FLUSSERBRASIL



VÊNUS
Vilém Flusser

 

Dedico e ofereço as anotações que se seguem sobre a minha viagem memorável à Grande Mãe, louvada seja Ela. Sejam proclamados os Seus nomes ao nascer da Estrela da Noite até o deitar da Estrela da Manhã, para sempre e sempre.

Essas duas estrelas, que nós modernos sabemos ser uma, sempre me fascinaram quando as examinei através do meu telescópio, tanto por sua beleza como por seu mistério. Ela, Afrodite, a mais próxima das plantas, é também a mais desconhecida e a mais oculta. As suas fases, parecidas com as fases da Lua, podem ser observadas claramente; a sua superfície, porém, continua eternamente envolta pelo manto purpúreo, casto e tentador de sua atmosfera nublada. 

Tudo é virgem e misterioso, a própria rotação do planeta é desconhecida. A espectroscopia nada revela, já que a luz venusiana é refletida pela superfície de suas nuvens. Sempre senti que quem rasgar o véu de sua atmosfera desvendará a Virgem, Anadiomene, aquela que surgiu da espuma, a Mãe de toda vida, Ichtar, a Amorosa.

Quando, portanto, sentia a ação refreante das nuvens venéreas sobre o meu foguete, quando o meu veículo penetrou naquela massa macia a um tempo resistente e acolhedora, o meu espírito foi tomado de uma exaltação primordial, religiosa e voluptuosa, como se eu fosse o primeiro espermatozóide (espermatozoon) a penetrar o primeiro ovo. 

Estendi as asas, transformando o foguete em avião, e procurei, em voo planador, uma abertura nas nuvens. Simultaneamente liguei os instrumentos medidores. À medida que o altímetro acusava alturas sempre menores (10.000 metros, 2.000 metros, 520 metros!), e à medida que os instrumentos acusavam uma porcentagem sempre crescente de oxigênio e água na atmosfera, a minha excitação aumentava. 

Não era tanto o medo da morte, de um choque com um Monte de Vênus, era a exaltação do conquistador prestes a “conhecer” o oculto, no sentido bíblico desta palavra. As formas suaves e femininas das nuvens, com sua coloração afrodisíaca e inebriante, envolviam o meu aparelho, barrando toda a visão da superfície do planeta.

De repente, na altura de 520 metros, descortinou-se diante de mim a paisagem venusiana.

A planície palpitante, o mar viscosamente plástico, dourado e prateado, de mel e de leite, estendia-se por baixo do céu purpúreo até os horizontes. Ondas frenéticas e frementes faziam pulsar a paisagem em marés de um orgasmo ritmado. 

Abri a janela e deixei, com coragem desesperada, que a atmosfera venérea penetrasse os meus pulmões com todo o seu rico conteúdo de oxigênio O3 e óleos aromáticos pulverizados. O ritmo do meu coração aumentou, e todo o meu corpo ficou eletrizado por uma euforia e um entusiasmo nunca antes experimentado. Fiquei envolto no suave canto dos ventos, e o meu aparelho pairava por cima das ondas do mar e do amor.

Reparei, de repente e com susto, na “sombra” que o meu aparelho projetava sobre a superfície venusiana. Era uma “sombra” resplandecente, e estava virada a 180° contra o aparelho. Acompanhava o meu voo de maneira imprecisa, parecia atrasar-se e adiantar-se, desviando-se ora para a direita, ora para a esquerda. 

Vênus brincava comigo. 

Segui, fascinado e desnorteado, essa tentativa tipicamente feminina do planeta de comunicar-se comigo.

Pouco a pouco a “sombra” empalidecia e apareceu, no centro da planície venérea, algo que descrevo melhor como uma pintura abstrata, ou como um móbile de Calder. Tratava-se de uma construção que girava suavemente sobre si mesma. Uma forma dourada se colocava um pouco excentricamente no cubo da roda, e nove formas de cores diversas giravam elíptica e ritmicamente em redor do centro. A segunda a partir do centro, purpúrea e cintilante, sobressaía, era como que acentuada.

De repente compreendi, e um suor frio surgiu na minha testa: tratava-se de uma reprodução do sistema solar, a um tempo a apresentação de Vênus e a pergunta: de onde eu vinha? Baixei cuidadosamente o nariz do meu aparelho e apontei para a forma que representava a Terra. 

