FLUSSERBRASIL



DO EMPATE
Vilém Flusser

O Estado de São Paulo, 29/06/1963

 

O jogo de xadrez é, de certa forma, o intelecto tornado visível. As suas regras são resultados de acordos convencionados entre os jogadores para poderem jogar. São, portanto, convencionais e deliberados.

Entretanto, se amanhã um jogador mover o seu cavalo de um campo branco para um campo branco, não diremos que está infringindo regras, ou fazendo trapaça, mas que está louco. Assim também as regras do intelecto (a gramática “sensu lato”) parecem ser resultado de convênios, mas a sua infração é sinônima de loucura.

É difícil imaginar um filósofo que quisesse sustentar uma tese afirmando correspondência entre o movimento do cavalo e a realidade extra-enxadrística, de modo que o movimento do cavalo seja considerado “espelho da realidade” e portanto verdadeiro. É menos difícil imaginar o mesmo filósofo com respeito ao intelecto, embora a tese seja igualmente absurda.

Afirmar que um movimento do intelecto corresponde a uma “realidade extra-intelectual”, é tão verdadeiro como afirmar o mesmo com respeito ao movimento do cavalo. Um pensamento (um movimento intelectual), é tão verdadeiro quanto um movimento do cavalo: é verdadeiro, se tiver de acordo com as regras do jogo.

O “significado” do xadrez (a sua finalidade) é matar o rei adversário. Pois bem: as regras proíbem “categoricamente” que um rei se coloque, espontaneamente e num caso de loucura suicida, em posição de poder ser morto. O suicídio não está previsto pelas regras do xadrez. Portanto, “não existe”.

O projeto existencial do xadrez exclui o suicídio. Admite, entretanto, uma curiosa posição de empate, na qual todo e qualquer movimento do rei resultaria em suicídio. Nessa posição extrema, nessa situação de fronteira, o jogo para abruptamente. Está aniquilado. O abismo absurdo do nada faz periclitar o “significado” do jogo.

O rei não pode suicidar-se, já que “isto não existe”, e, não tendo outro movimento, “transcende” o tabuleiro, torna-o insignificante. O leitor que joga xadrez conhece a frustração da posição que estou escrevendo. Para o leitor que não joga tentarei expor um pouco mais detalhadamente essa situação de empate, porque creio (e isto é tese deste artigo) que muitos intelectos, e entre eles os melhores, estão atualmente nesta situação de empate.

O jogo de xadrez é um jogo a dois, exige um “outro”. “Eu” sou o meu rei e as peças auxiliares. O “outro” é o rei adversário com suas peças auxiliares. As peças auxiliares, tanto as minhas como as adversárias, não têm valor intrínseco, servem somente para defender o rei próprio e matar o rei adversário. São instrumentos. Justamente por causa disso podem ser avaliadas.

A dama vale dez, a torre vale cinco, o cavalo e o bispo três, e o peão um. A dama vale dez peões e um peão vale um décimo da dama. Como se vê a valorização das peças é circular. O rei não pode ser avaliado, já que o rei “sou eu” e “é o outro”.

Quero tão somente sugerir ao leitor os problemas da ética que se escondem na circularidade da avaliação das peças, e os problemas metafísicos que se escondem na definição absurda “o meu rei sou eu”. Quero tão somente provocar no leitor a inquietação que sinto ao considerar o xadrez como modelo do intelecto.

O meu verdadeiro intuito, entretanto, é diverso. Para tanto consideremos o “outro”, aquele cujo rei quero matar, portanto. Ele dispõe de instrumentos que são equivalentes aos meus. “Vale tanto quanto eu”. Está sujeito às mesmas regras. “É meu semelhante”. Quer me matar como eu quero matar a ele. “É meu próximo”. Responde aos meus movimentos e eu respondo aos dele. “Estamos em conversação”. Juntos, formamos uma entidade, somos uma partida de xadrez. “Pertencemos ao mesmo projeto (Mitsein)”.

Entretanto, nada disso é realmente correto. Na realidade o “outro” não existe. Se existisse, não haveria jogo de xadrez. Haveria um empate contínuo desde o primeiro lance. O que existe na realidade é a partida de xadrez dentro da qual estou lançado e qual é, para mim, um problema que devo aniquilar, sob pena de ser aniquilado. Para poder aniquilar o problema, estipulo um “outro” cujo rei possa matar.

Na realidade, portanto, o “outro” como meu equivalente, semblante, próximo e parceiro não existe, existe somente o “outro” totalmente diferente de mim, a partida. Esta análise existencial do jogo pode parecer contrária ao bom senso, o qual estipula o parceiro como condição primordial do jogo, mas ela se impõe, se quisermos honestamente enfrentar a vivência de uma partida de xadrez.

Tanto isto é verdade, tanto a situação da partida no desenvolvimento nos engole, que os dois parceiros, no senso comum deste termo, a enfrentam por assim dizer em aliança contra a partida. Lutam juntos contra o xadrez, contra o “inteiramente diverso”. É uma experiência curiosa essa observação da transformação gradativa dos parceiros adversários em aliados, e todo enxandrista a conhece. Também este problema quero tão somente sugerir ao leitor, sem aprofundar-me nele.

