FLUSSERBRASIL



DO TEMPO
  E DE COMO ELE ACABARÁ
Vilém Flusser

O Estado de São Paulo, 31/03/1962

 

A pergunta "o que é o tempo?" é do tipo daquelas que não admitem resposta. Isto não impede que ela seja formulada.

Desde épocas imemoriais, desde o Tao-Te-King, o Rig-Veda ou o primeiro livro de Moisés, até Heidegger, Einstein e os biólogos modernos, ela tem sido formulada de maneira cada vez mais exata e rigorosa. Aparentemente, o espírito humano obedece a um impulso irresistível de levantar a cortina do tempo e desvendar o "Ser em si".

No decorrer da história ocorreram formulações extraordinariamente felizes e fecundas a esse respeito. A kantiana, que define o tempo como uma das formas pelas quais a razão conhece a "coisa em si". A schopenhaueriana, que considera o tempo como manifestação da vontade. A bergsoniana, que aceita o tempo como o princípio criador, em contraste com a "duração" destruidora. A heideggeriana, que interpreta o tempo como a maneira pela qual a existência se impõe, transformando coisas em instrumentos.

Isto, para mencionar apenas quatro exemplos típicos e recentes. Em todos eles parece que o problema foi superado, embora não solucionado. Entretanto, o espírito humano, insatisfeito, torna a perguntar por que o tempo continua a nos enfrentar, a cada um de nós, com a insistência e a opressão de sempre.

Se verdade é que a procura da definição do tempo mantém-se inalterada, não é menos verdade que isso se tem mostrado inteiramente inútil. Revelaram-se certos aspectos que podem ser considerados como definitivamente estabelecidos: deixando de lado o conceito do tempo absoluto, geralmente considerado superado, surge o tempo como a forma pela qual as coisas aparecem ao espírito, e o espírito reage às coisas. Surge como vivência do conhecimento.

Quando o espírito se inclina para o "de todo diferente", "a coisa", a fim de conhecê-lo, quando o "de todo diferente" se inclina sobre o espírito para realizá-lo, surge o tempo. Portanto, possui o tempo o seu lado subjetivo (quando visto a partir do espírito) e o seu lado objetivo (quando visto a partir da "coisa", do "de todo diferente").

Tradicionalmente, temos duas imagens do tempo objetivo: a da roda que gira e da flecha em voo. A primeira, que devemos aos gregos, é responsável pela nossa concepção mecânica do mundo, com seus processos repetitivos. A segunda é responsável por nossa concepção biológica e histórica do mundo, com seus processos irreversíveis.

A ciência atual está em vias de abandonar o primeiro conceito. Ela parece querer abrir mão dos processos repetitivos, embora corra o risco de perder, juntamente com eles, a possibilidade de uma interpretação racional dos acontecimentos do mundo. A segunda lei da termodinâmica ensina a irreversibilidade de certos processos, donde se conclui que o tempo objetivo teve um começo, quando esses processos se iniciaram, e terá um fim, quando eles se tiverem efetivado em sua totalidade. A irreversibilidade de tais processos diminui, progressivamente, a oportunidade de realizações no mundo das coisas.

Para usar uma expressão curiosamente invertida da ciência: "a entropia no mundo aumenta constantemente". De certa forma, entropia e tempo objetivo são sinônimos: o progresso do tempo é idêntico à oportunidade ultrapassada. O acúmulo de oportunidades ultrapassadas, como medida de tempo, serve melhor do que as horas, os dias e os anos. Isto porque é linear e as medidas clássicas são circulares.

Conseguimos este aspecto objetivo do tempo se nos colocamos no lugar da "coisa", isto é, da negação de nós mesmos. Devemos esse aspecto à capacidade do nosso espírito de sair de si mesmo e virar-se contra si mesmo. Conseguimos esse aspecto "refletindo" ou "especulando" (de speculum - espelho).

O tempo que se nos apresenta desse ponto de vista não é o tempo vivido, nem aquele que nos faz sofrer e que lutamos para não perder. Não é aquele que queremos penetrar para ultrapassá-lo. No mundo das coisas, com seu começo, sua permanência, seu fim, ele é irrelevante, a não ser que seja percebido, conhecido, avaliado, enfim, vivido. Sem essa vivência que carece de realidade é ela que surge nesse mesmo nexo entre espírito e coisa, no qual surge, conforme foi dito, o tempo.

A conclusão parece querer impor-se: realidade e tempo estão interligados. Não há realidade extratemporal e eterna. Recuso-me, provisoriamente, a tirar essa conclusão desesperada, pois proponho que seja analisado, primeiro, o aspecto subjetivo do tempo.

Visto do sujeito, portanto, a partir de mim, o tempo se manifesta como um colar de instantes, e vivemos segundo ele. Todo instante é um desafio: exige que tome posição em relação às coisas que sobre mim se precipitam. Todo instante exige que eu compreenda e apreenda as coisas para escolher, dentre as oportunidades quase infinitas que elas oferecem, uma única, recusando todas as demais.

