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DO FUTURO
Vilém Flusser

O Estado de São Paulo, 01/02/1969


A nossa geração tem uma vivência do tempo que difere fundamentalmente da do século passado, o difícil é dizer em que ela difere. Esta dificuldade está no fato de não dispormos de conceitos para articular a vivência nova.

Em outras palavras: vivemos em um plano, e pensamos em outro. Os nossos conceitos (em grande parte herança do século passado) não conseguem captar a nossa vivência, e nossa vivência (em grande parte sem paralelo na história) não consegue articular-se.

Este divórcio entre pensamento e vida abre dois horizontes igualmente perniciosos: o do antiintelectualismo imediatista (exemplificado pelo hippie) e o do intelectualismo estéril (exemplificado nos vários formalismos e nas várias ortodoxias).

O desafio se dá no referente ao reformular de conceitos, em abandonar uns e criar outros. Em suma: alterar o repertório do pensamento. Obviamente, um dos primeiros conceitos a serem reformulados é o conceito de tempo.

Não é tarefa fácil porque, embora exista um divórcio entre o nosso conceito e a nossa vivência do tempo, existe também um "feed-back" entre ambos. Ou seja, embora o nosso conceito de tempo não capte a nossa vivência, perturba-a e falsifica-a. Consequentemente, nossa vivência do tempo procura adequar-se ao nosso conceito. Assim o conceito cristalizado modela e freia a vivência, e mascara o divórcio fundamental entre ambos.

Esta relação entre conceito e vivência, na qual o conceito é relativamente fixo e a vivência relativamente fluída, não é sempre o caso. Houve épocas caracterizadas pela relação inversa, nas quais conceitos explosivos revolucionaram vivências estagnadas. Com efeito, nossa situação de conceitos "reacionários" e vivências "progressistas" é relativamente rara.

Daí a dificuldade da nossa tarefa, pois é difícil admitir que os nossos pensadores (cientistas, artistas, filósofos) não representam a vanguarda, mas a retroguarda dos acontecimentos. Obviamente, os conceitos "reação" e "progresso", aos quais recorri, fazem parte do repertório cristalizado do pensamento. A necessidade que temos em recorrer a eles ilustra a dificuldade da nossa tarefa.

Mas existem acontecimentos privilegiados que ilustram, quais relâmpagos, nossa situação e tarefa. Um destes acontecimentos é o voo do Apollo 8: nele há o divórcio entre um aspecto do nosso conceito e da nossa vivência do tempo, a saber: o aspecto "futuro".

O propósito do presente artigo é tentar utilizar-se da luz desse relâmpago para alcançar uma visão da nossa cena, por fugaz que seja. Para tanto procurarei primeiro captar o "futuro" que a Apollo 8 aponta, e o que seria "futuro" nos sentido conceitual do termo "tempo". Em seguida procurarei mostrar o divórcio entre esse "futuro" e o "futuro" que vivenciamos. No decorrer da exposição espero poder tornar mais evidente qual é o nosso conceito do tempo, e porque é necessário reformulá-lo.

Comparem o voo do Apollo 8, não com a viagem de Colombo, como sugerem os jornais, mas com uma viagem de São Paulo a Santos pela Via Anchieta. Sugiro que a comparação revelará duas diferenças: (1º) a viagem do Apollo 8 se dá em paisagem menos vivenciada, e (2º) ela se dá em paisagem mais concebida. Já que os jornais salientam a primeira diferença, permitam que saliente a segunda.

A paisagem percorrida por Apollo 8 é quase ideal para o funcionamento dos computadores e dessa nova ciência chamada "futuráveis". Isto significa que nela prevalecem algumas poucas influências ponderáveis (por exemplo, o campo gravitacional da Terra, da Lua, do Sol, de Vênus, e as várias forças dos foguetes), e algumas poucas influências menos ponderáveis, mas secundárias e quase desprezíveis (por exemplo, os ventos na atmosfera a ser percorrida, o resfriado de Borman, os estados psíquicos dos astronautas).

Em tal paisagem altamente previsível, as surpresas são pouco prováveis. Mas dizer que algo é previsível é dizer que foi previsto. Se, pois, a paisagem percorrida por Apollo 8 é uma paisagem do futuro, no sentido de pouco ou não vivenciada, ela também é uma paisagem do passado, no sentido de concebida e relativa isenta de surpresas. Estamos diante de dois sentidos diferentes do termo "futuro".

A paisagem percorrida na viagem de São Paulo para Santos é diferente. Presta-se menos a computadores e é menos "futurável". As influências ponderáveis são muito mais numerosas (por exemplo, além da estrada e do automóvel, também o estado da pista, dos pneus, da gasolina etc. etc), as influências secundárias são inúmeras e praticamente imponderáveis, portanto, menos desprezíveis (por exemplo, o clima, um cachorro na pista, um encontro com amigos, um copo de cerveja a mais, etc. etc.).