A construção desapareceu imediatamente, como que por encanto, e no seu lugar apareceu um mapa, aproximado e cheio de erros, da superfície da Terra em projeção Mercator. Lembrava os mapas dos nossos navegadores do século 17. Apontei com o nariz do avião para o lugar que correspondia, aproximadamente, a São Paulo. Simultaneamente baixei um instrumento de sucção, a fim de recolher algumas gotas da superfície venusiana, para analisá-las quimicamente.

O contato físico com a superfície de Vênus teve um efeito dramático e violento. O mapa da Terra desapareceu, e o mar se contorceu e revoltou em fúria desesperada. Ondas de centenas de metros de altura levantavam as suas cristas espumantes, e pareciam querer envolver e engolir o meu aparelho com mil tentáculos palpitantes. Ao mesmo tempo rugia e uivava um furacão, e o avião jogava quase desgovernado. 

Em manobra desesperada consegui afastar-me das ondas e alcançar a altura salvadora de 400 metros. A minha fuga parecia acalmar o mar, que se transformou numa superfície rígida e imóvel, como gelo. 

Não podia suprimir um sorriso: a minha fuga tinha ofendido Vênus. Ela se fingia indiferente à minha presença. O meu aparelho sobrevoava agora um planeta aparentemente frígido e morto.

Resolvi, entretanto, retomar o contato. Lembrei-me da origem misteriosa, órfica e afrodisíaca, da matemática, e pensei que Vênus não podia ser de todo alheia a ela. Baixei cuidadosamente o avião e com um instrumento pontudo desenhei sobre a superfície gelada o teorema de Pitágoras, o triângulo e os três quadrados. Os traços do meu desenho permaneceram por um instante, imóveis e constantes, para depois se deformarem e contorcerem-se em algo que vagamente reconheci ser um espaço riemanniano. 

Como, infelizmente, os meus conhecimentos de geometria avançada não são suficientes para continuar este tipo de conversa com Vênus, interrompi o contato. Aproveitei a pausa para analisar rapidamente a gota do mar venusiano que tinha recolhido. Tratava-se de uma massa plástica e lactosa, permeada por fios, dentro da qual havia grânulos e bolhas.

Não restava dúvida: era um tipo de protoplasma. Verifiquei a presença de carboidratos, albuminas, sais de sódio e lipóides. Gorduras faltavam e a água perfazia aproximadamente 40%. Tratava-se, portanto de um protoplasma radicalmente diferente do protoplasma terrestre. Os lipo-proteinos não demonstravam tendência a formar paredes celulares e não havia nucleoplasma. Ácidos ribonucleicos mostravam-se ausentes. 

Vênus não era, portanto, nem animal nem planta. Ela era protoplasma não diferenciado, a matéria prima da vida. Ela era o suco imortal, a espuma eterna e amorosa da qual surgiu, surge e surgirá a vida individual, mortal e fugaz, das plantas, dos animais e dos homens. Ela era a Grande Mãe, Astarte a Fértil e Voraz, virginalmente prenhe e castamente faminta. E eu tinha penetrado o seu reino, a região da vida imortal e informe.

Entrementes o mar venusiano retomava o seu aspecto primitivo. Ondas rítmicas faziam palpitar a sua superfície, enquanto ventos suaves e aromáticos sussurravam. Sobrevoei, cheio de ternura e de reverência, três vezes o planeta, como ato de devoção e gesto de despedida ao mesmo tempo. Recolhi, em seguida, as asas, liguei os reatores e dirigi o aparelho rumo à Terra.

Uma força que não tenho nem curiosidade nem coragem de analisar fez com que aterrissasse aqui, num vale abandonado do Tibet. Neste mosteiro singelo e esquecido dos monges da seita amarela, neste mosteiro em que escrevo estas linhas, pretendo encerrar os dias da minha vida terrestre. E pretendo dedicar o que resta da minha vida à meditação e ao culto d’Aquela que é a Mãe de todos, da qual surgimos e para a qual voltaremos, de Chakhti, como dizem aqui, de Vênus, como diziam os nossos maiores.

Não lamento que a notícia da minha viagem e de minha experiência continue desconhecida entre os “civilizados”. Que seja considerada a minha viagem como uma entre as muitas tentativas frustradas de alcançar os planetas. A humanidade não parece madura espiritual e intelectualmente para entrar em contato com esferas extraterrenas.

Se, entretanto, estas anotações forem descobertas por forasteiros que invadirão o nosso vale, peço que sejam consideradas não como informações científicas, mas como confissões de uma alma contrita. Que não sejam, pois, divulgadas, mas guardadas com devoção e transmitidas, ocultamente, de geração para geração, entre aqueles que se dedicam ao culto de Vênus.

Nganglaring, Tibet,
janeiro de 1979.