FLUSSERBRASIL



XADREZ
Vilém Flusser

Lá está o tabuleiro de xadrez com suas 32 peças. 

Curioso aglomerado de coisas. Plano coberto geometricamente por 64 quadrados escuros e claros, a própria imagem do iluminismo. São 32 peças de madeira barroca; como captar a essência desse grupo de coisas?

Tomem o peão como exemplo. O essencial nele não é que seja madeira nem amarelo, nem que tenha a forma de pagode em caricatura, nem sequer que tenha sido feito com o propósito de fazer parte do jogo. O essencial nele é isto: poder avançar verticalmente e poder comer diagonalmente. É sua essência formar pares diagonais poderosos e pares verticais importantes e poder fazer o salto dialético em dama na última fileira. Tal essência, latente no pião, torna-se patente no jogo, e na reflexão (como agora).

Tomem a torre como exemplo. Lembra as torres mouriscas nas praias de Andaluzia, e isto não pode ser acaso. Diz respeito à história do jogo. Mas o aspecto histórico não é a essência da torre, embora os historicistas (dialéticos ou não) possam afirmá-lo. A sua essência pelo contrário é esta: poder dominar qualquer tanque irresistível em sentido horizontal e verificar o campo todo, arrasar tudo no seu avanço, mas ser impotente diagonalmente. 

Essência contraditória esta. Domina o caráter da torre. No início se esconde, tímida, no seu campo. No meio do jogo torna-se orgulhosa e brutal, para mudar imperceptivelmente no desenvolvimento do jogo. Procura cercar astutamente os peões diagonais que castram, em sua humildade aparente, a sua potência dominadora. 

Se conseguir cercá-los, perpetra um genocídio impiedoso nas fileiras do inimigo. No final, no entanto, procura barrar o avanço de um único peão antes desprezado e requer a proteção do próprio rei em tal tarefa humilhante. A essência da torre é o heroísmo de um determinado tipo, não muito belo.

Como conseguiu a reflexão desvendar a essência enxadrística das peças? Certamente não olhando as peças ingenuamente e sem preconceitos. Mas recorrendo ao conhecimento do jogo. Quem ignorar o jogo nada jamais descobrirá a respeito. As peças de xadrez são artificiais obras de arte. Quem procurar descobrir a essência de uma obra de arte ingenuamente, não será, receio, muito bem sucedido. O conhecimento do jogo é, creio, indispensável.

Diz Omar Khayyam que tudo isto aqui não passa de tabuleiro de xadrez, coberto de dias e noites nos quais o destino joga, usando-nos como peças. Se conseguirmos descobrir a essência de tal jogo, do qual somos peças, devemos tentar conhecer-lhes as regras.