Não considerarei a questão: até que ponto se trata de uma escolha livre, até que ponto uma opção obrigatória? Em todo o caso, sou obrigado a escolher, num instante, uma dentre as muitas possibilidades (seja ativa, seja passivamente), e a escolhê-la irrevogavelmente. Sou obrigado a abandonar, num instante, todas as oportunidades que me são dadas, salvo uma.

O caminho da minha vida, isto é, o meu tempo, deixa para trás um exército gigantesco de oportunidades definitivamente perdidas. Aí reside a dramaticidade do tempo: toda escolha é irrevogável e irremediável. O consolo da segunda oportunidade, da oportunidade recorrente, é desonestidade intelectual e moral, por ser fuga inautêntica para dentro do tempo circular dos processos reversíveis.

Essa dramaticidade do tempo subjetivo é aumentada por minha certeza de sua limitação, pela certeza da morte. A morte injeta, para dentro de cada instante, uma tensão quase insuportável. Mas é suportada na prática, graças à nossa capacidade de recalcar a morte. "A gente" não se resolve a morrer, e decai, portanto, cegamente, para a morte. Nessa queda desesperada, a angústia de cada instante é o clima da vida.

O tempo é o grande inimigo. Se me resolvo, entretanto, para a morte, de modo a inclui-la, conscientemente, em cada instante, meu tempo passa a compor-se de instantes finais, de escolhas definitivas. O juízo final está em sessão permanente, para falar, desde já, teologicamente.

A morte, isto é, a limitação do tempo subjetivo, é a contrapartida da entropia, que, por sua vez, é a limitação do tempo objetivo. O fim do tempo objetivo é, conforme foi dito, inteiramente inócuo. Não por estar situado a uma distância imensurável, mas por estar situado além da minha morte. Tem interesse puramente parasitário, reflexivo e especulativo.

Entretanto, sua contemplação ajuda a suportar o tempo. Esta é a explicação dos quiliasmos que acompanham surdamente a história do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, e cuja forma mais moderna é o marxismo. O resolver-se para o fim do mundo é mais fácil e mais otimista do que a resolução para a própria morte.

A certeza da morte forma o núcleo mais certo das minhas certezas. No entanto, uma voz dentro de mim continua a afirmar, quase inaudivelmente, uma realidade independente da morte, e, por consequência, do tempo. Essa fé em minha imortalidade, em minha origem e destinação além do tempo, é, em vista do já exposto, uma fuga inautêntica para a metafísica a fim de escapar à resolução para a morte.

No entanto, essa fé é dada. Conseguindo extirpá-la com a ajuda da razão (tarefa difícil, senão impossível), a consistência íntima do meu Eu sofre um abalo. O colar dos instantes que forma o meu tempo perde o fio unificador, e os instantes, como pérolas soltas, rolam desordenadamente, até se perderem. Com a fé na imortalidade perde-se o sentido da vida, emergindo esse estado de ânimo aparentado à loucura que os filósofos existenciais chamam acertadamente de "nojo".

A fé na realidade além do tempo, num Ser além da existência, numa vida além da morte, é irracional e indiscutível. O que se esconde atrás do tempo, "a coisa em si", "a alma imortal", "Deus", ultrapassa a vivência e o conhecimento. É uma região da qual falam, tão-somente, os mitos, e estes deixaram de ser, há centenas de anos, instrumentos do espírito civilizado.

Contudo, há uma visão imediata, uma fusão entre o espírito e o "de tudo diferente", alcançada na arte e na meditação disciplinada (geralmente inarticulada), e que Husserl tentou articular em sua fenomenologia. Graças a ela conseguimos vislumbrar, embora fugazmente, a realidade atrás do tempo.

Detenhamo-nos: não tem sido mencionada essa fusão entre espírito e "coisa" no decurso deste trabalho? Parti da fusão para iluminar o surgir do tempo. Volto a ela para iluminar o ultrapassar o tempo. Essa fusão, portanto, nada tem de místico, já que é o humus do qual brota todo o conhecimento. A fé numa realidade extratemporal, baseada na fusão imediata entre espírito e coisa, não pode ser, portanto, irracional, como quis parecer à primeira vista. Ela é irracional somente no sentido de ser anterior a toda razão.

Digo mais: a fé numa realidade extratemporal, numa realidade somente além do tempo, forma, em última análise, a base de toda disciplina intelectual e espiritual, inclusive de todo o conhecimento. Essa fé não pode ser, portanto, extirpada. O tempo é, portanto, a forma pela qual o espírito humano se afasta de suas origens. O fim do tempo é a volta, talvez enriquecida, desse espírito para a sua origem.

O tempo é o abismo que separa o espírito da "coisa", do "de todo diferente". É por isso que o tempo é quase insuportável. Ele é capaz de nos engolir, aniquilando-nos dessa maneira. E pode ser superado apenas com a fé na imortalidade. Essa fé, conforme me esforcei por demonstrar, é indestrutível.

A sua voz, no entanto, está sendo atualmente sufocada pela argumentação insistente e consistente da razão consciente. O problema é: continua essa voz ainda audível?