéssemos aprendido a explicar as imagens, a contar seu conteúdo, a arrancar os elementos imaginísticos da superfície e alinhá-los sobre fios calculáveis, a escrever linearmente. 

Com tal gesto da escrita linear o homem abstraiu a dimensão da largura da imagem e transformou as cenas imaginárias em processos lineares, contáveis. Graças a isto o homem adquiriu consciência histórica, conceitual, dramática, filosófica, científica. Os textos são o terceiro medium visual da comunicação humana.

Há dialética entre texto e imagem. O propósito do texto é explicar imagens, combater sua opacidade, substituir a sua magia e seu mito pelo pensamento linear, conceitual, explicativo. Mas as imagens podem vir a ilustrar os textos, a retraduzir sua mensagem conceitual para o nível contextual da magia. A história sensu stricto pode ser vista como tal luta entre texto revolucionário e imagem conservadora. 

Os primeiros escribas (os profetas e os pré-socráticos, por exemplo) estavam conscientes do seu engajamento anti-idolátrico, configurando a elite que vivia historicamente contra a massa iletrada, a qual continuava a viver magicamente. Mas a massa absorvia os textos dominantes, a traduzia em imagens, e por feedback tais imagens voltavam para a elite para penetrar seus textos. Destarte a vida mágica se ia historicizando, enquanto a vida histórica ia se magicizando. 

Exemplos: a massa pagã medieval, ao absorver os textos bíblicos na sua imaginação pagã do eterno retorno, cristianizava-se, enquanto a Igreja, ao absorver a imaginística da massa, paganizava-se (pela arte sacra). As imagens medievais, teoricamente a serviço dos textos sagrados, recarregavam tais textos com carga mágica, e tal magia por sua vez provocava textos do tipo da alquimia. Graças a tal dialética a imaginação tornava-se sempre mais conceitual e a conceituação, sempre mais imaginativa. O triunfo de tal luta corpo a corpo entre imaginação e conceituação é o renascimento italiano, o uomo universale que concebia imaginativamente e imaginava conceitualmente.

A invenção da imprensa tornou os textos baratos e acessíveis à nova camada social: os burgueses se juntavam ao clero para viver conforme os textos. Vitória dos textos sobre as imagens, com a consequente elaboração das ciências da natureza, da tecnologia, e finalmente a revolução industrial e o surgir do proletariado superficialmente alfabetizado. Rompe-se então a dialética texto-imagem. 

As imagens degradadas em ilustrações eliminavam-se da vida cotidiana e, envoltas em aura falsamente glorificadora, isolavam-se em guetos do tipo museu. Os textos tornavam-se sempre menos imagináveis, até, com o século 19, passarem a ser inimagináveis, ou falseados quando imaginados (por exemplo: as equações da física moderna). O divórcio entre os textos dominantes e as imagens dominadas e pretensamente glorificadas levou ao divórcio da cultura em cultura científica dominante e cultura artística dominada.

Para vencer tal divórcio nefasto entre conceituação textual inimaginável e imaginação alienada da conceituação progressiva, foram inventadas as imagens técnicas, a primeira delas a fotografia. Sua função era a de tornar imagináveis os textos, reintroduzindo as imagens na vida cotidiana. 

No entanto, as imagens técnicas não são, como as tradicionais, abstrações de superfícies a partir de volumes. São superfícies compostas de pontos. A fotografia é composta de grãos de nitrato de prata, a TV de pontos eletromagnéticos em tubo catódico. As imagens técnicas são produtos de aparelhos que projetam o universo quântico, pontual, sobre superfícies aparentes e cheias de intervalos. Partem elas da abstração do fio condutor dos textos, são imagens computadas com bits de informação, são imagens "programadas". 

Sua posição ontológica é diferente das imagens tradicionais: são elas computações bidimensionais a partir da zerodimensionalidade. Como tais, são elas a quarta mediação visual para a comunicação humana.

O propósito das imagens técnicas (propósito este não necessariamente entendido pelos seus inventores) é tornar imagináveis os textos. Isto é: inverter a relação texto-imagem compreendida pelos escribas. As imagens não mais devem ilustrar textos (servir textos) mas os textos agora devem completar imagens (servir imagens). Não mais a consciência imaginativa e mágica a serviço da consciência conceitual histórica, mas sim a consciência histórica e seus gestos (políticos, científicos, artísticos) a serviço da magia das tecno-imagens. 

Todo evento histórico tende doravante a ser fotografado, filmado, televisionado. As imagens técnicas são a represa dentro da qual a correnteza dos eventos históricos se armazena para girar em repetição eterna.

Pós-história é isto.

Até recentemente o que caracterizava as imagens técnicas era serem elas irradiadas a partir de um centro programador (fábrica de câmaras fotográficas e fílmicas, emissoras de TV, fábrica de videocassetes) rumo a receptores isolados e solitários: os homens programados pelas imagens. A estrutura comunicológica da sociedade das tecno-imagens era a de discursos centrais irradiantes, e continua sendo. Os feixes irradiadores religam os receptores aos centros, configurando uma sociedade fascista.

No entanto, ultimamente vão surgindo técnicas, as da telemática, que permitem ligações transversais entre os receptores, ligações estas que ocorrem de maneira horizontal através dos feixes irradiadores. De modo que as tecno-imagens não são necessariamente portadoras de discursos centrais imperativos, mas podem vir a ser portadoras de diálogos intersubjetivos. Isto é, a meu ver, o fenômeno mais interessante dessa revolução imaginística toda.

Por certo, atualmente é difícil se estabelecerem autênticos diálogos telematizados. Diálogos são trocas de informação visando síntese de informação nova. Na situação atual todos dispõem de informações idênticas, irradiadas pelos emissores, e não há nada que possa ser trocado dialogicamente. De forma que os gadgets telemáticos servem atualmente ao eterno retorno das mesmas informações permutadas de várias maneiras (a chamada opinião pública), e esta por sua vez serve de feedback para os programas dos emissores. 

A telemática, tal qual se apresenta atualmente, reforça a ditadura dos discursos.

No entanto, é possível que nos tornemos conscientes da posição ontológica dessas imagens, é possível que venhamos a criticá-las. De tal distância crítica compreenderemos que o significado das tecno-imagens, computações de bits que são, não é diretamente uma cena do mundo, mas um programa. Desde que assumamos tal crítica, poderemos de fato passar a dialogar com os outros sobre e através das imagens. Isto nos permitiria estabelecer consenso quanto à programação futura, não apenas a das próprias imagens, mas a dos aparelhos automáticos todos. Teremos retomado as rédeas dos aparelhos que atualmente ameaçam se autonomizar.

Se identificamos discursos com totalitarismo e diálogo com democracia, a telemática abre horizonte para a sociedade cósmica democrática, para a aldeia cósmica de McLuhan. Isto é uma das virtualidades atualmente abertas, e depende de nossa capacidade crítica para que seja realizada. A outra é o estabelecimento definitivo da sociedade informática totalitária, centralmente programada, com os receptores em solidão passiva e massificada de apertadores de teclas.

Por certo, o futuro será algo entre os dois extremos. Mas agora é o momento de nos engajarmos para evitar o estabelecimento do totalitarismo, enquanto nos resta ainda abertura para tomarmos o recuo crítico.