FLUSSERBRASIL



A IMORTALIDADE DE
VICENTE FERREIRA DA SILVA
Vilém Flusser


Permitam que evoque, diante dos senhores, uma faceta da filosofia ferreiriana: o seu pessimismo.

A meu ver podemos dividir os pensamentos filosóficos que constituem a história da filosofia em dois grupos: a grande maioria pertence ao grupo dos que creem poder modificar o curso dos acontecimentos e influir sobre o futuro. A pequena minoria pertence ao grupo daqueles que não nutrem a menor esperança de um efeito da sua atividade, e Ferreira da Silva é um deles.

Por que, então, pensam e escrevem esses espíritos, por que se submetem ao terror e ao sofrimento que é o pensamento criador, se estão convictos da futilidade do seu empreendimento? Porque são condenados para o pensamento, porque há neles uma torrente criadora que se realiza sem respeito do resultado da criação por eles produzida. Quer me parecer que estes pensadores pessimistas estão marcados pelo sinal da autenticidade em grau muito maior que aqueles que esperam por resultados. Filosofam porque assim foram projetados, porque não podem senão filosofar, porque para eles a filosofia é tão necessária quanto o ar que respiram, e se o mundo não se modifica com a sua filosofia, o mundo que se dane.

Ferreira da Silva é uma torrente assim, uma torrente que jorra ideias e cadeias de ideias malgré lui, e que desdenha o efeito de si mesma. E é essa altivez do espírito ferreiriano que lhe confere esse cunho aristocrático que o caracteriza.

Maa o pessimismo ferreiriano está enganado. Não é verdade que a sua voz se perde no vácuo da barbárie tecnalizada que é, de acordo com ele, a cena do presente, e a nossa presença nesta sala é a prova desse engano. Porque o pensamento ferreiriano se derramou sobre nós para frutificar-nos e, longe de ter sido fútil, ainda nem começou a dar os seus primeiros frutos.

A mensagem ferreiriana é uma única advertência contra aquilo que por aqui chamam de progresso. O mundo se precipita, em progressão geomátrica, rumo ao abismo da realização total, portanto rumo ao tédio absoluto, e é essa progressão que chamam de progresso. Contra ela Ferreira da Silva se insurge sem esperança de poder sustar-lhe o avanço impiedoso.

Mas nós, que tivemos o privilégio de estar expostos à sua voz, nós somos doravante os lugares nos quais esse avanço pode mudar de rumo. Convocados como fomos para a resistência pela visão apocalíptica ferreiriana, formamos como que os elementos para a construção de uma represa a evitar a queda para a morte cinzenta e realizar as energias latentes da nossa civilização, daquela civilização que Ferreira da Silva não acreditava ser salvável.

Os argumentos que Ferreira da Silva avança contra o rumo dos acontecimentos são formidáveis e, creio, em grande parte irrefutáveis. Os argumentos que ele avança a favor da irreversibilidade dos acontecimentos são, felizmente, falhos. E a própria existência de Ferreira da Silva prova serem falhos esses argumentos, porque ele e pensadores como ele são a nossa garantia de novas aberturas para a civilização do Ocidente.

Mas depende de nós, os depositários da herança ferreiriana, com que rapidez e com que eficiência lançaremos mão dessa garantia. Creio ser nosso dever não somente propagar passivamente a sua mensagem, mas ainda desenvolvê-la em argumentação e contra-argumentação contínua, a fim de que ela cresça e contribua como detergente do curso nefasto dos acontecimentos.

Desta maneira Ferreira da Silva se imortalizará, não somente em nós, mas também dentro da civilização brasileira e ocidental que terá ajudado a salvar e tornar fecunda. Terá Ferreira da Silva se realizado como aquilo que era: o primeiro filósofo brasileiro.