A partida com suas regras e suas peças (que incluem o meu rei, e portanto, a “mim”), segue seu curso ordenado mas imprevisível. As peças se movimentam de acordo com as regras, mas obedecem não obstante em parte ao meu livre arbítrio, em parte ao livre arbítrio do meu adversário, e em parte a uma “necessidade” secundária, resultado do choque das duas liberdades. Esta situação enormemente complexa é articulada pela frase enganadoramente simples: “estou movimentando as minhas peças de acordo com as regras do xadrez e em resposta aos movimentos do meu adversário, com a intenção de ganhar”.

No curso desse processo peças são eliminadas do tabuleiro, e como que engolidas pelo nada. De acordo com as constelações das peças restantes, estas adquirem valores flutuantes; um bispo pode adquirir importância decisiva, ou pode tornar-se até um empecilho. O jogo implica uma contínua revalorização dos valores. O peão avançado, com seu latente poder de transformação em dama, pode tornar-se, muitas vezes, o centro do problema.

Entretanto, todos estes valores continuam subordinados ao rei, e derivam o seu “significado” do rei. O rei, ele próprio, pode adquirir um caráter instrumental secundário, especialmente no final do jogo, atacando e defendendo peças. No final da partida o caráter ontológico do rei torna-se mais fluido que nunca. Ele é “eu”, ele é o “significado” do jogo, e ele é instrumento.

À medida que a partida progride, o aparente equilíbrio inicial é rompido materialmente (peças desaparecem), estruturalmente (posições mudam) e esteticamente (eu me sinto superior ou inferior, sem saber dizer por quê). O meu intelecto (e não somente o meu intelecto), está sendo absorvido pelo jogo, e a identificação entre “eu” e “rei”, irônica no inicio da partida, está adquirindo um aroma existencial, um aroma de “engagement”.

Estou dominado pelo jogo e domino o jogo. Analiso o jogo, não como objeto que me é estranho, mas como um problema do qual participo. Esta distinção me parece ser fundamental. A análise fria a qual os mestres submetem suas partidas é equivalente às analises científicas, e não às análises irônicas e distantes que são o ideal inalcançável da filosofia.

Imagine o leitor, portanto, que o meu “engagement” seja rompido, repentinamente, não por uma catástrofe externa, como um vento que derrube o tabuleiro, ou um amigo que entre na sala sem ser convidado, mas pela própria estrutura do jogo. Surge a posição de empate da qual falei no início deste artigo. O rei do adversário, já aparentemente ao meu alcance, encontra-se, por inabilidade minha, ou por trama diabólica sua, ou por uma conjunção destes dois fatores, ou por “acaso”, em posição de não poder mover-se a não ser em direção do suicídio.

Ou imagine o leitor a situação inversa: o meu rei, em perigo mortal, consegue refugiar-se na mesma posição absurda. O clima das duas situações é diferente, se visto a partir da partida. No primeiro caso sinto-me ludibriado, no segundo caso sinto alívio misturado com má consciência. Mas por que ludibriado, por que a má consciência, já que a posição é legítima enxadristicamente?

Porque a posição do empate que declara a “não existência” do suicídio põe em evidencia a limitação do xadrez, que realça a minha “transcendência” sobre o xadrez. A partida para, porque para ela o suicídio não existe, embora, fundamentalmente, a minha consciência me diga que “deva” existir.

Todo o jogo torna-se problemático nessa posição, não porque é falho internamente, mas porque não consegue absorver-me por inteiro. Perde significado. Torna-se irrisório. Assumo frente a ele uma posição de superioridade e ironia. Filosofo sobre ele.

O paralelo entre xadrez e intelecto é extremamente rico em sugestões e pontos de partida para especulações filosóficas. Como toda parábola, porém, pode ser facilmente exagerado. Não quero forçar demasiadamente o paralelo entre o rei do xadrez e o Eu do conhecimento, nem entre as peças do xadrez e o “como” do conhecimento, nem entre o parceiro do xadrez e o “outro” do reconhecimento.

Mas a posição do empate é demasiadamente prenhe de significado para a situação atual do intelecto para não ser considerada. O intelecto empatou atualmente, não por equilíbrio de forças entre ele e o seu “objeto” (isto seria uma posição de empate autêntica), mas por sua própria estrutura. Está empatado, porque todo e qualquer movimento implicaria suicídio, o qual não “existe”.

O intelecto demonstra as suas limitações, os seus fundamentos extra-intelectuais (como seja “vontade”, “vida”, “intuição”, etc), que não conseguimos abranger inteiramente. Torna-se irrisório. Assumimos frente a ele posição de superioridade e ironia. Filosofamos sobre ele.

Isto é perigoso. Muito mais perigoso que uma catástrofe externa o seria, se o jogo do intelecto é aquilo que nos “dignifica” (para usarmos um termo caro ao Renascimento). Abandonando este jogo, seremos presa fácil daquelas forças obscuras pré-intelectuais que demonstram o seu poder tão convincente na Alemanha recente.

Por outro lado não podemos ignorar o empate do intelecto. Não podemos ignorar a psicologia da profundidade, nem o teorema de Goedel, nem o fator de Heisenberg, nem todas as demais provas palpáveis e intelectuais da limitação do intelecto. Uma reavaliação do intelecto se impõe. 

Este me parece ser um dos problemas básicos da atualidade: encontrar uma nova fé no intelecto, sem cair no intelectualismo já definitivamente superado dos dois séculos passados. Que uma análise da posição do empate no xadrez sirva de ilustração desse problema.