Em tal paisagem altamente imprevisível, as surpresas são prováveis. Querer programar uma viagem a Santos com computador, e querer "futurá-la", é querer alterar-lhe a própria essência, que é de aventura. A paisagem percorrida na viagem a Santos é uma paisagem do passado, no sentido de muitas vezes vivenciada, mas é uma viagem do futuro, no sentido de potencialmente surpreendente.

Estamos diante dos mesmos dois sentidos do termo "futuro". A viagem de Colombo passa por paisagem ainda menos vivenciada por aquela percorrida por Apollo 8, e ainda menos previsível que aquela percorrida pela Via Anchieta. É uma paisagem do futuro em ambos os sentidos do termo, e nela, portanto, o divórcio dos dois sentidos não aparece.

O nosso conceito de tempo faz com que tentemos transformar todas as paisagens do tipo "Via Anchieta" em paisagem do tipo "Apollo 8", tornando todas as paisagens "futuráveis": tanto físicas quanto biológicas, tanto psicológicas quanto econômicas, tanto políticas quanto artísticas, tanto éticas quanto religiosas.

A ordem pela qual numerei as paisagens corresponde aproximadamente à ordem pela qual a futuração progride. A meta é eliminar das paisagens as influências imponderáveis e incomputáveis. O método é duplo: uma influência imponderável pode ou ser transformada em ponderável pela sua análise e decomposição em influências ponderáveis, ou, se isto não for possível, pode ser desprezada provisoriamente.

Este desprezo provisório pode ser ponderado, ele próprio, na computação como margem de erro prevista. É perfeitamente previsível que a margem de erros prevista tenderá a diminuir, na medida em que aumenta a futuração de várias paisagens, e na medida em que haverá uma integração das várias paisagens. Desta forma serão eliminadas surpresas (catástrofes) do futuro e o futuro estará aberto, pelo menos num dos dois sentidos mencionados do termo "futuro".

Claro que nada disto é novo: inteligência significa, pelo menos em parte, previsão do futuro ("futuração"), e a ciência, que nada mais é senão inteligência disciplinada, significa, pelo menos em parte, "futuração" disciplinada. De modo que a futuração é tão antiga quanto o é a humanidade (senão mais antiga ainda) e disciplinou-se pelo menos a partir do Renascimento.

Há, no entanto, um elemento novo em tudo isto. É a sensação de que a futuração (que é a previsão inteligente do futuro) aniquila o futuro, e que, na medida na qual ela progrida, deixamos de ter futuro neste segundo sentido do termo. De forma que esta sensação pode ser diagnosticada como o divórcio entre o nosso conceito e a nossa vivência do tempo; o intelectualismo como um agarrar-se à futuração, e o antiintelectualismo como uma recusa à futuração e busca de uma catástrofe imprevisível.

O conceito de tempo, dentro do qual se dá a futuração, tem a ver com um fluxo "objetivo" de acontecimentos, fluxo esse que se dirige do passado para o futuro, e passa por um ponto imaginário chamado "presente". Esse fluxo é "objetivo" no sentido de ordenado por regras apriorísticas como, por exemplo, a entropia.

São estas regras extratemporais que tornam a futuração possível, de forma que ela se dê em algum ponto fora do tempo, aquele lugar medieval, com efeito, no qual ("para Deus") futuro e passado se confundem. A vivência do tempo, onde se dá a recusa à futuração, tem a ver com a experiência do homem como presença que se lança contra o futuro para transformá-lo em passado. É marcada, como toda vivência, pela subjetividade. E por um empirismo negador de todo apriorismo. Para este empirismo subjetivo a futuração aniquila o futuro, porque elimina o terreno da experiência imprevisível, eliminando o sentido da vida.

Obviamente há algo profundamente errado nas duas posições elaboradas, um tanto exageradamente, neste artigo. E o erro está no divórcio entre ambas. Do lado da futuração, o erro está na desexistencialização do conceito de tempo. E no fato de uma situação futurável ser isenta de valores. Do lado do neo-empirismo hippie o erro está na consideração que não pode haver um lançamento contra o futuro, aonde não há previsão, pelo menos parcial, das potencialidades.

Mas apontar o erro é muito mais fácil que saná-lo. Urge reformular o conceito de tempo, para torná-lo mais vivenciável, e evitar uma queda na barbárie anárquica do abandono da previsão inteligente. Mas como fazer essa reformulação, eis o problema. Dizer apenas que é preciso exorcizar o conceito de tempo não basta. Para que haja futuro, e não apenas progresso, para que haja sentido na vida, e não apenas viagens à Lua. É preciso de algo mais radical, a saber: uma reformulação de conceitos. Desconfio muito que essa reformulação tem algo a ver com a nossa capacidade religiosa, ou com aquilo que se chama "religiosidade" no repertório cristalizado do nosso pensamento.

Seria necessário reformular esse conceito antes de reformular o restante, inclusive o conceito de tempo? Com esta pergunta perplexa, encerro este discurso rumo ao território do futuro.